ANDREAS SOLARO / AFP
Mulheres usam máscaras na região central de Milão  ANDREAS SOLARO / AFP

Brasil vai monitorar passageiros vindos de Itália, França e Alemanha com sintomas de coronavírus

Região norte italiana confirmou seis mortes pela doença desde a semana passada; China, Japão, Coreia do Sul, Tailândia e Irã também estão no rol de alerta

Mateus Vargas e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 16h34
Atualizado 25 de fevereiro de 2020 | 06h24

BRASÍLIA - O Ministério da Saúde adicionou nesta segunda-feira, 24, países na lista de alerta do novo coronavírus, incluindo os primeiros três da Europa: Itália, Alemanha, França. Além desses, entram no rol do governo federal Austrália, Filipinas, Malásia, Irã e Emirados Árabes.

Isso significa que serão considerados suspeitos da doença passageiros que estiveram nesses locais e que apresentem sintomas da doença, como febre e tosse. O novo enquadramento, antecipado pelo Estado, é resultado da confirmação da transmissão do vírus dentro desses países.

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, disse que o Brasil seguiu orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para ampliar a lista de países em alerta. O critério da organização, segundo Oliveira, é inserir na lista os locais com ao menos cinco casos com transmissão interna da doença - que não foram "importados".

Antes da nova definição, pessoas com sintomas de gripe vindas da Itália, por exemplo, não recebiam atenção especial da vigilância sanitária brasileira, pois a suspeita do novo coronavírus era descartada na hora. Agora, haverá um protocolo específico pelo qual, caso o passageiro tenha febre associada a algum outro sintoma, será enquadrado automaticamente como caso suspeito.

Uma análise clínica poderá ser feita no desembarque pela autoridade sanitária e, caso a suspeita se mantiver, o passageiro deverá ser levado a um hospital. Além da China, epicentro do novo coronavírus, o Brasil já havia colocado no mesmo rol de alerta, na semana passada, casos de passageiros vindos do Japão, Cingapura, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Tailândia, Vietnã e Camboja.

O secretário de Vigilância em Saúde disse que o Brasil não proíbe ou desestimula viagens para nenhum destes novos países em alerta. Há recomendação do governo para que não sejam feitas viagens apenas para a China, onde mais de 2,5 mil pessoas morreram após serem contaminadas.

 

Em conversa exclusiva com o Estadão/Broadcast nesta segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que o Brasil está acompanhando a situação do novo coronavírus na Itália e seguirá as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar que a epidemia chegue ao País.  "Não faríamos nada isoladamente", disse o ministro.

Oliveira afirmou que o Brasil não cogita adotar medidas restritivas, como impedir a circulação de pessoas ou mercadorias. O secretário disse que medir a temperatura de todos os passageiros vindos de países sob alerta também seria ineficaz. "Muitos casos se transmitem mesmo sem febre. Ou seja, temos situações que passam fora deste padrão."

"O que estamos trabalhando é para que equipes de saúde estejam atentas. Para que no momento em que uma pessoa que tem histórico de viagem (por um das países da lista) procurar serviços de saúde, seja investigado também a possibilidade de novo coronavírus", afirmou o secretário.   

Na Europa, a maior preocupação é com a Itália, que já registrou mais de 200 casos e seis mortes. O surto se concentra principalmente no norte do país, onde ao menos 11 cidades foram colocadas sob quarentena.

No caso do Irã, o país se tornou no domingo, 23, o que mais regitrou mortes fora da China, com oito vítimas. Ao todo, são 43 casos confirmados entre os iranianos.

Segundo dados do Ministério da Saúde desta segunda-feira, 24, há quatro casos suspeitos da doença no Brasil, sendo três em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Um dos suspeitos viajou recentemente ao Japão e só teve o caso considerado devido a inclusão do país na lista de alerta. Já foram descartadas 54 análises. 

Oliveira afirma que devem aumentar os casos suspeitos no Brasil com a ampliação do rol de alerta.  "Há fluxo maior de voos diretos ao Brasil (dos países que passam a ser analisados). A gente terá mais capacidade de identificar casos potencialmente suspeitos", disse o secretário.

Segundo dados da OMS, há no mundo 79.409 casos confirmados da doença e 2.622 óbitos. Apesar de estarem registrados em 32 países, a China concentra cerca de 98% das confirmações da doença. 

Governo está em fase final de contratação de equipamentos 

Segundo apurou o Estado, o governo está em fase final de contratação de equipamentos para combater a possível chegada da doença ao Brasil, como máscaras e luvas. Já a contratação de mil leitos em hospitais, anunciada no fim do mês passado pelo Ministério da Saúde como medida emergencial, ainda está em análise.

“Buscando aumentar a capacidade assistencial e trabalhar de forma adequada as fases de contenção e mitigação descritas no Plano de Contingência, o Ministério da Saúde está em processo de contratação de 1.000 leitos de UTI distribuídos em todo território nacional.

O mapeamento dessas necessidades se dá pelos profissionais da Secretaria de Atenção Especializada e Secretaria de Atenção Primária do Ministério da Saúde e que compõem o COE COVID-19”, disse o Ministério da Saúde, em nota enviada nesta segunda-feira.

O governo também corre para garantir a compra de imunoglobulina, medicamento usado em pacientes com imunidade baixa e para amenizar efeitos de infecções.

