Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Saúde dialoga com o tráfico e com a milícia, diz Mandetta

'Como entra no morro em guerra para retirar uma senhora com sintomas? Saúde não é polícia', afirma ministro

Julia Lindner, André Borges e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 21h02

BRASÍLIA - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse nesta quarta-feira que o combate à pandemia do novo coronavírus passará por comunidades dominadas pelo tráfico e pela milícia e afirmou ao Estado que para isso vai conversar “com quem precisar”. 

“Como se entra no morro em guerra para retirar uma senhora com sintomas? Saúde não é polícia”, disse Mandetta à reportagem.

Mais cedo, Mandetta disse em entrevista coletiva, no Palácio do Planalto, que a Saúde “dialoga, sim, com o tráfico, com a milícia, porque também são seres humanos e precisam colaborar, ajudar, participar”. “Então, neste momento, quando a gente faz esse tipo de colocação, a gente deixa claro que todo mundo vai colaborar (no combate à covid-19)", afirmou.

 

Mandetta reconheceu que há dificuldade para implementar o plano de manejo das favelas e comunidades com exclusão porque são regiões marcadas pela ausência do Estado e dominadas por líderes informais ligados ao crime organizado. Há relatos de toques de recolher impostos por esses grupos aos moradores dessas regiões. 

 

"Temos dificuldade, sim, em apresentar o plano de manejo das favelas ou das comunidades com exclusão. Hoje nós começamos o primeiro plano de manejo, não vou falar em qual comunidade será, para fazer um teste piloto porque ali você tem que entender a cultura, a dinâmica, ali a gente tem que entender que são áreas que muitas vezes o Estado está ausente, que quem manda é o tráfico", afirmou.

 

Desde o início da crise, Mandetta e autoridades discutem como garantir medidas de isolamento para pessoas de baixa renda, especialmente do Rio de Janeiro. Em março, o ministro da Saúde debateu o assunto com integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Um dos pontos levantados é que moradores de comunidades muitas vezes não possuem nem sequer saneamento básico e compartilham com parentes casas com apenas um ou dois cômodos.

 

O receio do governo é que, após os primeiros casos de covid-19 nas comunidades, será mais difícil controlar a propagação da doença por causa das condições impróprias. Até esta quarta-feira, quatro das maiores comunidades do Rio já tiveram pelo menos seis mortes confirmadas por coronavírus. Rocinha, Manguinhos, Maré e Vigário Geral somam 23 casos registrados da doença.

 

RECADO

A assessoria do Ministério da Saúde esclareceu a reportagem que a intenção do ministro em sua fala foi dar um recado para traficantes e milicianos de que na hora em que o vírus começar a se disseminar nas favelas, os profissionais de saúde vão ter de entrar nas comunidades.

 

Mandetta reconhece que algumas áreas são dominadas pelo tráfico e milícia, que impõem suas normas aos moradores, então a comunidade vai ter de resolver essa situação de permitir a entrada de agentes de saúde em suas residências.

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