Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Modelo projeta que 6 mil vidas seriam salvas no Brasil em duas semanas se fosse mantido o isolamento

Estudo consta em trabalho desenvolvido pelos professores Paulo José da Silva e Silva, da Unicamp, e Claudia Sagastizábal, colaboradora da universidade

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2020 | 15h00

RIO - Uma projeção feita por professores ligados à Universidade de Campinas (Unicamp) para a evolução da pandemia de covid-19 no País apontou que, mantido o isolamento social na intensidade da primeira semana de junho, o Brasil conseguiria salvar mais de 6 mil vidas até 21 de junho - há mais de 37 mil mortos pela doença até esta terça, 9. Os números do trabalho, que surge no momento em que Estados e prefeituras afrouxam o isolamento - mesmo com a epidemia em expansão - projetavam também que um terço (34%) das pessoas salvas pelas medidas de morrer no período estaria em São Paulo; um quinto (21%) no Rio. Mais da metade (53%) moraria na Região Sudeste.

As estimativas constavam na segunda, 8, da versão atualizada da semana da página "Vidas salvas no Brasil pelo isolamento social", desenvolvida pelos professores Paulo José da Silva e Silva, da Unicamp, e Claudia Sagastizábal, colaboradora da universidade. Os pesquisadores fizeram ajustes do R-Zero, indicador da taxa de replicação do vírus (que mostra quantas pessoas são contaminadas por cada portador da doença) para descobrir se varia no tempo. Diariamente, são feitos ajustes com novos dados, por isso os números sofrem pequenas mudanças - o período projetado, de duas semanas, também avança.

“A ideia é buscar identificar tendências na evolução da taxa de propagação do vírus e consequente aceleração ou desaceleração da epidemia depois do início dos protocolos de distanciamento social que foram implementados a partir de 24 de março em vários lugares do país. Quando os dados anteriores ao dia 24 de março não são suficientes para fazer a análise, nós usamos os dados da primeira semana em que conseguimos estimar o comportamento do vírus para representar o período anterior ao isolamento social”, explicam os pesquisadores na página.

Assim, para calcular quantas pessoas seriam salvas da morte pelo isolamento social, os professores projetaram dois “caminhos” para os números no Brasil, no período de duas semanas iniciado na segunda, 8, e a se encerrar no próximo dia 21. Um deles seguiria a taxa de reprodução do vírus anterior às medidas de isolamento, como se não tivessem sido tomadas. Apontava que nesse caso cada infectado contaminaria 2,27 outras pessoas. O outro, com a quarentena, baixava o indicador para 1,41 pessoa infectada por doente. Esse é o indicador da semana anterior ao início dos cálculos, sob isolamento. Os números de vidas poupadas são as diferenças, acumuladas dia a dia, entre os números projetados de mortos nas duas hipóteses, de 9 a 21 de junho. Esses períodos são ajustados, com dados, à medida que o tempo avança. As informações são do site Observatório Covid-19.

“Há uma mudança pequena todo dia”, explicou Silva e Silva ao Estadão. “(O cálculo) É feito para resistir a mudanças pequenas. Evita olhar mudanças abruptas de um dia para o outro.” O pesquisador afirmou que evita fazer cálculos por períodos muito longos, porque “tem muito erro associado”.

“Quando você faz uma projeção, está extrapolando informação. E aí você fala assim: Mas no passado você não está fazendo projeção, porque tem os números. Eu tenho o número real que aconteceu, mas o que teria acontecido sempre é projeção”, explicou. Por isso, o modelo dos pesquisadores projeta apenas para duas semanas no futuro. “Quanto maior o tempo, maior o erro.”

Assim, até 9 de junho, pela primeira hipótese, morreriam 1.865 pessoas, e pela segunda, 1.292. Logo, até aquele dia, seriam salvas pela quarentena 573 vidas. No dia seguinte, esse número subiria para 755; em seguida, 967, e assim por diante. Em 21 de junho, a diferença entre os dois caminhos (respectivamente 8.823 e 2.204 óbitos) resultaria nas 6.619 pessoas poupadas. Importante lembrar: esse período é ajustado dia a dia. 

“O distanciamento social parece ter sido efetivo quando consideramos o Brasil inteiro e, após perder um pouco de força há umas semanas, parece ter melhorado”, dizem os pesquisadores nos comentários da página. “Cabe destacar que ele tem perdido força no Centro-Oeste e Sul, onde perderam boa parte do ganho obtido inicialmente. (...) Por fim, vemos que as curvas de uma forma geral foram achatadas. Mas o número de doentes ainda cresce muito, mesmo que mais lentamente. Isso sugere que é imperativo que os governos busquem alternativas de controle da epidemia para não enfrentarmos colapsos nos sistemas de saúde em breve.”

Em São Paulo, com o R-Zero em 1,32 na semana passada, o cálculo é que, até o dia 21, 2.249 pessoas deixem de morrer de covid-19 por causa do isolamento, com base nos cálculos da segunda, 8. Os mortos seriam 398. Os pesquisadores estimam que, se fosse mantida a taxa de infeção anterior às medidas (2,51), as mortes em território paulista, até a mesma data, seriam 2.647. Já no Rio de Janeiro, haveria uma “economia” de 1.414 vidas até o fim do período, se o isolamento social fosse mantido - hipótese em que o indicador de contaminação ficaria em 1,22, e as mortes, em 329. Sem que as pessoas se isolassem, o R-Zero iria a 2,21, e os óbitos se elevariam a 1.743.

Entre as cinco regiões do Brasil, a menor taxa de reprodução do vírus na semana passada, sob quarentena, foi a do Norte e Nordeste: em ambas, 1,35. No Sudeste, o R-Zero nas mesmas condições ficou em 1,39. Os piores resultados, mantido o isolamento, ficaram com o Sul (1,43) e o Centro-Oeste (1,57). Todos, porém, situaram-se longe do ideal:  abaixo de 1.

Silva e Silva considera que o isolamento tende a salvar mais vidas nas Regiões Sudeste, Nordeste e Norte porque concentram mais população e casos da doença. No Sul e no Centro-Oeste, há menor incidência da covid-19, o que também dificultou o isolamento social, porque as pessoas não viram casos próximos da doença. Ele se preocupa com o relaxamento das medidas no momento.

“A gente está chegando naquela fase de números serem constantes. Só que esta não é a hora de parar. Porque a hora de parar é depois que você abaixa a curva do número de pessoas (infectadas), para ter um fôlego. Porque o que vai acontecer quando você parar é que (a quantidade de doentes) vai subir. Ou você consegue alternativas ao isolamento social - e a alternativa principal não é algo que consiga fazer com a quantidade de doentes que tem hoje em dia - ou o que vai acontecer daqui a duas, três, quatro semanas será a gente ver que os números vão subir”, afirmou Silva e Silva.

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