O medicamento pode ser usado em pacientes infectados pelo novo coronavírus. A ideia é trazer o produto emergencialmente da China e da Coreia do Sul, mas a finalização da importação ainda aguarda aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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País acompanha situação na Itália, mas não há restrição de viagens, diz Ernesto Araújo

'Não faríamos nada isoladamente', afirma ao 'Estado' o ministro das Relações Exteriores sobre o avanço do coronavírus na Europa

Camila Turtelli e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 16h13

BRASÍLIA - O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que o Brasil está acompanhando a situação do novo coronavírus na Itália e seguirá as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar que a epidemia chegue ao País.  "Não faríamos nada isoladamente", disse o ministro ao Broadcast e ao Estadão nesta segunda-feira, 24. Segundo o chanceler, por enquanto não não há qualquer recomendação para que brasileiros não viagem à Itália.

Segundo o chanceler, o acompanhamento está sendo feito por meio do Ministério da Saúde.  Após surgir na China e provocar mais de 2.500 mortes no país asiático, os casos do novo coronavírus começaram a se propagar com velocidade na Itália. Foram ao menos 219 casos registrados e seis mortes, segundo os últimos relatos. 

Diante da situação, o governo italiano colocou ontem ao menos 11 cidades no norte do país sob quarentena numa tentativa de conter a propagação do vírus. 

Ministério da Saúde vai anunciar nesta segunda-feira, 24, que incluirá na lista de países com alerta de novo coronavírus a Itália e o Irã, passando a considerar suspeito da doença passageiros que chegarem ao Brasil com sintomas da doença. Segundo apurou o Estado com integrantes da pasta, o novo enquadramento é resultado da confirmação da transmissão do vírus dentro destes países.

Mais cedo, ao Broadcast/Estadão, o embaixador do Brasil em Roma, Helio Vitor Ramos Filho, afirmou que tem feito relatos diários ao governo brasileiro sobre a situação do novo coronavírus no país europeu. 

"Desde a primeira incidência, temos feito relatórios diários para Brasília, sobre o tratamento da doença na Itália e todas as orientações que os italianos estão comunicando", disse Ramos Filho.

Araújo confirmou que tem recebido os relatórios, mas reforçou que seguirá as orientações da OMS para eventuais restrições de circulação. 

OMS diz que aumento de casos é "profundamente preocupante"

Nesta segunda, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, considerou "profundamente preocupante" o aumento de casos de coronavírus registrado na Itália, no Irã e na Coreia do Sul. 

Com oito mortes confirmadas, o Irã se tornou neste domingo, 23, o país fora da China em que houve mais vítimas. Ao todo, são 43 casos confirmados entre os iranianos. Na Coreia do Sul, o governo local elevou o grau de alerta ao máximo após o rápido avanço do vírus. O país asiático registrou quatro mortes pela pneumonia viral e 602 casos de contágio.

Em pronunciamento nesta segunda-feira, Ghebreyesus disse que há especulação de que esses casos em novos países podem significar que o avanço do vírus já caracteriza uma pandemia. "No momento, não vemos avanço global incontido do vírus e não vemos mortes em alta escala", disse ele. "O vírus tem potencial pandêmico? Com certeza. Estamos lá? Achamos que ainda não."

 

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Governo da Itália registra mortes por coronavírus e isola pelo menos 11 cidades

Carnaval de Veneza e Milan Fashion Week foram suspensos em razão do aumento do número de casos; diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a OMS está especialmente preocupada com os casos na Itália, Coréia do Sul e Irã

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 10h46

CODOGNO - O governo da Itália anunciou a sexta morte provocada pelo novo coronavírus no país nesta segunda-feira, 24. Desde domingo, 23, as autoridades italianas estão controlando ao menos 11 cidades na região norte - elas estão em quarentena, uma tentativa de evitar a propagação da doença.

Ao todo, cerca de 43 autoridades locais determinaram restrições à entrada e saída de pessoas. Aproximadamente 50 mil pessoas estão sendo prejudicadas. Quem não respeitar às medidas poderá ficar detido por até três meses. Autoridades de proteção civil disseram que 222 pessoas deram positivo para o novo coronavírus na Itália. Uma foi curada.

A polícia italiana também monitora postos de controle em cidades em quarentena no norte do país nesta segunda-feira, enquanto as autoridades tentaram conter casos do coronavírus que fizeram da Itália o principal local do surto na Europa. No entanto, as autoridades ainda não identificaram a origem do contágio, que nesta segunda-feira se espalhou por mais regiões e levou a Áustria a interromper temporariamente o tráfego ferroviário através de sua fronteira com a Itália.

"Esses rápidos desenvolvimentos no fim de semana mostraram a rapidez com que essa situação pode mudar", disse a comissária de saúde da UE Stella Kyriakides em Bruxelas. "Precisamos levar essa situação muito a sério, mas não devemos ceder ao pânico e, ainda mais importante, à desinformação".

Os italianos que viajam para o exterior também começam a sentir o temor das autoridades de outros países em relação a eles. Um ônibus cuja origem era Milão foi barrado pela polícia na cidade francesa de Lyon para que os passageiros pudessem realizar exames. Além desse caso, pelo menos um avião da Alitalia, a principal companhia aérea da Itália, foi bloqueado na pista ao pousar nas Ilhas Mauricio. O Ministério das Relações Exteriores da Itália disse que estava trabalhando para fornecer "a máxima assistência aos italianos a bordo". Muitos italianos estão viajando esta semana para as férias escolares no meio do inverno.

Carnaval de Veneza e semana de moda afetados

O tradicional carnaval de Veneza foi suspenso no último domingo. O evento teve início em 8 de fevereiro e iria até o dia 25, a próxima terça-feira. Anualmente, a cidade recebe nesta época milhares de pessoas de todo o mundo.

