Migrações podem reduzir riscos de doenças infecciosas em muitas espécies

Contra o senso comum, longas viagens podem diminuir disseminação e prevalência de patógenos

estadão.com.br

21 Janeiro 2011 | 00h28

SÃO PAULO - É senso comum que a migração de animais, como as viagens humanas ao redor do mundo, pode transportar patógenos por longas distâncias, em alguns casos aumentando os riscos de doenças aos seres humanos.

O vírus do Nilo Ocidental, por exemplo, espalhou-se rapidamente ao longo da costa leste dos EUA, provavelmente por causa dos movimentos de aves migratórias. Mas em artigo recém-publicado na revista Science, os pesquisadores da Faculdade de Ecologia Odum, da Universidade da Geórgia, disseram que, em alguns casos, as migrações dos animais podem realmente ajudar a reduzir a disseminação e a prevalência de doenças, e até promover a evolução de cepas menos virulentas.

Todo ano, milhares de animais migram - alguns levam meses para viajar milhares de quilômetros ao redor do mundo. Ao longo do caminho, eles podem encontrar uma ampla gama de patógenos ao utilizar diferentes hábitats e recursos. Pontos de parada onde os animais descansam e se reabastecem muitas vezes são compartilhados por várias espécies em grandes comunidades, permitindo que as doenças se espalhem entre elas.

Mas, de acordo com a professora Sonia Altizer e suas coautoras, as estudantes de pós-doutorado Rebecca Bartel e Barbara Han, a migração também pode ajudar a limitar a propagação de determinados patógenos.

Alguns tipos de parasitas têm estágios de transmissão que podem se acumular no ambiente onde vivem animais hospedeiros, e a migração permite que estes escapem periodicamente dos hábitats carregados de parasitas. Após a partida, o número de parasitas se torna bastante reduzido, de modo que, quando os animais retornam, encontram um lugar praticamente livre de doenças.

"Ao colocar a enfermidade em um contexto ecológico, você não só vê padrões contra-intuitivos, mas também compreende as vantagens das transmissão. Esse é um exemplo clássico do melhor lado da ecologia das doenças", disse o reitor da Odum, John Gittleman.

O desmatamento, a urbanização e a expansão da agricultura, porém, têm eliminado muitos locais de parada dos animais, e barreiras artificiais, como represas e cercas, bloqueiam as rotas de migração de diversas espécies. Essas mudanças podem elevar artificialmente a densidade populacional dos animais e facilitar o contato entre animais selvagens e humanos, aumentando o risco de que agentes patogênicos se espalhem entre as espécies.

Como coautora, Barbara observou: "Vários animais migratórios são injustamente acusados de disseminar infecções aos seres humanos, pois existem muitos exemplos que sugerem o contrário, que os humanos são responsáveis pela criação de condições que aumentam as doenças em espécies migratórias".

Com recursos alimentares disponíveis o ano todo, algumas espécies podem reduzir ou até abandonar totalmente as migrações e prolongar sua exposição aos parasitas no ambiente, elevando as taxas de infecção e favorecendo o desenvolvimento de cepas mais virulentas. "A migração é uma estratégia que tem evoluído ao longo de milhões de anos em resposta às pressões de seleção conduzidas por recursos naturais, predadores e infecções letais. Alterações dessa estratégia poderiam traduzir-se em mudanças na dinâmica das doenças", acrescentou Barbara.

"Há uma necessidade urgente de novos estudos sobre a dinâmica dos patógenos em espécies migratórias e como as atividades humanas a afetam", disse Sonia. O artigo conclui com um resumo dos desafios e questões para futuras pesquisas. "Precisamos aprender mais para tomar decisões sobre a conservação e a gestão dos animais selvagens e prever e mitigar os efeitos de futuros surtos de doenças infecciosas", completou.

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