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Mercados de animais silvestres na China podem estar ligados ao coronavírus

Atração em dezenas de cidades, eles podem ser a causa de um surto que espalha medo, constrange a burocracia do Partido Comunista e expõe os riscos de doenças que podem contaminar lugares onde convergem ser humano e vida selvagem

Steven Lee Myers, New York Times

30 de janeiro de 2020 | 11h42

LANGFANG - O mercado típico chinês tem frutas, legumes, verduras, carne bovina, suína, ovina, aves limpas - com as cabeças e os bicos - peixes, caranguejos vivos cuspindo água em agitados tanques de água. Algumas bancas vendem mercadorias mais inusitadas, como cobras vivas, tartarugas e cigarras, porquinhos da Índia, texugos, ouriços, lontras e até mesmo filhotes de lobo.

Os mercados são atrações em dezenas de cidades da China, e agora, pelo menos pela segunda vez em 20 anos, são a fonte de uma epidemia que espalha medo, constrange a burocracia do Partido Comunista, e expõe os riscos de doenças que podem contaminar lugares onde convergem seres humanos e a vida selvagem.

coronavírus letal que infectou milhares de pessoas na China e em outras partes do mundo aparentemente surgiu de um destes lugares: um mercado atacadista de Wuhan, em que os comerciantes vendem animais vivos em locais fechados, onde há concentrações de centenas deles. “É ali que aparecem doenças novas jamais vistas pela população”, disse Kevin J. Olival da EcoHealth Alliance, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos, que monitorou os surtos anteriores.

Segundo as autoridades e os cientistas, o novo contágio tem semelhanças assustadoras com o surto da Sars, a síndrome respiratória aguda, que no final de 2002 provocou cerca de 800 mortes e deixou milhares de pessoas doentes no mundo todo. Agora, o governo chinês luta para conter a revolta do público, que exige medidas mais drásticas em matéria de regulamentações  ou até mesmo a proibição da venda de animais silvestres - e uma rápida resposta às crescentes interrogações sobre o motivo pelo qual tão poucas coisas mudaram nos 17 anos desde a explosão da Sars.

A doença foi atribuída na época a um coronavírus que pulou dos morcegos para as civetas, criaturas semelhantes a gatos muito apreciadas como petisco no Sul da China, e depois para os seres humanos que trabalhavam no comércio desses animais. As autoridades e os cientistas afirmam agora que o novo vírus também se teria originado em morcegos e pulado destes para outros mamíferos, embora não esteja claro ainda em qual deles. O surto mais recente provocou apelos dentro e fora da China para a adoção de regulamentações mais rigorosas ou até mesmo para que se ponha fim a estas aventuras culinárias.

Embora as tartarugas e a carne de javali não sejam raras nos restaurantes chineses, a carne de outro tipo de caça, como a das civetas ou cobras costuma ser considerada uma especialidade somente em algumas regiões. O seu consumo nasce tanto do desejo de ostentar riqueza quanto de uma mescla de superstição e crença nos benefícios  para a saúde da carne de animais silvestres.

Assim que o Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, em Wuhan, foi identificado como a fonte mais provável deste surto, em dezembro, foi fechado imediatamente, embora não ficasse claro o destino dado aos animais que estavam à venda. As autoridades anunciaram somente no dia 22 de janeiro que a venda de animais silvestres foi proibida em toda a província de Hubei. Duas outras províncias, Henan e Mongólia Interior, também impuseram a suspensão do seu comércio naquela semana.

No dia 24 de janeiro, as autoridades de três agências nacionais anunciaram a adoção de controles mais rigorosos, inclusive a proibição em âmbito nacional da venda e transporte de animais possivelmente ligados ao novo coronavírus. A ordem especificou somente texugos e ratos de bambu; e ambos os animais estavam à venda no mercado de Wuhan.

Após uma inusitada revolta da sociedade contra o comércio de animais silvestres, o governo decidiu implementar uma série de medidas. Uma campanha promovida pela a plataforma de mídia social Weibo, teve 45 milhões de visualizações com o hashtag #rejectgamemeat.

“Comer animais de caça não cura a impotência e nem tem poderes de cura”, escreveu  Jin Sichen, um apresentador de televisão de Nanjing, cidade no sudeste da China, em sua página da Weibo. “A caça não só não cura doenças, como inclusive adoece você, a família, os amigos e outras pessoas”.