Os temores se espalharam, também, pela capital da Lombardia, Milão, cidade considerada o centro financeiro da Itália. Os dois últimos desfiles da Milan Fashion Week, programados para segunda-feira, foram cancelados.

O vice-ministro da Saúde da Itália, Pier Paolo Silveri, disse que o país está apelando ao "senso cívico" dos italianos para respeitar as medidas de contenção nas duas semanas que a quarentena impõem.

Os casos crescentes surpreenderam o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, já que a Itália impôs medidas mais rigorosas do que qualquer outro país europeu depois que os primeiros casos foram relatados na China.

A Itália, em 31 de janeiro, por exemplo, proibiu voos para China, Taiwan, Hong Kong e Macau, rastreou todos os passageiros que chegavam em seus aeroportos e declarou estado de emergência para liberar fundos para medidas de contenção.

Temor na Croácia, Eslovênia, Romênia, França e Albânia

Países vizinhos da Itália, Eslovênia e Croácia, destinos populares para turistas italianos e cujos cidadãos muitas vezes viajam para a Itália, realizavam reuniões de crise nesta segunda-feira. A Croácia anunciou que monitoraria todos os viajantes vindos da Itália, incluindo crianças croatas que retornam de viagens escolares.

O primeiro-ministro romeno, Ludovic Orban, disse que qualquer pessoa que entrar na Romênia, de qualquer região onde o vírus está presente, ficará em quarentena por 14 dias. A mídia local informou que os passageiros que chegavam estavam apenas preenchendo um formulário.

Na França, o governo orientou a qualquer pessoa que tenha visitado a região da Lombardia ou Vêneto a usar máscaras faciais se sair de casa, limitar atividades não essenciais e medir a temperatura duas vezes por dia. O Ministério da Saúde francês emitiu o mesmo aviso para quem viajou para a China, Coréia do Sul, Cingapura ou Macau. A França teve 12 casos do vírus identificados e uma morte.

Na Albânia, cerca de 5 mil passageiros que chegavam de avião, balsa e terra estavam sendo monitorados, com foco especial nos pontos de passagem de fronteira para os viajantes da Itália.

O comitê de segurança da saúde da UE se reuniu na segunda-feira para fazer um balanço dos desenvolvimentos, principalmente na Itália. Uma equipe conjunta da Organização Mundial da Saúde e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças também devem visitar a Itália.

“Menos de dois meses atrás, o coronavírus era completamente desconhecido para nós. As últimas semanas demonstraram a rapidez com que o vírus se espalha pelo mundo e causa amplo medo e perturbação ”, disse o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em entrevista coletiva em Estocolmo. Ele disse que a OMS está especialmente preocupada com os casos na Itália, Coréia do Sul e Irã, onde o número de mortos pode ter chegado a 50 pessoas na cidade de Qom na segunda-feira.

Irã também sofre com o vírus

O porta-voz do Ministério da Saúde do Irã, Iraj Harirchia, afirmou que o número de mortos pelo vírus permanece em 12 pessoas. No entanto, parlamentar da cidade iraniana de Qom contradiz os números oficiais e diz que 50 pessoas morreram na cidade iraniana de Qom devido ao novo coronavírus apenas neste mês.

O novo número de mortos relatado pelo representante da Qom, Ahmad Amiriabadi Farahani, é significativamente maior do que o último número de casos confirmados em todo o país de infecções que as autoridades iranianas haviam relatado apenas algumas horas antes, de acordo com TV estatal.

No entanto, o governo iraniano rejeita esses números. Farahani também elevou o número de casos confirmados do vírus para 61. Outros 900 casos suspeitos estão sendo testados, disse ele. "Ninguém está qualificado para discutir esse tipo de notícia", disse Haririchi, acrescentando que os legisladores não têm acesso às estatísticas do coronavírus e podem estar misturando números de mortes relacionadas a outras doenças como a gripe com o novo vírus, que surgiu pela primeira vez em China em dezembro.

Balanço na China

As autoridades chinesas anunciaram nesta segunda-feira que adiaram sua principal reunião de cúpula política do ano devido ao surto do coronavírus. O país asiático já relatou 2.592 mortes e 77.150 casos de infecções pelo vírus, a maioria na província de Hubei.

A cúpula anual do Congresso Nacional do Povo da China e de seu comitê permanente costumam acontecer todos os anos a partir do dia 5 de março, em Pequim, e durar mais de duas semanas.

A Xinhua, agência estatal de notícias do país, informou que um terço dos 3 mil delegados do congresso são funcionários de províncias ou municípios com relevantes papéis de liderança na linha de frente da batalha contra a epidemia. / Associated Press

 

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Com surto de coronavírus na Itália, Bolsas na Europa fecham com queda generalizada

Desdobramentos de epidemia na Itália e na Ásia afetam os mercados; Bolsa de Milão caiu 5,43%, a de Londres 3,34% e a de Paris, 3,94%

Sergio Caldas, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 09h35
Atualizado 24 de fevereiro de 2020 | 15h12

As bolsas europeias fecharam o pregão desta segunda-feira, 24, com robustas perdas, à medida que a rápida propagação do coronavírus  intensificou temores sobre o impacto da doença na economia global. Na Europa, a maior preocupação é com a Itália, que já registrou mais de 200 casos de coronavírus e seis mortes. O surto se concentra principalmente no norte do país, onde ao menos 11 cidades foram colocadas sob quarentena.

