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Celio Messias/Estadão
Celio Messias/Estadão

Botucatu imuniza população contra o coronavírus em 10 horas

Campanha em massa faz parte de estudo para avaliar vacina de Oxford/AstraZeneca

José Maria Tomazela , O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2021 | 12h21
Atualizado 17 de maio de 2021 | 13h14

O Brasil levou quase 90 dias para vacinar 10% da população com a primeira dose da vacina contra a covid-19. Em Botucatu, no interior de São Paulo, a 235 km da capital, apenas dez horas foram suficientes para que praticamente toda a população-alvo, de 18 a 60 anos, recebesse a dose inicial da vacina Oxford/Astrazeneca. A vacinação em massa faz parte de um estudo inédito no País para avaliar a eficácia do imunizante contra o novo coronavírus e sua efetividade contra novas cepas.

Botucatu - a “cidade dos bons ares”, como é conhecida - amanheceu neste domingo, 16, com um inusitado movimento na porta das escolas. Era como se fosse uma eleição, mas sem santinhos e boca de urna. Parceria com o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo possibilitou que a 26.ª Zona Eleitoral de Botucatu tivesse papel relevante na vacinação, atuando na logística. Cerca de 900 mesários, técnicos e outros servidores se apresentaram como voluntários para organizar o fluxo de vacinação.

Foram convocados para a campanha todos os moradores de 18 a 60 anos ainda não vacinados. Eles compareceram a um dos 45 locais costumeiros de votação, apresentando um documento oficial com foto e comprovante de residência.

Em dez horas, 95% do público-alvo da campanha (67 mil pessoas) foi imunizado. A cidade tem 148.130 habitantes.

Houve muito cuidado em evitar os “invasores”, pessoas de outras cidades que tentaram tirar proveito da vacinação antecipada em Botucatu. Por isso, só após uma rigorosa triagem feita pelos colaboradores da justiça eleitoral a pessoa recebia uma espécie de passe para ir até o local da vacinação. Pessoas com documentos rasurados ou suspeitos foram encaminhadas a uma comissão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), onde os casos são avaliados.

Para evitar aglomerações, a população foi dividida por horários, de acordo com a faixa etária. Pessoas entre 51 e 60 anos, por exemplo, foram vacinadas das 8h às 10h30, e assim por diante, até chegar aos adultos de 18 a 30 anos, imunizados entre 15h30 e 18 horas. Os maiores de 60 não foram convocados porque a maior parte já foi vacinada segundo o programa nacional de imunização.

O caseiro Diego Rafael Moreira Silva, de 28 anos, um dos beneficiados pela campanha de vacinação em massa, comemorou. “Estou no projeto e vou tomar as duas doses. Essa vacina é importante para tudo, para as pessoas ficarem protegidas. Em casa eu sou sozinho, porque meu pai e minha mãe são de Bauru. E meu pai já foi vacinado”, disse o caseiro, que cuida de ovelhas e de uma horta.

E mesmo quem já havia sido vacinado ficou aliviado. O ambulante João André da Silva Filho, de 65 anos, já tomou a primeira dose e orientou todos a se imunizarem. “Aqueles que têm idade precisam aproveitar o momento e tomar. É uma dádiva de Deus ter essa vacinação em massa. Na minha família ninguém pegou, pois a gente sempre se precaveu, usando máscara, álcool gel em tudo. Isso que está acontecendo é muito importante para todos.”

Participam do projeto de vacinação em massa, além da prefeitura de Botucatu, a Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), o Hospital das Clínicas de Botucatu, a Universidade de Oxford, o laboratório AstraZeneza, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Fundação Gates e a Embaixada do Reino Unido. O embaixador inglês no Brasil, Peter Wilson, participou da abertura da vacinação ao lado do ministro da Saúde, Marcel Queiroga, que e prometeu imunizar todo o Brasil contra o coronavírus até o fim deste ano. “Nós vemos um cenário de muita esperança em termos vacina para imunizar a população brasileira maior de 18 anos até o final do ano”, disse. Ao ser questionado sobre falhas na distribuição, ele disse que o País não estoca vacinas e todas as doses que chegam são distribuídas.

Estudo inovador

Após tomar a segunda dose do imunizante, a população de Botucatu será acompanhada por seis meses. Depois, haverá mais dois meses para os resultados finais do estudo. Durante esse tempo, além de registrar as ocorrências por covid-19, será feito o sequenciamento genômico de todos os vírus que estiveram em circulação na região.

A expectativa é de queda de casos e mortes pela doença em Botucatu, com reflexo também nas cidades do entorno. Isso porque há o deslocamento das pessoas por causa do trabalho.

Preocupação

O que mais preocupa a prefeitura de Botucatu é que a vacinação em massa crie na população a falsa impressão de que as medidas de proteção já possam ser relaxadas. De acordo com o secretário de Saúde André Spadaro, o uso de máscara e o cuidado em evitar aglomerações devem continuar pelos próximos seis meses, ou seja, durante todo o período da pesquisa. “Estávamos em queda no número de casos nas últimas semanas, mas esse cenário já mudou. Tivemos 370 casos na semana passada, e nessa estamos fechando com algo em torno de 600 casos.”

Segundo ele, esse pode ser resultado do Dia das Mães, quando o comércio todo abriu, ou da “euforia” com a vacinação em massa que leva algumas pessoas a relaxarem. 

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