Tiago Queiroz|Estadão
Fachada do Centro Temporário de Acolhimento da Mooca, na Rua João Soares, Agua Rasa Tiago Queiroz|Estadão

Fachada do Centro Temporário de Acolhimento da Mooca, na Rua João Soares, Agua Rasa Tiago Queiroz|Estadão

Moradores de rua dormem aglomerados em albergues durante crise do coronavírus

Abrigos com pouca ventilação natural recebem centenas de pessoas num único dormitório e podem ser focos de disseminação

Caio Nascimento* , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Fachada do Centro Temporário de Acolhimento da Mooca, na Rua João Soares, Agua Rasa Tiago Queiroz|Estadão

Richard A.** dorme ao lado de mais de mil homens todas as noites no albergue Arsenal da Esperança, o maior centro de acolhimento de São Paulo, na zona leste da capital. Dividindo espaço com moradores de rua em beliches a um metro de distância uma da outra – mesmo durante a pandemia do novo coronavírus –, o homem, de 30 anos, sente medo de a aglomeração de pessoas no local virar um foco de disseminação da doença.

“Os abrigos têm pouca ventilação e quartos grandes com exaustores ligados a noite toda... fica batendo vento e quem tem complicação respiratória sempre começa a tossir e espirrar. Não sei se é uma gripe simples ou coisa pior”, relata. “Tenho úlcera, vomito sangue e recentemente descobri um câncer no estômago. Então minha imunidade é baixa e tenho medo de ser infectado”, completa.

Assim como Richard, grande parte das mais de 24,3 mil pessoas em situação de rua da cidade não tem onde se abrigar com segurança neste momento de crise. Dados do último Censo da População em Situação de Rua de São Paulo apontam que 11,7 mil delas dormiram em centros de acolhida em 2019. Desse total, 7,6 mil ficaram na mesma unidade de três a mais de seis meses, rodeados por centenas de desconhecidos no mesmo quarto. No Complexo Zaki Narchi em Santana, por exemplo, ficam cerca de 900 num único espaço.

Maycon S**, de 34 anos, é um dos que estão dentro dessa estatística. Ele dorme no mesmo abrigo há mais de um ano e conta que ele e colegas não receberam amparo suficiente da Prefeitura. “(Não estão oferecendo) máscara, álcool gel (para levar para fora do albergue, já que não podem passar o dia dentro da unidade) e fecham completamente parques e locais públicos onde a gente poderia se abrigar sem ficar amontoados. Querem exterminar a gente? Governo fala para se isolar em casa, mas e nós que não temos casa? Estamos expostos ao pior”, critica.

A reportagem visitou a fila de um albergue na região da Mooca e passou pela Sé no fim da tarde de quinta-feira, 19. Em ambos locais, moradores de rua estavam aglomerados e poucos usavam itens de proteção. No Parque da Mooca, os que buscavam isolamento no local foram coagidos pela Guarda Civil Metropolitana de São Paulo (GCM) a saírem no mesmo dia, conforme flagrou um ativista da Pastoral do Povo de Rua:

“Não é à toa que o irmão de rua tende a sofrer com doenças respiratórias. Tomamos chuva e não temos para onde ir. O albergue durante o dia manda ir para rua e só voltar à noite. Se formos para os parques, a GCM desce a madeira e manda sair. Se ficarmos dentro de um comércio temporariamente, expulsam. O rapa nem se fala: toma barraca e nossas comidas. Então para muitos resta ficar pelo chão, perambulando e expostos ao coronavírus”, diz Maycon.

No Centro Temporário de Acolhimento (CTA) da Mooca, funcionários disseram ao Estado que a única recomendação que haviam recebido até quinta-feira era de que servidores deveriam usar máscaras e os moradores de rua entrariam no local em pequenos grupos para fazer a triagem, reduzindo o contato.

Por telefone, assistentes sociais disseram que estão com pontos de álcool gel dentro das unidades, pedindo para todos lavarem as mãos com frequência e voltarem para a casa de familiares, se possível. Relataram ainda que máscaras estão sendo distribuídas aos com sintomas ou doenças, conforme orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar dessas atitudes reduzirem danos, o infectologista e professor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, Giovanni Breda, explica que é necessário também rastrear e isolar em ambientes adequados às pessoas com comorbidades, doenças respiratórias ou com sintomas de coronavírus, em vez de deixá-las entre os demais. Richard, por exemplo, continua dormindo entre os milhares de homens mesmo com a saúde e a imunidade debilitada. “Queria que separassem as pessoas. Tenho amigo com asma e bronquite na mesma ”, lamenta.

