LQFEx/Ministério da Defesa
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Ministério da Saúde planeja 'Dia D' contra covid-19 com cloroquina e pronunciamento de Bolsonaro

Governo quer aumentar distribuição de kit que reúne quatro medicamentos cuja eficácia não tem comprovação científica

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2020 | 10h21
Atualizado 17 de outubro de 2020 | 19h01

BRASÍLIA - O Ministério da Saúde vai realizar um "Dia D" de enfrentamento à covid-19 em 3 de outubro, abrindo Unidades Básicas de Saúde (UBS) para passar orientações sobre o "tratamento precoce" e medicar pacientes.  Em planejamento apresentado em reuniões internas nesta semana, a pasta prevê uma série de ações até o dia do evento, como conferir estoques e turbinar a distribuição de medicamentos do chamado "kit covid-19" no País, que reúne cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Não há eficácia científica comprovada sobre o uso dessas drogas contra a doença.

A Saúde planejava realizar a mobilização em 3 de outubro. Nesta sexta-feira, 25, a pasta informou que o evento ainda será em outubro, mas sem data prevista. Para divulgá-lo, o ministério espera que o presidente Jair Bolsonaro trate do tema durante sua live semanal nas redes sociais. Há a expectativa também de um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV. Procurado, o Palácio do Planalto não confirma.

Participa da organização o empresário Carlos Wizard, fundador da rede Wizard de escolas de inglês. Ele chegou a ser cotado ao cargo de secretário do Ministério da Saúde, mas recebeu veto de Bolsonaro. Procurado, Wizard, que tem atuado como conselheiro informal na Saúde, não quis comentar.

Após o Estadão revelar o planejamento do evento, o ministro Eduardo Pazuello e seus auxiliares fizeram uma série de reuniões nesta sexta-feira, 25, sobre o tema. Com temor de secretários de Estados e de municípios sobre a possibilidade de o evento se tornar uma espécie de celebração à cloroquina, o ministério vai tentar passar a ideia de que o “Dia D” servirá apenas para conscientização sobre o "tratamento precoce".

Pazuello disse a auxiliares que não há a menor hipótese de estes medicamentos serem entregues no dia 3 de outubro. O general atribuiu o plano revelado pelo Estadão a um documento “vazado”, que já teria sido vetado há duas semanas, segundo interlocutores do ministro. Irritado com a repercussão, Pazuello ameaçou cancelar o "Dia D".

O Estadão apurou, no entanto, que os slides foram apresentados no começo desta semana a representantes de Estados e municípios durante uma videoconferência. Ao menos um secretário de Pazuello participou da conversa.

Para justificar o pé atrás sobre o "Dia D", gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) consultados pela reportagem lembram que, no vocabulário de Bolsonaro, o “tratamento precoce” significa a prescrição da cloroquina desde os primeiros sintomas. Na gestão de Pazuello, estes medicamentos, associados ao antibiótico azitromicina, passaram a ser recomendados oficialmente desde os sinais iniciais da covid-19 nos pacientes.

Por divergências com Bolsonaro sobre a prescrição do "kit covid", dois ministros da Saúde deixaram o governo: os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Procurado, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) não informou se apoiará o evento. Em nota, a entidade disse que "defende que pessoas com sintomas da covid-19 recebam o cuidado precoce, ou seja, atenção médica a partir dos primeiros sintomas". "Contudo, isto não deve significar a utilização de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença", afirma a entidade. 

Secretários estaduais consultados pelo Estadão dizem ainda aguardar mais detalhes para se posicionar sobre o evento. Outro temor é que o "Dia D" promova aglomerações.

O Conselho Nacional de Secretarias Municipais (Conasems) disse apoiar a iniciativa. "É sobre cuidado precoce. Cuidar do paciente é o nosso papel. Nosso papel enquanto município é atender o cidadão", disse Mauro Junqueira, secretário-executivo do conselho.

Professora de epidemiologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gulnar Azevedo chamou de “irresponsabilidade” a defesa da Saúde por medicamentos “que já se mostraram ineficazes como tratamento da covid-19 em vários estudos científicos”. "A pandemia no País ainda não está controlada e o que precisamos é implementar as medidas de saúde pública recomendadas para diminuir a transmissão da Sars-Cov-2. É necessário manter o distanciamento físico, o uso de máscaras e garantir o rastreamento de todos os casos suspeitos e seus contatos", disse ela.

O "Dia D"

Segundo o documento apresentado nesta semana, o ministério planeja colocar cartazes sobre o "Dia D" em unidades de saúde, além de locais de alta circulação, como aeroportos, shoppings, academias e restaurantes. Uma camisa com o slogan do evento deve ser feita pelos organizadores, além de máscaras personalizadas. A Saúde também planeja “identificar os potenciais Hospitais das Forças Armadas” para participarem do evento. A pasta cita “campanha de mídias sociais com casos de sucesso no Ministério da Defesa”.

O Exército ainda participaria da distribuição da hidroxicloroquina para as unidades básicas. Os estoques que restam no almoxarifado da Saúde foram doados pelos Estados Unidos. A pasta tem ainda cerca de 1,75 milhão dos 2 milhões de unidades que recebeu do governo de Donald Trump. O produto, no entanto, foi enviado em embalagens com cem unidades e precisa ser fracionado. Essa operação tem sido bancada por Estados e municípios que pedem para receber a droga.

O documento mostra que a Saúde ainda elabora orientações para o atendimento no “disque SUS”, acessado pelo número 136, relacionadas ao "Dia D".

Sem dar detalhes, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, divulgou o evento na quinta-feira, dia 24, durante reunião com gestores de Estados e municípios. "É um esforço nacional que o SUS está fazendo para divulgar melhores práticas, para que possamos salvar mais vidas", disse. Pazuello afirmou que há "pessoas sendo iludidas no País" sobre o tratamento. "Até hoje você encontra cartazes dizendo: está com covid, fique em casa até ter falta de ar."

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que as ações do "Dia D" ainda estão sendo planejadas "e não preveem a distribuição de medicamentos por nenhum órgão envolvido na iniciativa". O governo costuma promover eventos como este em campanhas de vacinação, quando abre postos de saúde nos fins de semana e faz mutirões para atrair a população.

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