O índice acionário italiano FTSE-Mib liderou as perdas no continente europeu, com um tombo de 5,43% em Milão, a 23.427,19 pontos.

Mas em outras partes da Europa a desvalorização das bolsas foi igualmente acentuada. O FTSE-100 caiu 3,34% em Londres, a 7.156,83 pontos, enquanto o DAX-30 recuou 4,01% em Frankfurt, a 13.035,24 pontos, e o CAC-40 cedeu 3,94% em Paris, a 5.791,87 pontos. Em Madri, a baixa do IBEX-35 foi de 4,07%, a 9.483,50 pontos, e, em Lisboa, o PSI-20 registrou perda de 3,53%, a 5.197,09 pontos.

O índice pan-europeu Stoxx-600 fechou em queda de 3,79%, a 411,86 pontos, influenciado principalmente por ações de companhias aéreas. A EasyJet, por exemplo, despencou 16,67% em Londres e a Air France-KLM caiu 8,68% em Paris.

O novo coronavírus já infectou mais de 79 mil pessoas em todo o mundo. A China, onde a doença se originou, ainda é responsável pela maior parte dos casos e óbitos. Nos últimos dias, porém, o contágio avançou não apenas na Itália, mas também na Coreia do Sul e no Irã.

Apesar da disseminação da doença, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, descartou a possibilidade de pandemia. "No momento, não vemos avanço global incontido do vírus e não vemos mortes em alta escala", disse. "O vírus tem potencial pandêmico? Com certeza. Estamos lá? Achamos que ainda não", acrescentou.

 

Bolsas da Ásia 

As bolsas asiáticas também fecharam majoritariamente em baixa nesta segunda-feira, em meio a crescentes temores com a disseminação do coronavírus. A situação é particularmente preocupante na Coreia do Sul, que divulgou mais um salto no número de casos da doença, de 231, que eleva o total acumulado para 833. Já o número de mortos por coronavírus na Coreia chegou  a sete. Com o avanço da epidemia, o governo sul-coreano elevou seu alerta para o coronavírus ao maior nível possível.

Na China, foram relatados mais 409 novos casos e 150 mortes. Com a atualização, o total de casos confirmados no país desde o início do surto atingiu 77.150, com 2.592 mortes. O índice acionário Kospi liderou as perdas na Ásia hoje, encerrando o pregão com queda de 3,87% em Seul, a 2.079,04 pontos. 

Em outras partes da Ásia, o chinês Xangai Composto recuou 0,28%, a 3.031,23 pontos, o Hang Seng caiu 1,79% em Hong Kong, a 26.820,88 pontos, e o Taiex cedeu 1,30% em Taiwan, a 11.534,87 pontos. No Japão, um feriado local manteve a Bolsa de Tóquio fechada. Exceção, o Shenzhen Composto - que é composto por empresa chinesas de menor valor de mercado - avançou 1,36%, a 1.933,36 pontos.

Como já havia sinalizado na semana passada, a China decidiu hoje adiar a reunião de cúpula anual do Congresso Nacional do Povo, que estava prevista para começar dia 5 de março. Na Oceania, a bolsa australiana registrou hoje sua maior perda do ano em um único pregão. O S&P/ASX 200 caiu 2,25% em Sydney, a 6.978,30 pontos, eliminando num único dia os ganhos acumulados em quase três semanas. 

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Coronavírus: veja perguntas e respostas sobre a doença

Novo vírus já infectou milhares de pessoas, principalmente na China, e colocou o mundo em alerta

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 19h07

O coronavírus começou a circular no fim de dezembro em Wuhan, cidade com 11 milhões de habitantes localizada na China. Os relatos inicias indicavam que uma 'doença misteriosa' estava infectando as pessoas rapidamente, desencadeando pneumonia. Em janeiro deste ano, a China anunciou as primeiras mortes e, na sequência, o crescimento desenfreado de registros. Outros países passaram a relatar casos, como Tailândia, Austrália e Estados Unidos, e a adotar ações em portos e aeroportos.

Quais os sintomas do coronavírus? Como prevenir? Devo cancelar viagens? Veja as principais perguntas e respostas sobre a doença no Instagram do Estadão.

 

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Incubação pode ser maior do que 14 dias e número de infectados no mundo aumenta

Coreia do Sul e Japão reportaram um grande aumento de casos no sábado, ao passo que, na China, mais 97 pessoas morreram, e uma quinta pessoa que contraiu o vírus morreu no Irã

Anna Fifield, Simon Denyer, Chico Harlan e Miriam Berger, Washington Post

24 de fevereiro de 2020 | 05h00

PEQUIM - Cientistas vêm analisando um caso na China de que o período de incubação do novo coronavírus deve ser maior do que os 14 dias que se acreditava até o momento, despertando dúvidas quanto aos atuais critérios de quarentena, em meio a esforços cada vez mais prementes para conter a propagação da epidemia da Ásia Oriental para o mundo.

Coreia do Sul e Japão reportaram um grande aumento de casos no sábado, ao passo que, na China, mais 97 pessoas morreram, e uma quinta pessoa que contraiu o vírus morreu no Irã. E no sábado também as autoridades italianas informaram que o país registrou um aumento repentino de casos, com 50 pessoas infectadas nos últimos dois dias – o maior surto da doença na Europa.

Ao mesmo tempo, cientistas na China afirmaram existir indicações de que o vírus pode ser transmitido através da urina. Uma equipe de especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) deveria chegar no sábado a Wuhan, epicentro da epidemia.

O diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou na sexta-feira a urgência de se conter a disseminação do coronavírus depois que casos foram reportados no Irã e no Líbano.

