FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Mesmo idosos com comorbidades devem tomar a vacina contra a covid-19, dizem especialistas

Não há evidências de que esses pacientes tenham mais efeitos colaterais nem contraindicação absoluta para a vacinação

Luiz Carlos Pavão, Especial para o Estadão

01 de março de 2021 | 20h00

SÃO PAULO — À medida que a campanha de vacinação contra a covid-19 é ampliada nas cidades brasileiras, crescem as dúvidas sobre a adequação dos imunizantes aplicados em quem tem uma ou mais doenças, como pacientes em tratamento de câncer, com Alzheimer ou doenças autoimunes. No Brasil, até o momento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial da Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a Sinovac, e da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, que tem parceria com a Fiocruz.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, afirma que não “há nenhuma evidência de que pacientes com comorbidades tenham maior probabilidade de apresentar efeitos colaterais” nem contraindicação absoluta para a vacinação, seja pela idade ou por doença crônica que a pessoa possua. Ele explica que pessoas que estejam realizando tratamentos para doenças com medicamentos que baixam a resistência podem escolher o "momento certo" para se vacinar.

“Algumas doenças, especialmente as que demandam tratamento com drogas imunossupressoras, como para o tratamento de câncer ou de doenças reumáticas, utilizam medicamentos que são moduladores da resposta imune. Então, nestes casos, pode-se escolher o melhor momento de vacinar. Não por risco dessas vacinas inativadas, mas para que a resposta da vacina seja mais adequada.”

Kfouri exemplifica: “Se você vacinar um indivíduo que está fazendo quimioterapia, isso baixa tanto a resistência que não vai ter uma quantidade de anticorpos suficientes para a vacina fazer efeito. Para isso, talvez necessite uma avaliação do médico para entender qual é o melhor momento."

Sobre alguns dados que surgiram na Noruega de idosos com doenças crônicas muito graves que morreram após a aplicação da vacina da Pfizer, o infectologista explica que “não se estabeleceu até agora nenhuma relação causal se a vacina é responsável pela morte". "Até aqui não se estabeleceu nenhuma relação causal tampouco alguma contraindicação para essas vacinas para essas populações muito idosas.” 

Sobre possíveis efeitos colaterais, o especialista recomenda que pessoas que tenham histórico de anafilaxia anterior ou quem tem reações alérgicas graves sejam vacinadas em locais com suporte para este tipo de atendimento e ficar em observação por 30 minutos. “Se a pessoa, neste caso, tiver alguma dessas reações, é contraindicada as doses subsequentes. Especialmente em idosos, esse tipo de reação é rara”, afirma.

“Embora a vacina de Oxford seja uma categoria nova que a gente não pode enquadrar com a clássica divisão ‘viva ou inativada’, ela tem um componente vivo que é o vetor viral, mas ele é enfraquecido e não replicante, é retirado dele alguns segmentos do genoma responsáveis pela replicação viral, portanto se comporta na prática como uma vacina inativada, assim como a Coronavac, então por essas características, não tem também contraindicações.”

Para a médica e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Zarifa Khoury, o risco de um idoso em tratamento de doenças ou com comorbidades ter seu quadro agravado pela covid-19 é muito maior do que por possíveis efeitos adversos das vacinas. “A gente tem que pensar sempre no risco e benefício. O risco de uma pessoa idosa se infectar pelo coronavírus e ter complicações e falecer pela doença é muito alto. É, sem dúvidas, muito melhor receber a vacina porque o risco de ter um efeito adverso, mesmo que um efeito mais grave que seja, é muito menor do que o de contrair a covid-19 e acabar com uma complicação. É muito importante que se tome a vacina.”

A especialista explica o funcionamento da Coronavac e diz que não há nenhuma contraindicação nem a necessidade de se consultar com um médico previamente para a vacinação. “Como se trata de um vírus inativado, ou seja, não é um vírus vivo, mesmo as pessoas que têm um sistema imunológico comprometido, não existe a replicação no organismo humano. A pessoa vai receber a vacina e fabricar anticorpos. Talvez a resposta dela para a vacina seja diferente de uma pessoa mais jovem e com um sistema imunológico mais ativo, mas não há nenhuma contraindicação nem um risco adicional de se ter um efeito adverso grave por isso”.

Zarifa compara a Coronavac com a vacina contra a febre amarela. “Na vacina da febre amarela se utiliza um vírus ativo enfraquecido. Se ela for aplicada em uma pessoa com câncer, por exemplo, mesmo o vírus enfraquecido pode se replicar no organismo dessa pessoa debilitada, pois é um agente vivo”. E explica a diferença da vacina de Oxford. “Nesta, o processo é diferente, há um veículo de vírus vivo com material genético com RNA do coronavírus, mas, como foi demonstrado nos estudos clínicos, na grande maioria das vezes não é observado nenhum efeito colateral significativo.”

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), em nota, também se diz favorável à ampla e imediata vacinação de idosos no Brasil, sobretudo direcionada aos mais expostos e suscetíveis às graves formas da covid-19. “Os idosos frágeis, portadores de doenças crônicas, incluindo demência e moradores de instituições de longa permanência."

A sociedade de especialistas argumenta que mesmo existindo a possibilidade de que a resposta imunológica induzida por vacinas pode ser menor em pessoas com mais de 60 anos, “a maior incidência de apresentações graves da doença e sua alta letalidade entre idosos permitem estimar relevante redução absoluta de desfechos mesmo se a eficácia da vacina (redução relativo de risco) for menor nessa população.”

A SBGG, no entanto, recomenda que, mesmo após a vacinação, sejam mantidos os cuidados de prevenção, como a lavagem de mãos, higienização de superfícies, uso obrigatório e correto de máscaras, assim como o distanciamento social.

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