ASCOM/MCTI
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Ministério dá R$ 2 mi para 'pílula do câncer'

Verba será destinada a três centros de pesquisa para avaliar a eficácia do remédio

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2015 | 21h29

Atualizada às 14h33

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou nesta quinta-feira, 26, a liberação dos primeiros R$ 2 milhões destinados a acelerar as pesquisas com fosfoetanolamina sintética, a polêmica substância desenvolvida no Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo, que ficou conhecida como “pílula do câncer”. O dinheiro será destinado a três centros de pesquisa, responsáveis por testar a eficácia e a segurança da substância em ratos e camundongos.

O ministério solicitou 500 gramas de fosfoetanolamina à USP para serem encaminhadas aos laboratórios. A expectativa da pasta é que essa primeira fase de testes, chamada de ensaios pré-clínicos, dure “ao menos sete meses”.

Os laboratórios que participarão da pesquisa são o Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP), de Florianópolis; o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), de Fortaleza, ligado à Universidade Federal do Ceará; e o Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LassBio), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O ministério planeja investir R$ 10 milhões no estudo da fosfoetanolamina até 2017 - desde que esses resultados iniciais justifiquem a continuidade da pesquisa. “O que nós queremos mostrar para a população brasileira, principalmente as famílias que possuem doentes, é que o MCTI está agindo com rigor, mas também com muita agilidade, porque existe uma comoção nacional, existe um anseio das famílias por uma resposta”, diz o ministro Celso Pansera, em um comunicado da pasta.

A fosfoetanolamina sintética foi desenvolvida nos anos 1990 pelo químico e professor do IQSC Gilberto Chierice, hoje aposentado. Acreditando ter achado uma cura para o câncer, ele distribuiu pílulas da substância gratuitamente para pacientes durante anos, sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), até que o IQSC determinou a interrupção da produção, em 2014. Desencadeou-se, então, um batalha jurídica entre a universidade, cientistas, pacientes e autoridades sanitárias sobre a liberação da droga.

Base científica. Alguns estudos chegaram a ser publicados, mostrando uma ação antitumoral da substância em células in vitro e em camundongos. Mas muito longe, ainda, de comprovar a eficácia ou a segurança da fosfoetanolamina como uma droga anticâncer, segundo o bioquímico Adilson Kleber Ferreira, responsável pela maior parte dos experimentos que deram origem aos seis trabalhos publicados.

“Os dados indicam que a fosfoetanolamina é, sim, um candidato a fármaco; mas é tudo muito preliminar”, disse Ferreira ao Estado. “Nenhum desses dados justifica a sua aplicação clínica.” Hoje no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, ele foi orientado nas pesquisas pelo imunologista Durvanei Maria, do Instituto Butantã. Chierice é co-autor nos trabalhos.

Ferreira diz que sempre foi contra a distribuição da substância para pacientes e que a segurança da molécula ainda não está comprovada. “Não há relatos de efeitos nocivos pelos pacientes, mas isso não é comprovação científica de que ela não é nociva. Há muito a ser respondido ainda”, afirma. Ele agora não trabalha mais com a substância, mas é favorável à continuidade das pesquisas: “É um composto que merece ser estudado, sem dúvida”.

Pode até ser que tenha algum efeito, mas não espero que seja uma molécula milagrosa. O que mais preocupa é a segurança” - João Calixto, pesquisador

“Pode até ser que tenha algum efeito, mas não espero que seja uma molécula milagrosa. O que mais preocupa é a segurança”, disse o especialista João Calixto, diretor do CIEnP, em entrevista ao Estado no início de novembro. Ainda que substância tenha, de fato, algum efeito antitumoral, é preciso fazer uma série de testes in vitro e com animais de laboratório para saber contra qual tipo de câncer ela é eficiente, qual é a dose adequada, em que estágio da doença, se ela pode ser misturada com outros medicamentos, e uma série de outros parâmetros que influenciam a segurança e a eficácia de um tratamento. É muito comum substâncias mostrarem efeitos terapêuticos promissores em culturas de células e camundongos, mas depois falharem completamente nos testes clínicos com seres humanos.

“Os estudos preliminares indicam que há um efeito, mas não podemos extrapolar isso para dizer que vai funcionar em pessoas”, diz o médico Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da USP, do Incor, e diretor do Instituto Butantan, que também integra o grupo criado pelo MCTI para debater o tema. “Vamos partir do pressuposto de que existe uma ação e fazer os testes minimamente necessários para verificar isso e dar uma resposta à população da forma mais rápida possível.”

Diferenças. Pesquisadores ressaltam que o câncer não é uma única doença, mas sim um termo genérico usado para se referir um grande número de doenças que envolvem a proliferação descontrolada de células dentro do organismo. Pode-se dizer que é uma doença “personalizada”, pois as características de um tumor variam tremendamente entre pessoas e entre tecidos. Dois pacientes com câncer de pulmão podem ter doenças completamente diferentes, que exigem terapias customizadas para cada uma delas. Os tratamentos são específicos: Não há nenhuma droga conhecida que funcione contra todo tipo de tumor, como se propõe que seja a “pílula do câncer”.

Os relatos de pacientes que dizem ter melhorado ou até se curado com a fosfoetanolamina sintética devem ser levados em conta na avaliação da substância, mas também não servem como prova de que a pílula funciona, dizem os cientistas. “Em casos como esse o efeito placebo é fortíssimo”, avalia Calixto.

Como não foi feito nenhum acompanhamento clínico-científico do uso da pílula, não há como saber se os pacientes melhoraram de fato por causa da substância ou se teriam melhorado de qualquer forma (como pode acontecer) ou por conta de algum outro fator. Assim como não há como saber se aqueles que pioraram ou morreram teriam piorado de qualquer forma, ou até se foram prejudicados pelo medicamento.

Continuidade. O secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI, Jailson Bittencourt de Andrade, garantiu ontem ao Estado que os outros R$ 10 milhões prometidos pelo ministério só serão investidos se a molécula se mostrar realmente promissora. “A qualquer momento que acharmos que não faz sentido seguir em frente, vamos interromper o processo”, disse. “Não estamos apoiando o desenvolvimento de nenhum medicamento; estamos fazendo pesquisa para ver até que ponto devemos avançar com isso.”

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