“Embora o tempo durante o qual temos chances esteja diminuindo para conter a epidemia ainda temos possibilidade de refreá-lo”, disse ele a jornalistas em Genebra. Se desperdiçarmos a oportunidade, então teremos um grave problema em mãos”.

O líder chinês Xi Jinping, que não visitou Wuhan desde que a epidemia eclodiu, afirmou que a situação na cidade e na província de Hubei “continua sombria e complexa”, de acordo com a agência oficial de notícias Xinhua.

“O ponto de inflexão da epidemia a nível nacional ainda não ocorreu” diz a notícia, veiculada depois de uma reunião de líderes do Partido Comunista.

A Comissão Nacional de Saúde da China informou no sábado que 397 novos casos de coronavírus foram diagnosticados na sexta-feira, elevando o total de enfermos para mais de 76 mil; a taxa de infecção fora de Hubei parece ter diminuído consideravelmente, embora houvesse muita confusão no tocante às estatísticas esta semana, uma vez que as autoridades por várias vezes mudaram os critérios para confirmação dos casos.

Entre os novos infectados estava um homem de 70 anos, em Hubei, que foi testado positivo para a doença depois de 27 dias em isolamento, ao passo que outro indivíduo na província de Jiangxi também testou positivo depois de 14 dias de quarentena centralizada e cinco dias de isolamento em casa. Na quinta-feira as autoridades informaram que um homem em Hubei havia contraído o coronavírus depois de um período de incubação de 38 dias sem apresentar nenhum sintoma.

Os Estados Unidos também estão às voltas com as consequências domésticas das suas respostas ao vírus. A cidade de Costa Mesa, na Califórnia, processou o governo federal pelo seu plano de transferir pacientes em quarentena do coronavírus da Travis Air Force Base, perto de Sacramento, para o Fairview Development Center. Segundo a cidade, a área em questão está cercada de bairros residenciais e manter os pacientes com uma doença extremamente contagiosa tão próximos implica um risco para a saúde pública.

Um juiz federal atendeu ao pedido do município na sexta-feira e bloqueou temporariamente a transferência dos 50 pacientes. A ordem restritiva proíbe as autoridades federais e estaduais de transportarem qualquer pessoa infectada com o coronavírus ou expostas à doença para Costa Mesa antes de uma audiência marcada para as 14 horas da segunda-feira no tribunal federal de Santa Ana, informou o Los Angeles Times.

Em Seul, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças da Coreia (KCDC), reportou no sábado que 229 novos casos foram detectados, elevando o total para 433, mais do que o dobro no espaço de um dia. A Coreia é assim o país mais afetado pela doença fora da China.

“Fora os casos no navio de cruzeiro Diamond Princess, a Coreia do Sul agora tem o maior número de casos fora da China e estamos trabalhando estreitamente com o governo para compreender totalmente a dinâmica de transmissão do vírus que levou a este aumento”, afirmou o diretor geral da OMS.

Muitos desses novos casos foram ligados a clusters existentes em uma igreja na cidade de Daegu, ao sul do país, e um hospital da localidade vizinha de Cheongdo, segundo o centro de prevenção e controle de doenças da Coreia.

O governo sul-coreano designou Daegu e a província ao norte de Gyeongsang “zonas de cuidados especiais”, onde os esforços para conter a doença e de suporte serão concentrados.

Mais da metade dos casos verificados na Coreia no Sul tem relação com a filial em Daegu da Igreja Shincheonji. Desde que os membros da igreja assistiram a um funeral em um hospital na vizinha Cheongdo Daenam, 111 casos de coronavírus foram reportados ali, incluindo dois pacientes que morreram em decorrência do vírus.

A infecção em massa no hospital está concentrada na sua ala psiquiátrica, onde um ambiente confinado deve ter agravado a transmissão do vírus, afirmou Jung Eun-Kyeong, diretor do KCDC.

Um homem de cerca de 40 anos foi encontrado morto em sua casa na cidade de Gyeongiu, a leste de Daegu, depois de contrair o vírus. Ele é a terceira pessoa a morrer por causa do coronavírus na Coreia do Sul.

No Japão houve também um aumento do número de casos, que subiu para 121, mais do que triplicando em uma semana. Nesse número não estão incluídas as pessoas a bordo do navio Diamond Express que contraíram o vírus.

Um dos casos mais recentes foi o de um professor em torno de 60 anos de idade de uma escola secundária pública a leste de Tóquio, que sentiu náuseas quando dava aula. O prefeito de Chiba anunciou que a escola ficará fechada até quarta-feira, informou a NHK.

O professor não viajou para o exterior nas últimas duas semanas e não há registros de que tenha tido contato com alguma pessoa infectada, ressaltando o fato de que o vírus agora vem se propagando de maneira invisível pelo país, afirmam especialistas.

*TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Preocupações com coronavírus levam ouro ao maior valor em sete anos

Metal precioso é visto como ‘porto seguro’ em momentos de crise; preço registrou maior valor em sete anos nesta segunda-feira, 24

Francine de Lorenzo e Marcela Guimarães, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 19h13

Os temores de propagação do novo coronavírus fora da China fizeram o ouro registrar nesta segunda-feira, dia 24, o maior valor em sete anos, flertando com a marca de US$ 1.700 por onça-troy (medida usada nas negociações de alguns metais preciosos, equivalente a 31,1 gramas). Investidores buscaram a segurança do metal precioso, que chegou a ser negociado a US$ 1.691,70 no mercado futuro. No fim da sessão em Nova York, o contrato de ouro para entrega em abril era cotado a US$ 1676,60 por onça-troy, alta 1,69%.

