Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Minas tem 57% dos leitos de UTI ocupados e profissionais já relatam medo e insegurança

Dois enfermeiros infectados morreram na última semana no Estado

Leonardo Augusto, especial para O Estado

28 de abril de 2020 | 08h19

BELO HORIZONTE - Depois de duas mortes e um total de 356 profissionais infectados pelo novo coronavírus, o Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG) relata medo e insegurança entre os trabalhadores do setor no estado. As duas mortes ocorreram na semana passada. Um serviço de suporte emocional começa a funcionar nesta terça-feira para a categoria, segundo informações da presidente do conselho, Carla Prado Silva. As infecções ocorreram no trabalho, conforme a representante do Coren. A ocupação total das UTIs em Minas é de 57%.

Os enfermeiros mortos são Agnaldo do Nascimento Emídio, de 41 anos, de Juiz de Fora, na Zona da Mata, e Maria Aparecida de Andrade, de 53, em Contagem, na Grande Belo Horizonte. Agnaldo faleceu no dia 22. Maria Aparecida, no dia 20. "Muitos enfermeiros já estão transtornados e as mortes de colegas ocorrem por algo que também podem contrair. A situação é extremamente delicada", afirma Carla.

O Estado tem cerca de 200 mil profissionais com atuação na área, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares. Conforme a presidente do Coren, não há informações precisas no sentido de que todos os profissionais infectados tinham equipamento ou, se tinham, se os utilizavam corretamente.

Em declaração que pode aumentar o temor em meio aos enfermeiros, o secretário de Estado de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, afirmou nesta segunda-feira, 27, que Minas Gerais vem registrando aumento no fluxo de veículos. "Isso preocupa. É importante manter os cuidados. Se afrouxarmos demasiadamente e perdermos o controle corremos o risco de perder tudo o que foi feito até agora. Antes de sair de casa é preciso pensar se realmente é fundamental sair e, se sair, que saia tomando todas as precauções", disse.

Segundo dados divulgados pelo secretário, 105 pacientes estão internados em unidades de terapia intensiva de todo o estado com suspeita de covid-19. A situação, atualmente, é considerada sob controle no Estado. "Em Minas hoje nós temos um baixo número tanto nos casos notificados quanto nos casos diagnosticados, inclusive ainda também nos óbitos confirmados por covid", afirmou o secretário. O relatório divulgado nesta segunda-feira aponta 61 mortes em Minas pela doença, um a mais que domingo, 26. O total de casos é de 1.586.

Apesar de não ter número exato de falecimentos e contaminações de profissionais, o Sindicato dos Médicos de Minas Gerais já registra afastamentos do trabalho de profissionais no estado contaminados pelo covid-19. "Estamos começando a subir essa curva. Alguns já foram infectados, se afastaram e retornaram ao trabalho", relata o diretor de Defesa Profissional do Sindicado dos Médicos de Minas Gerais, Artur de Oliveira Mendes. "O vírus não escolhe quem vai ser contaminado", diz o médico, que trabalha no setor público em hospital particular

O representante do sindicato afirma ainda haver hoje no país decisões no sentido de aumentar o número de profissionais no atendimento à população, antecipando, por exemplo, a conclusão de curso de estudantes de medicina. "Mas não tem equipamentos para todo mundo. É um problema antigo e que ficou mais claro agora", aponta o médico. Tanto o representante do sindicato, como a presidente do Coren afirmam que, até o momento, não há registro de pressão no sistema de saúde do estado por conta do novo coronavírus.

Motivo

O infectologista Unaí Tupinambás, professor na Escola de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e integrante do comitê de combate à covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte, afirma que o cenário vivido hoje em relação à pandemia pode ter ocorrido pelo momento em que foram adotadas as medidas de isolamento.

As decisões foram tomadas, conforme o especialista, "quando não havia a circulação silenciosa do vírus", disse. "Outras cidades podem ter passado do momento ideal para fazer isso. Pode ser isso", afirma o médico, quando questionado sobre o aumento constante de casos da doença em outras cidades.

Belo Horizonte, conforme o boletim desta segunda da Secretaria de Estado de Saúde, registra 548 casos da doença, contra 533 do balanço de domingo, e 11 mortes, mesmo número registrado neste domingo. O que pode ter feito a circulação do vírus ser antecipada, em relação à capital mineira, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza, é o número maior de voos internacionais com destino a esses centros urbanos, acreditam especialistas.

Os números atuais do impacto da covid-19 em Minas, no entanto, estão atrasados, conforme admite o secretário de Estado de Saúde. Isso acontece, porém, segundo o responsável pela pasta, pela decisão do governo de checar os dados que chegam dos hospitais e prefeituras. "É normal um atraso de um ou dois dias", afirma Amaral. Porém, segundo o secretário, esse tempo pode ser maior caso seja necessária troca maior de informações sobre o caso diagnosticado com os hospitais e prefeituras.

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