Ed Ferreira / Estadão
Ed Ferreira / Estadão

'Metade dos brasileiros não retornaria se fizesse programa em Miami', diz representante da Opas

Em evento sobre os 30 anos do SUS, Joaquim Molina comentou saída de Cuba do programa Mais Médicos

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2018 | 23h55

BRASÍLIA - Uma semana depois de o vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, afirmar que metade dos cubanos não voltaria para a ilha caribenha após o rompimento do acordo do Mais Médicos, o representante da Organização Pan-Americana de Saúde no Brasil (Opas), Joaquim Molina, rebateu: “Metade dos brasileiros não retornaria, caso fizessem um programa em Miami. Há sempre uma atração pelo diferente.”

Molina afirmou não haver no momento uma estimativa de quantos profissionais recrutados pela Opas para participar do Mais Médicos deverão ficar no País, depois do rompimento do acordo, há duas semanas. Mas garantiu que o oposto também ocorre. Profissionais que, com o fim da colaboração do Mais Médicos, vão levar a família formada no Brasil para viver em Cuba. Pelo menos 1.307 médicos cubanos que atuavam em 733 municípios - de um total de 8,3 mil profissionais da ilha - já deixaram o País, disse a Opas.

No cargo até o fim de dezembro, quando se aposenta, Molina lembrou que o Mais Médicos garantiu o acesso da população mais necessitada à saúde e ajudou o Brasil a resolver um problema que havia anos se agravava: a falta de médicos em locais mais distantes. “O Brasil estava em uma situação desesperadora. Eram milhares de postos vagos, lançados em anos sucessivos, que não eram ocupados ou, em alguns casos, eram preenchidos de forma parcial”, disse, em uma cerimônia de lançamento do Relatório 30 Anos de SUS - Que SUS para 2030.

Molina acredita que o programa garantiu não apenas profissionais, mas estabilidade no atendimento. “O Mais Médicos é um programa mais estável que já conheci em minha vida profissional, eram  três anos de permanência”, disse. No caso de profissionais brasileiros, argumentou, uma série de fatores afetariam a estabilidade. “Médicos daqui podem ter interesse em participar de uma especialização, recebem outra oferta de emprego”, disse, em entrevista concedida durante o evento.

Rompimento abrupto

Embora admita que o fim do acordo já estivesse no horizonte, Molina considerou o rompimento abrupto. “Estávamos sabendo que isso poderia ocorrer”, disse. Mas não com tamanha rapidez. A ideia inicial era de que o acordo fosse aos poucos minguando até não haver mais necessidade do provimento de médicos cooperados. “Seria o tempo para medidas adicionais, como o serviço social para aumentar o número de profissionais.”

Questionado se o Brasil já reúne condições suficientes para dispensar profissionais cooperados, foi evasivo. “Não tenho elementos suficientes para responder.” No entanto, disse que o acordo de cooperação foi mutuamente vantajoso. Para o diretor, o recrutamento de médicos em grande escala garantiu agilidade para provimento das vagas. Também ajudou a reduzir os custos com transportes dos profissionais e evitou gastos com interrupções de trabalho. 

Molina afastou ainda as comparações com trabalho escravo, feitas pela equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro. “O médico que estava aqui estava sob um convênio firmado com seu empregador. Ele conservou seu posto em Cuba, o salário, os benefícios de previdência, aposentadoria. Ninguém veio a força, eles vieram e ficaram, livremente.” Molina afirmou que os profissionais recebiam na ilha caribenha algo em torno de US$ 100 mensais. Mas logo se defendeu: “Não se pode comparar os valores.” De acordo com ele, esse é o rendimento da maior parte dos profissionais com nível universitário na ilha caribenha.

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