Por outro lado, os contratos futuros de petróleo fecharam em queda com o salto no número de casos de coronavírus na Itália e preocupações com a epidemia em países como Coreia do Sul e Irã, onde novos casos apareceram nos últimos dias. Investidores também mantêm no radar a falta de consenso entre integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) sobre um corte mais aprofundado na produção do cartel.

O petróleo WTI para entrega em abril encerrou segunda-feira em queda de 3,65%, a US$ 51,43 o barril na New York Mercantile Exchange (Nymex), enquanto o Brent para o mesmo mês cedeu 3,76%, sendo cotado a US$ 56,30 o barril na Intercontinental Exchange (ICE), em Londres.

O aumento rápido de casos na Itália acendeu um alerta com temores de que o país possa ser o centro de um surto maior na Europa. Sete pessoas já morreram no país, e o número de infectados passa dos 200. A OMS considerou como “profundamente preocupante” o aumento de casos nos territórios italianos, iraniano e sul-coreano.

Em relatório enviado a clientes, analistas do ING apontam que os municípios afetados na Itália estão próximos de vizinhos economicamente relevantes, como Milão. “A principal preocupação será se o vírus pode ser contido sem afetar as atividades industriais e de serviços, no momento em que a economia italiana está flertando com outra recessão técnica.”

Já o alemão Commerzbank disse que, “se mais países e continentes são afetados pelo vírus, é provável que isso tenha efeitos de frenagem substancial na atividade econômica do bloco europeu. Uma demanda mais fraca por petróleo aumentaria ainda mais o excesso de oferta” existente no mercado.

“Há uma necessidade maior de que a Opep e seus produtores aliados reduzam a produção mais acentuadamente. No entanto, a aliança entre a Arábia Saudita e a Rússia parece estar pendente, aparentemente porque a Rússia se recusa obstinadamente a qualquer corte adicional na produção”, lembra Carsten Fritsch, analista do banco alemão.

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Coronavírus é 'assustador', mas ainda não é hora de vender ações, diz Warren Buffet

Bilionário, que é presidente da empresa de investimentos Berkshire Hathaway, chamou o surto de coronavírus de “algo assustador”

REUTERS, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 19h27

NOVA YORK  - Warren Buffett, o bilionário presidente da empresa de investimentos Berkshire Hathaway, chamou o surto de coronavírus de “algo assustador”, mas disse que as ações continuam sendo um bom investimento a longo prazo e que ele não venderá seus papéis, apesar da ameaça de uma pandemia.

Falando à rede de TV CNBC, Buffett disse que os investidores com um horizonte de 10 a 20 anos e focados no poder de ganhos das empresas se sairão bem em ações.

“É algo assustador”, afirmou Buffett, referindo-se ao surto. “Mas não acredito que isso deva afetar o que você faz nas ações.”

Os mercados em todo o mundo caíram nesta segunda-feira com a preocupação de como o surto global de coronavírus, que começou na China e se expandiu para países como Itália, Coreia do Sul e Irã, poderia prejudicar a economia global.

Buffett disse que os investidores não podem prever o desempenho de longo prazo do mercado observando as manchetes diárias. Ele declarou que a Berkshire “certamente estaria mais inclinada” a comprar ações após uma liquidação, em um momento em que a economia dos Estados Unidos estava “forte, mas um pouco mais flexível” do que há seis meses.

“Se você olhar para a situação atual”, disse ele, “obtém mais dinheiro em ações do que em títulos”.

A Berkshire Hathaway anunciou na semana passada seus resultados em 2019. O conglomerado, que investe em empresas como Apple, Coca-Cola, Bank of America e Kraft Heinz, entre vários outros, registrou um lucro líquido de US$ 81,4 bilhões. Warren Buffet é considerado pela revista Forbes como a terceira pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 87,5 bilhões. 

 

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Norte da Itália cancela missas e fecha atrações turísticas diante de alerta de coronavírus

País europeu já registra sete mortes e 229 casos da doença; escolas, universidades e cinemas também foram afetados

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 19h49

ROMA - Até as missas estão canceladas no norte da Itália por causa do coronavírus. Decreto do Ministério da Saúde com regras para residentes da região da Lombardia foi divulgado este fim de semana e tem validade até 1º de março: "evitar, na medida do possível, frequentar lugares superlotados e participar de manifestações e eventos públicos”, além das medidas extraordinárias, como restringir a circulação entre as cidades afetadas, fechar de 5,5 mil escolas de toda ordem e grau, creches, cinemas, discotecas e museus.  

Atrações turísticas, como a catedral gótica El Duomo, o templo da ópera La Scala, foram fechadas. O tradicional Carnaval de Veneza foi suspenso. No país, já houve sete mortes e 229 casos confirmados

As celebrações eucarísticas foram suspensas nas duas regiões mais atingidas, em especial, na Lombardia e no Vêneto, e a Igreja está colaborando com as autoridades para conter a difusão do vírus. Em Milão, a diocese estabeleceu que as igrejas permaneçam abertas; mas que, nos oratórios, não sejam realizados encontros, iniciativas e reuniões.

O arcebispo de Milão, Mario Delpini, invocando a bênção de Deus sobre àqueles que estão doentes ou isolados, afirmou que “cada indicação que será dada para a prevenção e para comportamentos prudentes será acolhida com rigor pelas instituições eclesiásticas”. “Quem está sendo obrigado a suspender as atividades ordinárias encontrará ocasião para dias menos frenéticos: poderá viver o tempo à disposição também para rezar, pensar, buscar formas de proximidade com os irmãos e as irmãs”, finalizou o arcebispo.

