Montado na bicicleta, engenheiro paulista traça rota para saúde

Montado na bicicleta, engenheiro paulista traça rota para saúde

Wellington Aguilar mudou de vida percorrendo as ciclovias paulistanas

Estêvão Azevedo, O Estado de S. Paulo

21 Novembro 2016 | 05h00

Quem vê o engenheiro em telecomunicações Wellington Aguilar pedalando pelas ciclovias paulistanas nem imagina que aquilo que a maioria chamaria de um simples meio de transporte tem, na verdade, um nome muito mais importante: mudança de vida. Foi em cima de uma bicicleta que ele, há três anos, viu não só suas economias ficarem mais robustas, mas também sua saúde ganhar contornos de superação e até mesmo de cura.

O interesse por novos meios de mobilidade começou em 2013, quando Wellington, hoje com 36 anos, assistiu aos famosos protestos de julho daquele ano que pediam a redução das tarifas de ônibus e a implantação de faixas que melhorassem o trânsito na capital. Somou-se a isso, também, o fato de que já havia quinze anos anos que uma enxurrada de problemas em seu organismo o consumia e fazia pensar se não era a hora de se fazer um movimento diferente em sua rotina. 

"Sempre tive uma vida corrida. Estudos, trabalho, estresse. Consegui alguns êxitos na vida, no trabalho, mas, devido à ansiedade e à agitação, fui acometido de algumas enfermidades", relembra. O rapaz que já havia enfrentado crises de bronquite severa e repetidos casos de pneumonia na infância foi vítima de um problema de plaquetas - púrpura trombocitopênica idiopática - aos 18 anos de idade. 

Depois do tratamento, uma rinite alérgica e uma cirurgia de hérnia de hiato só fizeram aumentar a lista de patologias. "Para completar, eu ainda estava obeso", conta Wellington, que lutava contra a balança desde 2005, quando, depois de ir engordando aos pouquinhos, chegou à casa dos 114 kg. "Nunca fiz nada maluco, mas, antes de me casar, fiz dieta, mas o organismo não respondia bem. Consegui manter o peso e emagrecer com excesso de exercícios, mas a falta de uma rotina nesse sentido me prejudicou ainda mais."

No meio do ano de 2010, veio o choque principal: na manhã de 31 de maio, Aguilar trabalhava no escritório quando começou a sentir uma espécie de coceira no olho direito. "Fui ao oftalmologista e ele me receitou um colírio e até consegui fechar o olho, mas minha boca estava torta. Achei que tivesse tido um derrame", recorda. O diagnóstico era de paralisia de bell no lado direito do rosto, e o engenheiro submeteu-se, então, a uma série de tratamentos diferentes, incluindo fisioterapia.

"A maior dificuldade é o fechamento dos olhos, que é lento e causa muita irritação e alergia", explica. "No começo, eu sentia vergonha. Mas, depois, fui aprendendo a lidar com o problema e até brincar com ele. Hoje, com as fisioterapias, as pessoas nem percebem, exceto quando dou um sorriso."

A paralisia de bell é o repentino enfraquecimento dos músculos de metade da face. O problema acomete, em geral, pessoas dos 19 aos 60 anos, e causa sempre uma aparência de que o rosto está caído ou inclinado. Na maioria das vezes, trata-se de algo passageiro, mas, no caso de Aguilar, o problema tornou-se permanente. Depois de mais de três anos de tratamento, ele conseguiu recuperar parcialmente sua aparência, com leve movimento da boca e dos olhos, algo que não era possível logo no princípio da doença.

"Os repetidos casos geraram muitos sintomas depressivos e ansiedade. Provavelmente a paralisia facial foi motivada por tudo isso e a que gerou maior tristeza, pois o caso foi irreversível", desabafa. Foi então que, de olho nas mudanças que aconteciam não só dentro de si mesmo, mas também na cidade ao seu redor, Aguilar decidiu arriscar - depois da construção da ciclovia que ligava a Vila Matilde, onde ele mora, ao centro da cidade, comprou uma bicicleta e determinou que, dali em diante, seu meio de transporte para o trabalho seria sobre duas rodas.

