Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ministério da Saúde orienta suspensão de vacinação de adolescentes sem comorbidades

Relação entre a vacinação e evento adverso grave mencionado pela Saúde ainda não está confirmada; pasta pede que sejam imunizados só os jovens 12 a 17 anos com comorbidades ou privados de liberdade

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 13h03
Atualizado 16 de setembro de 2021 | 19h06

O Ministério da Saúde tirou adolescentes de 12 a 17 anos sem comorbidades da lista de grupos cuja vacinação contra a covid-19 é recomendada. Por meio de nota informativa divulgada na noite desta quarta-feira, 15, a pasta pede que sejam vacinados só os adolescentes com comorbidades ou privados de liberdade. O uso da vacina da Pfizer nesta faixa etária foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Parte das cidades, como Salvador e Natal, já mandou parar a imunização nessa faixa etária. Já a capital paulista, por exemplo, informou que não vai suspender. Estados, como Espírito Santo e São Paulo, criticaram a decisão do Ministério. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou, em entrevista coletiva, que os adolescentes sem comorbidades que tomaram a 1.ª dose, por ora, não voltem para a 2.ª aplicação. Já aqueles com comorbidade devem concluir o esquema vacinal.

O ministério elencou alguns pontos para justificar a decisão. O primeiro item diz que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda a imunização de crianças e adolescentes com ou sem comorbidades. Na verdade, não há orientação contrária da entidade internacional para a vacinação dessa faixa etária. A recomendação da OMS é para que os menores de idade só sejam imunizados depois que todas as pessoas dos grupos de maior risco estejam vacinadas. No Brasil, a vacina já foi ofertada a pessoas mais vulneráveis à covid, como idosos, profissionais de saúde e pessoas com doenças crônicas, como transplantados, pacientes de câncer, diabéticos, entre outros.

O documento do ministério, assinado por Rosana Leite de Melo, secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, afirma que a maioria dos adolescentes sem comorbidades são assintomáticos ou apresentam poucos sintomas. No entanto, especialistas dizem que vacinar os mais jovens é uma estratégia importante para frear a transmissão do vírus.

Outro trecho da nota do ministério diz que "os benefícios da vacinação em adolescentes sem comorbidades ainda não estão claramente definidos". A vacina da Pfizer, único imunizante autorizado no Brasil para uso em adolescentes, já foi amplamente testada nessa faixa etária. Outros países como Estados Unidos, Chile, Canadá, França e Israel também usam a Pfizer em adolescentes. 

Rosana Leite de Melo assumiu a pasta de Enfrentamento à Covid-19 após a saída de Luana Araújo, que ficou poucos dias no cargo. Ela era defensora da vacinação em massa, crítica do uso da cloroquina (remédio sem eficácia contra o coronavírus) e chegou a falar em pressão política do governo Jair Bolsonaro. Nesta quarta-feira, 15, o ministro Marcelo Queiroga afirmou que há "excesso de vacinas" no Brasil, após uma série de Estados enfrentarem crise de abastecimento do imunizante da AstraZeneca

Em coletiva de imprensa na tarde desta quinta, Queiroga criticou os Estados que vacinaram adolescentes antes da autorização oficial do ministério. "Essa vacina só deveria ter sido aplicada após o dia 15 de setembro", disse. A recomendação do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 era para vacinar primeiramente os adolescentes com comorbidades e os privados de liberdade.

"A vacinação (dos adolescentes) deveria ter começado ontem (quarta-feira). Sabe quantos (vacinados) já tem? Quase 3,5 milhões", disse. Dados apresentados na coletiva mostram que 3.538.528 pessoas de 12 a 17 anos já foram imunizadas contra a covid-19. O número tende a ser ainda maior porque há uma demora entre a aplicação da vacina e o registro no sistema. 

