Nilton Fukuda/Estadão
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Microrganismos que habitam o intestino podem explicar por que algumas pessoas vivem mais de 100 anos

Longevidade é resultado de uma combinação de fatores, como constituição genética, alimentação, hábitos de vida, estresse e até poluição

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2021 | 05h00

Por que algumas pessoas vivem mais de 100 anos? A longevidade se deve a uma combinação de fatores. Eles vão da constituição genética à sorte, passando pela alimentação, hábitos de vida, estresse e até poluição. Agora foi descoberta mais uma possível explicação para a longevidade: os tipos de microrganismos que habitam o intestino.

Possuímos centenas de tipos de microrganismos no sistema digestivo. É o que chamamos de microbioma intestinal. Nas últimas décadas, com métodos rápidos de sequenciamento genético e caracterização de moléculas, essa mistura de seres vivos tem sido estudada em detalhe. Descobrimos que os bichinhos que lá habitam mudam ao longo da nossa vida, dependem de nossa alimentação e podem ser alterados pelos remédios que ingerimos. Esses microrganismos destroem e modificam os alimentos que ingerimos, facilitam a absorção dos alimentos e produzem moléculas benéficas. Elas são parte de nosso corpo e tem uma função importante em nossa vida.

Cientistas estão comparando o microbioma de japoneses de diferentes idades. Um grupo inclui 160 pessoas com mais de 100 anos: os centenários. Outro grupo inclui 112 idosos (entre 85 e 89 anos) e um terceiro grupo 47 jovens (entre 21 e 55 anos). O objetivo do trabalho é descobrir se existe algo de diferente no microbioma de pessoas centenárias que explique a longevidade. Ao fazer a lista dos microrganismos presentes nas pessoas dos três grupos, os cientistas descobriram que os centenários possuem uma quantidade muito maior de um conjunto específico de bactérias. O genoma de cada uma dessas bactérias foi sequenciado para entender seu papel no intestino dos centenários. Sessenta e oito tipos de bactérias foram estudados em detalhe.

Foi descoberto que essas bactérias possuem um conjunto de genes capazes de modificar os ácidos biliares presentes no intestino. Ácidos biliares são moléculas produzidas pelo nosso fígado, estocados na vesícula biliar, e injetados no intestino durante o processo digestivo. Eles têm um papel importante e bem conhecido em nossa digestão. O que os cientistas descobriram é que as bactérias presentes nos centenários produzem enzimas capazes de transformar parte desses ácidos biliares em outras moléculas. Uma delas é o ácido isoalolithocolico. (ILCA). Nosso genoma não possui os genes para produzir o ILCA e ele é produzido nos centenários por um conjunto de enzimas presentes nos microrganismos que vivem no intestino dessas pessoas. O interessante é que os cientistas descobriram que o ILCA é um potente antibiótico capaz de matar bactérias prejudiciais à saúde como a Clostridioides difficile e a Enterococcus faecium.

Esses resultados demonstram que no microbioma de pessoas centenárias (e não em pessoas mais jovens) existem bactérias capazes de transformar componentes da nossa bile em poderosos antibióticos. Falta saber se a presença desses antibióticos é parte da explicação para sua longevidade. Se isso for comprovado, talvez um dia seja possível colonizar o intestino das pessoas com esses microrganismos e, talvez, alongar nossa vida.

Mais informações: Novel bile acid biosynthetic pathways are enriched in the microbiome of centenarians. Nature

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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