O engenheiro estudou um trajeto seguro e encarou o desafio. "A partir daí, nunca mais larguei. Foi viciante. As pessoas me chamavam de louco, no entanto, passei, eu, a acreditar que elas eram doidas. Isso porque antes eu gastava de carro uma hora e meia até o trabalho, e, de metrô, uma hora e dez. Já de bike eu fazia 50 minutos um trajeto de 18 km", explica. "Além de ser mais rápido e prático, tem a questão de ser prazeroso, de aproveitar melhor o tempo. Ao invés de ficar sofrendo no carro ou no metrô lotado, eu ganho o tempo me divertindo e me exercitando."

Dos 114 kg daquela época, Aguilar desceu para saudáveis 84 kg - hoje, com o aumento da massa magra, passou para 95 kg, às custas do dia a dia em cima da bicicleta e também de aulas na academia e a prática de muay thai. "Passei a ficar bem menos doente. Um médico disse que minha imunidade deve ter aumentado bastante."

"A bicicleta é ótima porque, no geral, é um exercício com pouco impacto, a não ser que seja para fazer mountain bike. É uma prática recomendado até mesmo para quem tem problemas de coluna", avalia Thiago Kolachinski, ortopedista da clínica Phitris, em São Paulo. "A postura em cima da bicicleta, que mantém a coluna lombar em um ângulo de 30º a 40º, mais ou menos, promove a abertura dos forames intervertebrais, e isso proporciona alívio para quem tem problemas no nervo ciático e está tendo dificuldade para praticar atividade física."

Kolachinski ressalta, ainda, que a prática do ciclismo traz também outros benefícios, como o fortalecimento dos glúteos e do core, conjunto de músculos responsáveis pelo "centro de força" do corpo. Aos que desejam começar a praticar este tipo de exercício, o médico recomenda uma preparação.

"Antes de dar início, é interessante ter um fortalecimento dos músculos da coxa e da panturrilha. Isso porque o movimento de flexo-extensão do joelho para quem está iniciando pode gerar problemas e dores crônicas. As dicas são aumentar a duração e a distância gradativamente, e também adequar o banco da bicicleta para que o joelho não fique nem muito flexionado nem muito estendido."

As pedaladas de Aguilar abriram caminho para outros hábitos saudáveis e mudanças na alimentação. Ele conta que sente prazer ao acordar e saber que vai pedalar até o trabalho, hoje em um escritório na Vila Mariana. Antigamente, o engenheiro levava uma troca inteira de roupa dentro da mochila, já que transpirava bastante devido ao esforço físico. Atualmente, conta que já sai de casa arrumado, com a calça que usará ao longo do dia, carregando consigo apenas uma outra camisa, que veste no começo do expediente.

"Minha vida mudou. Não tenho mais os sintomas depressivos de antes nem as muitas doenças, pois parece que tudo ficou mais simples e fácil", comemora ele, que é casado há onze anos e pai de um menino de quatro anos. Ele conta que, no início, sua família, preocupada com as notícias de acidentes com ciclistas que viam na televisão, se preocupou com a decisão de Aguilar, mas que, hoje em dia, oferece total apoio ao seu estilo de vida que, entre outras melhorias, é também mais econômico.

"Quando comecei a ir trabalhar de bicicleta, passei a colocar em um envelope, mensalmente, tudo que gastava antes com gasolina, ônibus e metrô para trabalhar. Além disso, colocava as economias de combustível e estacionamento de quando ia a padarias, mercados e shoppings. Para minha surpresa, em maio de 2015 comprei uma bicicleta de R$ 5 mil com o dinheiro acumulado nesse envelope", diverte-se. "E, com as economias até agosto de 2015, coloquei mais aproximadamente R$ 1 mil em acessórios."

Aguilar conta que a melhor parte do dia é quando está se movimentando com sua magrela - das conversas na ciclovia à chance plena de observar os detalhes da paisagem, ele vê qualidade de vida em tudo. "Quando estamos bem, não há nada que nos abale. A bicicleta nos passa isso. Ela induz a uma avalanche de simplicidade e coisas boas".

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