1,4 mil adolescentes tomaram vacina sem aval da Anvisa

O Ministério da Saúde relatou que pelo menos 1,4 mil adolescentes de 12 a 17 anos receberam imunizantes que não foram aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para esta faixa etária. Apenas o uso da vacina da Pfizer para adolescentes foi autorizado no País. Mesmo sem aval do órgão, os imunizantes AstraZeneca, Janssen e Coronavac foram aplicados de forma equivocada. 

As 1,4 mil aplicações de outros imunizantes correspondem a 0,04% do total de adolescentes vacinados. Segundo o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros, além dos adolescentes que receberam vacinas não aprovadas pela Anvisa, houve 114 casos de eventos adversos nessa faixa etária. Os eventos adversos compreendem qualquer ocorrência indesejada após a vacinação, que não necessariamente tenha relação causal com o imunizante. Febre e dor de cabeça são exemplos de eventos adversos.  

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros,  citou ainda um evento adverso grave, em investigação, registrado pelo Estado de São Paulo. Um adolescente de 16 anos teria morrido depois de ser vacinado. A ligação entre o óbito e o imunizante não está comprovada. "Não sabemos se o paciente tinha outras comorbidades ou não, por isso está em investigação", disse.

Os jovens que receberam uma dose das vacinas da Janssen, AstraZeneca ou Coronavac serão monitorados pelo ministério e não devem receber a segunda dose, de acordo com Queiroga. "Não vou autorizar a intercambialidade de vacinas nessas idades", disse.

O ministro da Saúde citou o Reino Unido como exemplo de país que suspendeu a vacinação de adolescentes saudáveis. No entanto, o site do NHS, o serviço de saúde britânico, informa que os jovens de 16 e 17 anos já podem ser vacinados contra a covid-19 independentemente de sua condição de saúde. Os adolescentes de 12 a 15 anos serão vacinados em breve nas escolas.

Jovens entre 12 e 17 anos também estão aptos a receber a vacina da Pfizer em diversos países como Israel, Chile, Canadá, França e Cingapura. Nos Estados Unidos, os adolescentes estão sendo vacinados contra a covid-19 desde maio.

Estados criticam decisão

Nésio Fernandes, secretário de Saúde do Espírito Santo e vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) na região Sudeste, disse, no Twitter, que a nota é "vaga" porque não suspende nem contra-indica a vacinação de adolescentes. Ele falou também que a competência para autorizar ou não o uso de imunobiológicos é da Anvisa.

De acordo com Fernandes, o Conass e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) enviaram uma nota conjunta ao presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, pedindo um posicionamento ao órgão. Ele afirmou que o Conass não pediu a suspensão da vacinação de adolescentes ao ministério, mas a priorização da dose de reforço aos idosos.

Em nota, o governo de São Paulo disse lamentar a decisão do Ministério da Saúde, "que vai na contramão de autoridades sanitárias de outros países". "A vacinação nessa faixa etária já é realizada nos EUA, Chile, Canadá, Israel, França, Itália, dentre outras nações. A medida cria insegurança e causa apreensão em milhões de adolescentes e famílias que esperam ver os seus filhos imunizados, além de professores que convivem com eles", declarou a gestão do governador João Doria (PSDB).

O Estado disse ainda que "coibir a vacinação integral dos jovens de 12 a 17 anos é menosprezar o impacto da pandemia na vida deste público". "Três a cada dez adolescentes que morreram com covid-19 não tinham comorbidades em São Paulo. Este grupo responde ainda por 6,5% dos casos e, assim como os adultos, está em fase de retomada do cotidiano, com retorno às aulas e atividades socioculturais."

Em São Paulo, a vacinação de adolescentes começou no dia 18 de agosto. De lá para cá, foram imunizadas 2,4 milhões de pessoas, 72% do público, informou o Estado. "Infelizmente, e mais uma vez, as diretrizes do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde chegaram com atraso e descompassadas com a realidade dos estados, que em sua maioria já estão com a vacinação em curso."

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