Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

Moradores da favela do Sol Nascente, a 30 km da Esplanada, sofrem com filas para teste de covid

Famílias na periferia de Brasília chegam a desistir do atendimento e se automedicam diante da dificuldade em obter um diagnóstico. Governo do DF diz ter estoque de testes

Weslley Galzo, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2022 | 09h54

BRASÍLIA - Pouco mais de 30 km separam o Ministério da Saúde da favela do Sol Nascente, na periferia de Brasília, onde moram cerca de 90 mil pessoas, segundo estimativas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Condeplan-DF) para o ano de 2020. Na comunidade, a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência leva mais de três horas para testar pacientes com suspeita de contaminação pela covid-19, quando os testes chegam a ser feitos.

Cleide de Oliveira e sua filha Valentina Sofia, de dois anos, são moradoras do Sol Nascente - segunda maior favela do País em extensão territorial, de acordo com os dados do Censo de 2010 -, ambas são cadastradas na UBS Ceilândia 1, que é o posto de referência da região. Desde a semana passada, mãe e filha foram três vezes à unidade em busca de testes de covid, mas voltaram para casa sem conseguir realizar o exame, mesmo depois de enfrentar mais de três horas de fila. Com suspeita há mais de uma semana e sem conseguir se testar, Cleide decidiu se automedicar e fazer o mesmo com seus filhos que têm apresentado sintomas gripais.

“Vim aqui a semana passada testar e não consegui. Comecei a tomar remédio em casa, mas precisei voltar porque comecei a sentir uma dor no peito. Só que eu chego aqui e me mandam para outra UBS (Ceilândia 15). Vou até lá e dizem que é para voltar para cá. Fiz esse caminho andando (aproximadamente 6,3 km) com a minha filha no colo. Fora o fato de não ter médico e mandarem a gente esperar nessa fila sem dar respostas se seremos testados”, disse ao Estadão. “Muitas vezes a gente aguarda e acaba ouvindo que o atendimento foi encerrado. Se vamos no hospital, mandam a gente procurar o posto mais próximo de casa”.

Na quinta-feira, 13, ao falar com a reportagem, Cleide já havia esperado por uma hora e meia sem receber a confirmação de que finalmente conseguiria ser testada. A UBS contava com apenas uma enfermeira para realizar os testes. Ao Estadão, a profissional da saúde, que não quis se identificar, disse que a unidade atende entre quinze e trinta pessoas por dia a depender do número de servidores e teste disponíveis. Caso o limite de atendimento se encerre e ainda tenham pacientes na fila, é realizada uma espécie de repescagem dos exames restantes para os moradores de outras regiões.

Luís Francisco é cadastrado no Centro de Saúde nº 8, em Ceilândia, mas teve que se dirigir à UBS da favela do Sol Nascente porque o seu posto de referência só realiza os testes no período da manhã. Acompanhado da filha Letícia Gomes e da neta Laís Gomes, ele aguardava há pouco mais de uma hora na fila, ainda com expectativa de que conseguisse realizar o teste na repescagem. A família se dirigiu à unidade porque teve contato recente com uma pessoa que testou positivo, mas já relatava a desesperança em ser atendida e passar por um médico.  

Em resposta ao levantamento realizado pelo Estadão sobre a testagem nos Estados, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que os testes são realizados “de acordo com avaliação da equipe multiprofissional”. Os testes, portanto, só são realizados com aval dos agentes da unidade, que indicam qual o tipo de exame mais adequado: antígeno ou PCR. Segundo o governo brasiliense, o estoque conta atualmente 824 mil testes disponíveis para uma população de mais de 3 milhões de habitantes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.