'Minha mãe sempre me aconselhou a não usar, mas era viciada', conta rapaz que experimentou cocaína aos 12 anos

'Estado' conversou com alguns dos moradores da ONG, que relataram os motivos que os levaram ao vício; dois deles, recuperados, passaram a integrar a equipe da entidade

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

04 Junho 2014 | 15h05

SOROCABA - Sem usar drogas há dois meses, Ricardo (nome fictício) teve uma vida de reviravoltas. Viveu na Fundação Casa por sete anos e não gosta de relembrar o que o levou a ser detido. A mãe, usuária de maconha, cocaína e heroína, foi morta a tiros na prisão por dívida de droga. "Minha mãe sempre me aconselhou a não usar, mas era viciada. Já vi ela usando as três drogas ao mesmo tempo", relembra o homem, de 32 anos. Ricardo experimentou a cocaína aos 12 anos e não parou mais. Só não testou o crack. "Perdi muitas pessoas por causa do crack e acabei pegando nojo, vontade de vomitar."

Na Fundação Casa, conta que teve acesso fácil a drogas e revólveres. Com 16 anos, o jovem trabalhava e recebia uma pequena quantia, que, depois, era trocada por cocaína. "Eu trabalhava numa horta, recebia dinheiro e podia comprar o que quisesse", lembra. Aos 18, quando deixou o cárcere, teve idas e vindas no mercado de trabalho e eventualmente retornava às drogas e à vida nas ruas. Passou a frequentar a ONG no final de 2013 e hoje ajuda nas tarefas domésticas, como fazer compras para a casa.

Já Eduardo (nome fictício) teve as ruas como lar e as drogas como refúgio psicológico depois de fugir de casa. Conta que seu padrasto estuprava sua irmã em sua frente e a mãe não acreditava em seus relatos. "Vi muitas cenas, meu padrasto abusava das minhas irmãs. Fazia coisas inaceitáveis." Naquela época, o jovem já era usuário de maconha e já participava de um esquema de tráfico de drogas na cidade. Seis meses depois, passou a usar cocaína.

"É bem complicado crescer em uma família assim. Minha mãe tem problema com álcool, e meus oito irmãos são todos usuários de droga", relata.

O crack só viria mais tarde, aos 16 anos. Ironicamente, a droga surgiu quando Eduardo tentava evitá-las. Viajou a Campinas, onde trabalharia com construção civil, e lá foi apresentado à pedra por um traficante. "Chegou um momento em que tive curiosidade de ver, saber qual é a sensação, a brisa", lembra. "Eu ganhava aqui e já gastava ali. Vendia uma droga e gastava com outra, era só ilusão. Gastei R$ 1,5 mil do meu 13º salário e o limite do meu cartão nessa droga", lamenta. 

O jovem só deixaria a cidade quando, em um trágico acidente, viu um amigo ser atropelado na Rodovia Anhanguera. Eles voltavam de uma festa, ambos sob o efeito da cocaína, quando o rapaz tentou atravessar a via correndo e sofreu o acidente. "O baque foi tão grande que não consigo lembrar muito disso. Comecei a usar mais drogas ainda, mas elas não faziam mais efeito. Não havia droga que resolvesse esse trauma." Foi quando pediu que o chefe o trouxesse a Sorocaba, para voltar a morar com a mãe. Só conseguiu abandonar o vício há um ano e, hoje, trabalha na reeducação e abordagem aos jovens das periferias. Para ele, que vivenciou o sofrimento desta parcela da população, a aproximação tornou-se comum. 

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