O Patriarca de Veneza, Francesco Moraglia, também convida os fiéis a dedicarem “um tempo conveniente à oração e à meditação, eventualmente também se ajudando por meio das celebrações transmitidas pela rádio e pela TV”. Por precaução, paróquias do norte da Itália já estão tomando medidas de prevenção: durante as celebrações não será dada a saudação da paz, a comunhão será dada na mão e a água benta dos locais está sendo retirada.

Padre Gabriele Bernadelli, pároco da cidade de Castiglione d’Adda, dirigiu uma mensagem comovente aos fiéis, sobre a emergência sanitária que “parecia estar distante, mas que agora está aqui na nossa casa”. Ele fala de seguir as indicações das autoridades, como a suspensão das missas, mas não de deixar de rezar, ao contrário, “incrementá-la”.

Setor turístico já sofre com desistências

O setor hoteleiro também está preocupado por causa do cancelamento de 25% das viagens de negócios a Milão. Para o turismo em Veneza, o índice de desistências é de 40%, o que eleva os temores de profundas perdas econômicas. 

No domingo, 23, um trem internacional que viajava entre Veneza e Munique foi detido à noite por algunas horas antes de cruzar a fronteira com a Áustria, como mediada de precaução porque dois passageiros alemães tinham febre. 

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Brasil recebeu ao menos 5,3 mil voos de países em lista de alerta por coronavírus em 2019

Itália, França, Alemanha e Emirados Árabes entraram no rol do Ministério da Saúde nesta segunda; pacientes vindos desses locais que apresentaram sintomas serão classificados como suspeitos

Amanda Pupo, Camila Turtelli, Julia Lindner e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 22h19

BRASÍLIA - O Brasil recebeu pelo menos 5,3 mil voos, no ano passado, dos países incluídos hoje na lista de alerta do Ministério da Saúde por risco de coronavírus. O número de passageiros que vieram da Itália, França Alemanha e Emirados Árabes soma 1,3 milhão de pessoas, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)

Além destes, outros quatro países - Austrália, Filipinas, Malásia, Irã - entraram no rol de origens monitoradas, mas não há voos diretos ao Brasil, segundo os registros da Anac.  Com esta medida, serão considerados suspeitos da doença pessoas que estiveram nestes locais nos últimos 14 dias (tempo de incubação do vírus) e que apresentam sintomas da doença, como febre forte e tosse. 

O novo enquadramento é resultado da confirmação da transmissão do vírus dentro desses países. Da lista de países sob alerta, a França foi a origem da maior parte dos passageiros (490,9 mil), seguido pela Alemanha (356,4 mil), Itália (354,6 mil) e Emirados Árabes (193 mil).  

Antes da nova definição, pessoas com sintomas de gripe vindas destes países não recebiam atenção especial da vigilância sanitária brasileira, pois a suspeita de novo coronavírus era descartada na hora. Agora, haverá protocolo específico em que, caso o passageiro tenha febre associada a algum outro sintoma, será enquadrado automaticamente como caso suspeito. Uma análise clínica poderá ser feita no desembarque pela autoridade sanitária e, caso a suspeita se mantiver, o passageiro será levado a um hospital. 

Com escalada de casos, Itália é maior preocupação

Na Europa, a maior preocupação é com a Itália, que já registrou mais de 200 casos e sete mortes desde o último fim de semana. O surto se concentra principalmente no norte do país europeu, onde ao menos 11 cidades foram colocadas sob quarentena.

Segundo a Anac, em média, o Brasil recebe quatro voos diários vindos de cidades italianas. São três saindo de Roma e um de Milão, uma das cidades com registro de coronavírus. Da França são cinco, da Alemanha, três, e do Emirados Árabes, dois.

Ao Estadão/Broadcast nesta segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou não haver qualquer restrição de viagens para estes destinos. Há recomendação do governo para que não sejam feitas viagens apenas para a China, onde mais de 2,5 mil pessoas morreram nos últimos dias após serem contaminadas.

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'Não sabemos potencial da transmissão sem sintoma; coronavírus pode passar despercebido'

Especialista em infectologia explica qual é o status da epidemia de coronavírus com a propagação dos casos pela Europa e quais são os riscos de chegar ao Brasil

Entrevista com

Nancy Bellei

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 20h35

SÃO PAULO - Com a chegada do novo coronavírus na Itália e a rápida propagação dos casos no país, aumenta o temor de que ele se espalhe para a Europa e dali para outras partes do mundo. Já é hora de falar em pandemia? Com a comunicação mais intensa do continente com o Brasil, as chances de um passageiro com o vírus chegar ao País são maiores? Estamos preparados?

Para responder a essas questões, conversamos com a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ela explica que o risco é maior e que ainda há muitas dúvidas sobre a dinâmica da epidemia, o que gera insegurança sobre a melhor estratégia para conter a epidemia, se é que ainda é possível. 

De acordo com ela, muito provavelmente casos assintomáticos estão passando despercebidos e isso talvez possa explicar a rápida propagação na Itália. Do ponto de vista individual, diz que o risco da doença é baixo, mas para o sistema público de saúde, pode ser o caos. Para o Brasil, ela recomenda um diálogo franco com a comunidade. Se a epidemia chegar, as pessoas que tiveram quadros leves da doença devem saber que têm de ficar em casa, deixando os hospitais para os casos graves.

