Arquivo pessoal
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'Meu objetivo é mostrar a beleza albina', diz Tatiane sobre seus vídeos na internet

Valorizando seu albinismo, ela percebe seu corpo como um lugar de exploração para cores, desenhos e efeitos que a maquiagem permite

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2022 | 05h00

Se para alguns ser diferente é sinônimo de vergonha, para a recepcionista Tatiane Bonfim Silva é motivo de orgulho. “Sempre fiz questão de me colocar em primeiro lugar, porque aprendi que se eu não elevasse a minha autoestima, outras pessoas não fariam isso por mim”, conta ela que nasceu com albinismo – condição genética que se caracteriza pela ausência total ou parcial da melanina (pigmento responsável pela coloração da pele, dos pelos e dos olhos). 

Segundo ela, o apoio dos pais e o autoconhecimento foram essenciais para não se abalar com o bullying e o preconceito. “Meus pais nunca permitiram que eu pensasse que o albinismo me impedia de fazer qualquer coisa. Eu sou muito segura de mim mesma e de tudo o que posso fazer!” 

Mesmo antes de entender completamente sua condição, ainda na infância, Tatiane Bonfim Silva era categorizada como pessoa frágil. “‘Tadinha’ era a coisa que as pessoas mais me falavam”, diz. Na escola, ela teve de lidar com as risadas dos colegas e até o afastamento por parte de alguns, que assumiam que seu albinismo pudesse ser algo contagioso. Porém, sua personalidade forte sempre falou mais alto. “Desde pequena eu fui muito segura de mim e de quem eu sou. Meus pais garantiram que eu tivesse acompanhamento médico de dermatologistas, oftalmologistas e isso me fez entender que eu tinha uma diferença, mas era somente um detalhe”, conta.

Ainda que sofresse preconceito, especialmente na infância, ela admite que o privilégio de crescer com o apoio dos pais e com acesso a profissionais de saúde que ofereciam informações sobre sua condição – os cuidados com o sol são fundamentais para albinos, que não têm a proteção natural da melanina – fizeram com que ela soubesse que era importante. “Não sei se isso é coisa de leonina, mas graças a essa segurança eu sempre me orgulhei de quem eu sou, sempre aceitei a minha condição e jamais me privei de viver por causa disso”, brinca Tatiane.

O que mais a incomodava era a visão – Tatiane começou a usar óculos aos 3 anos. Mesmo com o acessório, a dificuldade de enxergar às vezes surgia por conta da visão embaçada e falta de foco. Os sintomas são comuns em albinos, que em função da baixa produção de melanina nos olhos apresentam dificuldade de visão. “A autoestima, na minha opinião, é de altos e baixos. Com a questão do albinismo em si, eu sempre fui muito bem resolvida. Mas sempre tem alguns baques, então muitas vezes eu me questionei: ‘Por que eu sou assim?’. Especialmente com a questão da visão. Acho que está tudo bem você não estar bem. O que não podemos deixar é que as pessoas nos desrespeitem”, diz ela. 

A coragem para se impor diante daqueles que faziam bullying veio na adolescência. Foi aí que ela passou a ter acesso a mais informações na internet e entrou em contato, pela primeira vez, com outras pessoas albinas. “Quando você encontra outras pessoas com características iguais às suas é o máximo”, declara. 

Mas Tatiane nunca gostou dessa coisa de ser sempre a mesma, então decidiu pesquisar sobre as possibilidades de mudanças em seu corpo, dentro de suas limitações, e descobriu que havia um mundo de cores a ser explorado. 

“Eu virei um verdadeiro camaleão. Pintei meu cabelo de diferentes cores e estava cada vez mais segura com a minha personalidade, que chamavam de radical”, diz ela, que pesquisou e conferiu com os profissionais se poderia usar tintura. “Eu não gosto da ideia de ser permanente. Gosto de poder me montar, mas ser uma tela em branco.”

Tutoriais de maquiagem

Encantada pelo mundo das cores, ela decidiu estudar sobre maquiagem e criar um canal no YouTube para compartilhar sua experiência e conhecimentos, especialmente com pessoas iguais a ela. “Meu objetivo hoje na internet é mostrar a beleza albina e a nossa força. Somos capazes de fazer qualquer coisa, mesmo com nossas limitações.”

O nome do canal, Deusa Albina, foi escolhido para endeusar a condição, realçando sua beleza sem tirar sua essência. “O meu primeiro tutorial eu fiz só de um lado do meu rosto e deixei o outro sem maquiagem para expressar que, ao mesmo tempo que o canal falará sobre sombras, bases e batom, ele será também sobre albinismo”, explica. 

Apesar de ainda existir muitos preconceitos e defensores da beleza padrão, hoje em dia, aceitar quem você é e se amar por conta dessas características únicas é algo muito valorizado, mesmo no mercado. Em abril de 2021, Tatiane foi convidada para participar da campanha das novas bases da marca Mari Maria Makeup, que juntou diversas pessoas com diferentes tonalidades. 

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Respeitando meus limites, posso viver como eu quiser. Talvez eu não me conheceria tão bem se não fosse albina
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Tatiane Bonfim, Recepcionista

“Hoje, eu sei que se uma pessoa albina quiser comprar maquiagem, ela vai ver o meu rosto e vai saber que tem coisa pra ela”, diz. “Eu acredito que cada ser humano tem a sua beleza, tem a sua essência, mas não concordo com a frase de que somos todos iguais. Somos assim perante sociedade e sob o respeito que um deve ter com o outro. Mas a gente precisa ver a cor do outro, o biotipo do outro, a deficiência. Quando você não vê esses detalhes, você anula as características e talvez não veja suas dificuldades.”

Para ela, conhecer seus limites foi essencial para aumentar o cuidado consigo mesma e se impor quando é julgada como incapaz. “Nós temos algumas questões, mas não somos feitos de açúcar, ou frágeis como muitas pessoas pensam”, defende. 

Tudo é questão de adaptação. Por ela ter uma maior tendência de câncer de pele e queimaduras, por exemplo, Tatiane precisa sempre passar protetor solar com o fator de proteção mais alto, além de chapéu e óculos de sol. “Respeitando meus limites, posso viver como eu quiser e talvez eu não me conheceria tão bem, ou não importaria tanto comigo mesma, com o meu cuidado se eu não fosse albina.”

 

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