Um grupo de 19 estudiosos chineses pediu ao governo uma ação mais drástica na regulamentação do comércio e também a proibição do consumo de animais silvestres por parte do público. A Wildlife Conservation Society, uma organização de defesa sediada em Nova York, pediu a proibição global da venda comercial de animais silvestres, principalmente em mercados como os da China.

Christian Walzer, o diretor executivo da área de saúde da organização, disse que a espantosa diversidade de animais silvestres nestes mercados, na China, repletos de pequenas gaiolas em lojas de mercado superlotadas, criou um laboratório perfeito para a incubação involuntária de novos vírus capazes de invadir as células humanas. Os vírus podem se espalhar pela saliva, pelo sangue ou pelas fezes. “Cada animal é um pacote de patógenos”, ele disse.

No entanto, alguns consumidores chineses atribuem benefícios medicinais aos animais. Vendedores e até mesmo autoridades anunciam a vida selvagem como fonte alternativa de proteínas e de renda em regiões mais pobres. Um artigo da agência de notícias Xinhua, no final do ano passado, por exemplo, afirmava que a criação de ratos de bambu contribuiu para tirar as pessoas da pobreza em Guangxi, outra província do sul.

Os temores com a carne comercializada começaram no ano passado com o surto de febre suína africana, que causou o abate de 40% dos suínos do país. A produção de gado nas fazendas do país, se comparada à venda de animais silvestres, está sujeita a um número muito maior de regulamentações muito mais numerosas e uma inspeção severa. Surtos podem ocorrer, mas são identificados mais rapidamente.

Parte do problema do comércio de animais silvestres é o fato de que não é bem regulamentado, apesar dos riscos maiores de contágio dos animais vivos entre si e os seres humanos, principalmente nos mercados que frequentemente não tem condições higiênicas adequadas.

Segundo Walzer, um problema ocasionado pela produção legal de algumas espécies está no fato de que poderia confundir as linhas entre os que são criados em cativeiro e os capturados na floresta, onde vírus desconhecidos existem há anos sem nenhum contato com os seres humanos. “É um perigo para a saúde pública, não apenas na China, mas em toda parte”, afirmou.

No pico da epidemia da Sars em 2003, as autoridades proibiram a venda de civetas e abateram os estoques existentes, mas meses mais tarde retiraram a proibição e o comércio recomeçou como antes. “Tudo é movido por interesses”, afirmou Qin Xiaona, presidente da Capital Animal Welfare Association, uma organização protetora em Pequim, referindo-se ao surto atual. “Hoje, muitas pessoas lucram com o comércio de animais silvestres”.

O tráfico de algumas destas espécies é proibido, como o dos pangolins, ameaçados de extinção, apreciados por suas escamas e pela carne, mas a Administração Nacional de Florestas e Pastagens da China permite que as pessoas criem 54 espécies de animais, aves, répteis e insetos, inclusive avestruzes, emas e centopeias.

Na plataforma de compras online, Taobao, muito popular na China, é possível adquirir todas as espécies destes animais vivos. Um filhote de texugo custa 1,3 mil renminbi, ou US$ 187. Um produtor de Hunan, província diretamente ao sul de Hubei, vende civetas, das quais se originou a SARS, pelo equivalente a US$ 215 cada uma. No mercado de Langfang, na zona sul de Pequim, um vendedor anunciava um crocodilo vivo (US$550) , e um porco-espinho (US$ 115).

Segundo um blog de medicina postado no WeChat, as autoridades da área de saúde de Wuhan visitaram o mercado em setembro e inspecionaram oito vendedores de rãs, cobras e ouriços, entre outros animais. Todos tinham licença para a venda de animais silvestres, e nenhuma infração foi encontrada.

A epidemia agora colocou os vendedores na defensiva. “Você tem certeza de que a causa da epidemia está no consumo de animais silvestres?” perguntou Zheng Ming, o gerente de vendas de uma companhia que comercializa animais em Yichang, uma cidade a 290 quilômetros a oeste de Wuhan. Até o anúncio da entrada em vigor da proibição, ele vendia porcos espinhos, civetas, porquinhos da Índia e ratos de bambu, entre outros. “Nós cumprimos a lei”, ele disse. “O nosso negócio é absolutamente legal”. James Gorman contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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