O rápido avanço da epidemia de coronavírus pela Itália indica que se está se caminhando para uma pandemia?

Não é só na Itália. Há um número grande também na Coreia, no Irã. Mas a maior parte dos casos italianos está em comunas próximas de Milão. São cidades pequenas, periféricas, onde fica mais fácil controlar os habitantes, então talvez seja possível ter uma certa contenção do vírus. Mas epidemias são imprevisíveis, não dá para saber se dali vai para o resto da Europa. É um momento extremamente difícil. Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) não declara que temos uma pandemia, gera uma instabilidade. Cada país toma uma providência sobre barreiras, sobre como lidar com voos. Mesmo no local que está com o vírus, alguns lugares são fechados, outros não. Uma agência de saúde pode ser mais agressiva, outros países podem deixar mais solto. Falta esse consenso internacional.

Muito se fala que apesar de ser transmitido muito rapidamente, o Covid-19 tem uma baixa letalidade. Há realmente motivo para preocupação?

Muitas pessoas têm comparado com a epidemia do H1N1, de 2009, em que se esperava uma coisa e não foi bem assim. De fato esse coronavírus tem uma mortalidade menor, mas há muitas diferenças. Ele não tem até o momento tratamento; o influenza tem, desde que comece cedo. Não existe imunidade para ele na população; O influenza nós sabemos que tem predileção por algumas faixas etárias. A transmissibilidade desse vírus, pelo que se vê, é mais elevada do que para outros vírus respiratórios. Mas temos incertezas ainda sobre a dinâmica da epidemia. Se durante o período assintomático, o vírus transmite com a mesma eficiência; se a pessoa continua transmitindo mesmo depois de ter se recuperado. O que sabemos até agora são de algumas publicações e relatos sobre alguns grupos na China, mas não temos, por exemplo, ainda, um estudo sobre o efeito na comunidade. Para o H1N1  isso tudo foi descoberto e compartilhado muito rapidamente. Tínhamos dados dos Estados Unidos, do México para entender como estava evoluindo. Mas a epidemia está lá na China desde dezembro e ainda não sabemos essas coisas. A OMS mesmo só entrou na China há cerca de duas semanas para entender a epidemia. Ainda não tivemos acesso ao panorama completo. 

Qual é o risco?

A gente tem de olhar a questão sob dois ângulos. Do ponto de vista individual, se uma pessoa me pergunta se ela deve ir para Milão, se ela tem chance de morrer, temos de considerar o seguinte. Se é uma pessoa jovem, sem nenhuma comorbidade, a chance é mínima, porque a maioria dos casos é leve. A chance de óbito nos casos críticos é de 3%. Mas do ponto de vista da saúde pública, temos de pensar que a epidemia pode gerar um caos. Imagine uma cidade com 3 mil habitantes que fechou escolas, comércio, fábricas, com um monte de gente procurando hospital, pessoas com a doença, mas também aqueles só com suspeita, mas que estão assustados. E os profissionais de saúde também podem ficar doentes, o que diminui a oferta de atendimento e não tem como aumentar. E mesmo que a mortalidade não seja alta, se um hospital tem três leitos numa UTI e eles são ocupados por esses pacientes, como ficam pessoas com outras doenças? Não é todo mundo que constrói um hospital novo em dez dias, como ocorreu na China.

Com o vírus sendo transmitido na Europa, aumentam as chances de chegar ao Brasil?

Com certeza, quanto mais países europeus ou americanos tiverem a doença, mais chance de ter um passageiro vindo para cá. O problema é que existe transmissão assintomática e não sabemos o potencial disso. Já podem ter chegado pessoas assintomáticas ou com quadro leve e ainda não sabermos.  Muito provavelmente o que aconteceu na Itália é que o vírus passou despercebido por algum tempo. De acordo com relatos do Ministério da Saúde local, dois chineses foram internados com a doença no final de janeiro em Roma. Deve ter sido feito um alerta na região, mas não foi suficiente para todo mundo ficar atento no norte do país. Casos leves provavelmente não foram notados. Afinal, é inverno, é normal ter gente espirrando ou tossindo por outros vírus respiratórios. Sem o alerta, alguém com febrinha ou tosse não vai procurar o serviço de saúde. Mas quando surge a notícia de um vírus novo na cidade, aí todo mundo procura, por isso tantos casos. Certamente a coisa não se espalhou somente em três dias. A literatura indica que quando aparece o primeiro caso grave de hospitalização ou de óbito, é porque o vírus já está circulando há pelo menos três semanas na comunidade. 

O Brasil está preparado para a epidemia, se ela chegar por aqui?

No momento, o que o País anunciou estar fazendo está correto: de fazer as orientações para a população, os alertas em aeroportos, os atendimentos para casos suspeitos. Para este momento em que ainda não temos documentação de transmissão local está correto. Mas se chegar aqui mesmo, aí vai ser a prova de fogo se houve treinamento dos profissionais de saúde, se há garantia dos suprimentos hospitalares para os serviços públicos de saúde. É preciso ter seriedade na comunicação com a população. Tem de explicar o que é a doença, quais são os sinais de alerta, quando se deve ficar em casa. É preciso ter planos de contingência para estabelecer quanto tempo uma pessoa contaminada não deve ir trabalhar ou ir para a escola. Tudo tem de ficar claro desde o início. Evitar que a epidemia tome um vulto grande ou que a situação fique caótica depende muito de as pessoas entenderem: se estou doente e não preciso do hospital, não vou a lugares públicos para mitigar a epidemia e vamos reservar os hospitais para quem precisa.

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