Renee Pereira/Estadão
Renee Pereira/Estadão

Moradores de Fernando de Noronha protestam após avião desembarcar com 12 servidores contaminados

Desde o início da pandemia, o arquipélago registrou 28 casos da doença

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2020 | 19h16

RECIFE - Após conseguir zerar os casos de coronavírus em Fernando de Noronha, moradores do arquipélago realizaram um protesto na noite de segunda-feira, 18, contra a chegada de 31 servidores públicos no fim de semana -- 12 dos quais estavam infectados com covid-19. A administração local afirma que os funcionários estão sob isolamento e que vai fretar um avião para transportá-los de volta ao Recife.

Com cerca de 60 pessoas, o ato começou por volta das 22 horas, em frente à casa do administrador Guilherme Rocha, e só terminou às 2h30, já de madrugada. Em vídeos que circulam nas redes sociais, manifestantes aparecem de máscara, item obrigatório no combate ao coronavírus em Pernambuco, e batem panelas.

Desde o início da pandemia, o arquipélago registrou 28 casos da doença. Todos os pacientes tiveram cura clínica -- o último no dia 9 de maio.

Para conseguir zerar a transmissão, a administração chegou a decretar bloqueio completo, o chamado lockdown, com proibição expressa de sair de casa sem autorização -- medida que já foi flexibilizada. Hoje, o arquipélago segue decretos do governo Paulo Câmara (PSB), que proíbe aglomerações e o acesso a praias, mantém serviços essenciais e obriga uso de máscara.

O voo com servidores infectados, no entanto, desembarcou no domingo e, agora, os moradores temem nova onda de contágio. "A gente seguiu todas a regras para permitir que a comunidade voltasse às atividades, mas a administração trouxe novamente o coronavírus para dentro de Fernando de Noronha", afirma o comerciante Jadson Martins, de 31 anos, um dos organizadores do ato.

O grupo também reivindicou o retorno de cerca de 50 moradores que hoje estão no continente, sem poder voltar. "Para eles, não tem voo, não tem passagem, não tem nada", diz Martins. "Muita gente está sofrendo sem dinheiro, mas aqui poderia viver de pesca ou do apoio da família. Por que eles podem trazer servidor de fora mas não os nossos entes queridos?"

O protesto aconteceu de forma pacífica. De acordo com participantes, um homem chegou a ser detido pela polícia por não estar usando máscara e acabou conduzido à delegacia. Ele foi logo liberado e orientado a permanecer em casa, segundo relatam.

A mobilização dos moradores aconteceu por Whatsapp. Também é pelo aplicativo que eles têm compartilha notícias sobre a pandemia, comentam episódios de Noronha e até fiscalizado os "furões" do isolamento social.

Recentemente, por exemplo, os grupos denunciaram três policiais civis que estavam tomando banho de mar, o que é proibido por causa do risco de contaminação nas praias. "Fica a indignação porque os moradores estão fazendo o isolamento, mas as pessoas que vêm trabalhar aqui estão com mais liberdade", diz Martins. "Então fomos cobrar respostas diretamente com o administrador."

Após a manifestação, Rocha concedeu entrevista à rádio local nesta terça-feira, 19, para explicar o episódio dos servidores e também as estratégias contra a covid-19 adotadas em Noronha. Segundo afirma, os funcionários são considerados essenciais para a ilha, embarcaram ainda sem o resultado do teste, mas ficaram em quarentena até a confirmação do diagnóstico.

"Essas pessoas estavam no Recife, em uma situação de contaminação comunitária altíssima, sem controle nenhum", afirmou o administrador. "Então a gente tinha, dentro da nossa perspectiva, a possibilidade de dar positivo, mas não havia outra forma de trazer servidores essenciais."

"(Entre os servidores está a) pessoa que faz manutenção do dessalinizador do ilha, que está quebrado, dificultando a oferta de água. A pessoa que faz a manutenção no gerador da Celpe (Companhia Energética de Pernambuco). A pessoa que faz manutenção na telefonia da ilha que, por sinal, também está bastante precária e a qualquer momento pode cair o serviço."

Os 12 servidores infectados são assintomáticos, segundo Rocha. "Se tivessem com coriza ou tosse, nem teriam embarcado", afirmou. Ainda de acordo com o administrador, eles estão isolados, sob vigilância e voltarão para o Recife em voo fretado até quinta-feira, 21. "Nós não vamos manter essas pessoas que vieram contaminadas."

Rocha disse, ainda, que teria distribuído 80 cestas básicas a moradores que estão presos no continente, mas que o episódio do servidores demonstraria que "não é o momento de trazer pessoas de volta".  "A situação está muito grave no Recife e a gente não pode correr o risco de instaurar uma nova propagação do vírus aqui em Fernando de Noronha."

Após o episódio, a administração também voltou a fechar por tempo indeterminado o aeroporto em Fernando de Noronha para desembarques.

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