Daiga Ellaby/Unsplash.com
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Menos é mais: controle os exageros com as crianças

Estudo indica que os filhos se beneficiam quando têm mais espaço e menos atividades

Elizabeth Chang, The Washington Post

18 de junho de 2022 | 05h00

Leidy Klotz, professor de engenharia e arquitetura da Universidade da Virgínia e pai de dois filhos, e Yael Schonbrun, psicóloga clínica, professora-assistente da Brown University e mãe de três, têm prestado menos atenção às crianças ultimamente. E elas são melhores por isso, acreditam. “Tento ignorá-los por um pouco de tempo todos os dias”, contou Schonbrun, cujos filhos têm 5, 9 e 12 anos. 

“Ao subtrair ocasionalmente a atenção de seus filhos, Klotz e Schonbrun colocam em prática uma lição extraída da pesquisa que Klotz, com filhos de 7 e 3 anos, vem realizando nos últimos anos: é da natureza humana resolver problemas adicionando, mesmo quando subtrair daria um resultado melhor. 

Eles chegaram a essa conclusão por meio de uma série de experimentos criativos publicados na revista Nature, que envolviam tarefas como consertar uma estrutura de Lego (remover um tijolo era a melhor solução) ou tentar fazer um padrão de quadrados simétrico (a chave era apagar os quadrados, não adicioná-los). Mas foi quando ele fez uma compra desesperada tarde da noite de uma engenhoca de balanço para acalmar seu bebê recém-nascido que Klotz entendeu como essa tendência afeta os pais. 

Quando soube da compra, Schonbrun, que conheceu Klotz por causa de seu podcast, Psychologists Off the Clock, apontou que ele havia caído na armadilha da pesquisa: sua abordagem para resolver o problema de um bebê chorando foi adicionar outra engenhoca em vez de se concentrar, digamos, em um horário de sono consistente.  

Há especialistas que defendem a “criação minimalista” ou dizem aos pais que devem dar menos elogios, menos atenção, menos atividades e menos brinquedos aos filhos. Pesquisas mostram uma correlação entre pais superenvolvidos e jovens adultos com problemas como esgotamento escolar, incapacidade de regular suas emoções ou ansiedade e depressão. 

Tendência natural

Mas a pesquisa de Klotz ajuda a entender as razões de maneira científica – como uma tendência natural, e não como uma falha dos pais.

Por que os humanos desenvolveram esse atalho mental? Uma teoria é que isso oferecia benefícios evolutivos – mais comida, mais companheiros, mais foco nas crianças aumentaria as chances de sobrevivência de uma família. E à medida que as civilizações se desenvolveram, “adicionar tem sido o melhor caminho”, observou Klotz. 

Schonbrun explicou que também há uma possível razão psicológica para a propensão a acrescentar: a ânsia dos humanos de evitar a incerteza. “Quando ficamos desconfortáveis queremos desenvolver um senso de certeza”, o que podemos tentar fazer adicionando algo para garantir os resultados desejados – seja coletar mais comida para que nossos filhos não passem fome ou inscrevendo-os para mais atividades. 

Além dos imperativos evolutivos e psicológicos, também podem haver influências culturais modernas em ação, admitiu Schonbrun. “Nós evoluímos para essa cultura de quanto mais, melhor... mais cultura, mais cultivo dos interesses de seus filhos, mais atividades, mais comidas diversas, apenas mais de tudo.” Klotz e Schonbrun suspeitam que isso também esteja relacionado ao fato de os pais estarem constantemente sob pressão e sobrecarregados. Um dos experimentos de Klotz mostrou que as pessoas que operam sob uma carga cognitiva pesada são mais propensas a confiar em atalhos mentais e a perder oportunidades de subtrair. 

“Muitas vezes pensamos em quais são nossas tarefas, quais são as coisas que devemos fazer e muito raramente pensamos no que podemos parar de fazer.” Essa tendência foi demonstrada pelo experimento, no qual os participantes deveriam melhorar um itinerário para uma viagem de um dia em Washington, D.C. O itinerário apresentado era impraticável porque tinha 14 atividades que exigiam um tempo de viagem de duas horas (sem trânsito). No entanto, só 1 em cada 4 participantes removeu uma atividade. 

Seja em uma viagem de um dia ou em semanas repletas de aulas, esportes e atividades, “acabamos não tendo uma experiência muito rica porque estamos estressados e sobrecarregados”, concluiu Schonbrun. “Essa é uma espécie de situação do pai moderno, eu acho.”

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