Amanda Perobelli/Reuters
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Minha mãe pegou covid-19

Estamos em um navio desgovernado, rumando para o olho de uma tempestade

André Fran*, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 05h00

A coluna de hoje quase não sai. Meu editor no Estadão já havia me liberado para manter o foco no drama familiar. Drama esse cada vez mais comum a tantos. Minha mãe, que se cuidou tanto durante a pandemia, que ficou isolada em seu apartamento meses a fio sem ver a neta, que deu incontáveis banhos de álcool em gel nos sacos de feijão que chegavam por aplicativo, que não tirava do rosto as máscaras costuradas de próprio punho… havia contraído covid-19.

Felizmente, enquanto o número de casos e mortes aumentavam gravemente no Brasil, minha mãe seguia o caminho inverso e ia melhorando pouco a pouco até ser liberada. Não sem antes sofrer com alguns sintomas assustadores e deixar a família dias sem dormir, temendo a imprevisibilidade da doença ainda em grande parte desconhecida. No dia que a matriarca finalmente pode deixar sua quarentena, foi recebida pelo carinho de marido, filhos e netos, mas também pelo deboche do presidente, que zombava das vítimas da pandemia em mais um pronunciamento execrável. Nada de novo aqui fora.

Era apenas mais um capítulo dessa história dramática que é a do Brasil na pandemia. Um enredo com personagens e passagens trágicas, como o ministro da Saúde que não é da área e até pouco tempo sequer conhecia o Sistema Único de Saúde do País, como ele mesmo admitiu. Um governo que não atentou para a importância de realizar em caráter de urgência o edital para produção das imprescindíveis seringas para a (cada vez mais improvável) vacinação em massa. A incompetência que faz com que os responsáveis pela versão da vacina celebrada mundialmente nesse momento não consigam ser recebidos. Isso para lembrar apenas dos episódios mais recentes dessa tragédia recheada de negacionismo, desinformação, pouco caso, promoção de elixires inúteis e incontáveis declarações ofensivas e estapafúrdias. 

Mas quis o destino que as boas notícias prevalecessem no dia em que minha mãe ganhava a liberdade. Quase no mesmo momento em que dona Angela Cristina, minha progenitora, dava seus primeiros passos fora do quarto, Margaret Keenan, outra vovó, essa de 90 anos, era a primeira pessoa no mundo a ser vacinada contra a covid-19 fora da fase de testes. Um esforço que uniu o sistema público de saúde do Reino Unido, uma vacina fabricada na Bélgica, desenvolvida por um laboratório dos EUA e outro da Alemanha, em uma parceria de cientistas imigrantes turcos e gregos, aplicada por enfermeira das Filipinas para proteger uma senhora britânica, originária da Irlanda do Norte, que mora na Inglaterra. Uma ação conjunta na luta contra o coronavírus, mas também contra o preconceito, o racismo, a xenofobia e a islamofobia. Uma vitória da globalização e da vacinação, tudo que um governo antivacina e negacionista menos preza. 

Mais do que nunca, o mundo todo começou a se posicionar para receber suas doses da vacina. Me doeu o coração perceber o quanto o Brasil está mal colocado nessa fila. Ficamos para trás, presos nesse atoleiro de incompetência e desinformação. Em alguns meses, é provável que muitos no Reino Unido, Europa e EUA já sejam vacinados. Ao passo que em outros países, como no Brasil, isso possa levar anos. Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, alertou que a nacionalização da vacina ajuda apenas o vírus.

Quanto mais tempo circular, mais chances tem de sofrer mutações e voltar mais letal. Um estudo americano mostrou que, se a vacina fosse distribuída de forma igualitária mundo afora, as mortes seriam reduzidas em 60%. Por outro lado, com a vacina chegando apenas aos países mais ricos do planeta, a redução de fatalidades cairia apenas 30%. Mas se ilude quem pensa que líderes de Canadá, EUA ou Reino Unido irão abrir mão de seus acordos exclusivos com gigantes da indústria farmacêutica lembrando da máxima: “Ninguém está a salvo, enquanto todos não estiverem a salvo”. A disputa segue ferrenha para ver quem coloca as mãos na vacina o mais cedo possível.

Nesse contexto, as regiões mais pobres do planeta estão entregues à própria sorte. Em alguns locais, como no continente africano, o conhecimento técnico pode compensar a falta de investimento financeiro na busca da cura para a covid-19. Visitei no Senegal o Instituto Pasteur, uma referência mundial no combate a epidemias cujos profissionais vieram ao Brasil ajudar cientistas brasileiros na luta contra o vírus da Zika, que ameaçava cancelar as Olimpíadas de 2016. A medicina comunitária e preventiva é tradição no continente, o que é fundamental contra o coronavírus. A aderência a medidas sanitárias foi ampla e ajudou muito. A experiência adquirida com o Ebola, HIV, Pólio foi fundamental, também.

Aqui no Brasil, estamos longe da disputa pela compra de vacinas, nossos setores técnicos estão sem apoio ou enfraquecidos e o povo parece que cansou do isolamento social ou não liga para EPIs e protocolos sanitários (muito em função da desinformação que vem de cima). Ou seja: estamos em um navio desgovernado rumando para o olho de uma tempestade. Espero que não, mas as chances de sua família passar pelo mesmo drama da minha são altas. Se você está lendo essa coluna, lembre-se: álcool gel na mão, máscara na cara e fique em casa se possível. Protejam os seus.

*É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV E JORNALISTA, COM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

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