Medidas emergenciais

O Ministério Público de São Paulo recomendou à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) da Prefeitura na segunda-feira, 16, medidas mais estruturais para ampliar a prevenção, como a realização de obras emergenciais para reforçar a ventilação natural dos dormitórios. Ao todo, o município conta com 89 centros de acolhimento, totalizando 17,2 mil vagas.

Já a Defensoria Pública da União (DPU) pediu na quinta-feira, 18, que a pasta pague aluguel social para toda a população de rua enquanto perdurar a pandemia da covid-19 e use espaços públicos educacionais e esportivos, com atividades suspensas, para abrigar essas pessoas. Procurada pelo Estado, a Smads informou apenas que "recebeu as duas notificações e prestará os esclarecimentos solicitados". Maycon e Richard, porém, contam que nenhuma das mudança foram feitas até o momento.

Segundo o médico Giovanni Breda, essas políticas de prevenção aos mais vulneráveis já deviam ter sido aplicadas em caráter de urgência. “Em ambientes de muita aglomeração e pouca ventilação há o aumento do risco de contaminação de doenças infectocontagiosas, incluindo o coronavírus”, alerta.

O infectologista Gerson Salvador, especialista em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), reforça essa necessidade. “É um grupo com prevalência histórica de tuberculose e essas atitudes de proteção já deviam ter sido tomadas décadas atrás. Albergues são focos de disseminação de doenças”, critica. “Quando temos um setor da sociedade que não recebe os devidos cuidados e não está seguro, ninguém está seguro”, completa.

Enquanto as iniciativas mais estruturais não são tomadas, moradores de rua contam que dependem apenas da Pastoral do Povo de Rua e outras ONGs para conseguir insumos e retaguarda fora dos albergues. A organização católica abriu a Casa de Oração do Povo da Rua, no centro de São Paulo, para acolher em regime de quarentena os desabrigados com suspeita do coronavírus e distribui doações todos os dias. O local tem capacidade para receber, com o devido isolamento, até 50 pessoas.

Saiba como ajudar quem está em situação de rua:

https://www.instagram.com/p/B97aSIQn0S2/

https://www.instagram.com/p/B95XVsPnlVa/

https://www.instagram.com/p/B969MHmHQUc/

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais

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Coronavírus: com a cidade vazia, falta de bicos derruba renda dos moradores de rua em SP

‘Está difícil viver neste caos’, diz homem que depende exclusivamente do Bolsa Família e de doações

Caio Nascimento*, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 04h55

Com muitas pessoas em quarentena e a cidade vazia, restam nas ruas de São Paulo os desabrigados, que só podem voltar ao albergue à noite e passam o dia perambulando pelas calçadas ou à procura de um ganha pão. O morador de rua Maycon, de 34 anos, ganha a vida vendendo água, pano, distribuindo panfleto no farol ou montando palco em dia de grandes eventos. Mas tudo parou após a pandemia do novo coronavírus.

“Pessoal está com medo de chamar para bico. Antes do coronavírus, vinham até o albergue buscar a gente para trabalhar. Até os que pagavam 50 reais para eu trabalhar 10 horas por dia carregando peso não estão vindo mais”, conta ele, que agora depende exclusivamente de doações e do Bolsa Família para sobreviver.

“A coisa está feia até para o pedinte, porque as pessoas estão com medo de se aproximar. Está difícil viver nesse caos”, completa. Richard, de 30 anos, está na mesma situação: ele vendia pano no semáforo, mas está sem conseguir trabalhar pela falta de movimentação. “Faz uma semana e meia que estou assim, sem dinheiro”, afirma. Para além do lado financeiro, ele trata um câncer no estômago e tem medo de a baixa imunidade lhe deixar ainda mais vulnerável à infecção pelo coronavírus.

O coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, padre Júlio Lancellotti, organiza doações para moradores de rua todos os dias na Paróquia de São Miguel Arcanjo, na zona leste da cidade, e relata que há muitos jovens querendo voltar para a família neste momento. “É dramático ver o sofrimento. Um deles me questionou: ‘a gente já vive no meio de tanta desgraça… será que vamos sofrer com isso também?’." O religioso analisa que a pandemia minou diversos setores da economia informal da qual a população de rua se sustenta.

“Com a menor circulação de carros, eles não estão conseguindo trabalhar em estacionamento, limpeza de retrovisores ou lava-rápidos. Está tendo também uma redução grande no número de doação de alimentos à noite para aqueles que dormem na rua”, explica. “O coronavírus está pesando muito sobre essas pessoas. Sem contar que eles não têm como e onde estocar alimentos”, completa.

Visando amenizar esse impacto negativo, a Defensoria Pública da União lançou na quarta-feira, 18, um ofício com recomendações emergenciais à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads).

“A peculiar situação das pessoas que se encontram em situação de rua demanda cuidados especiais, sobretudo se considerarmos o altíssimo poder de transmissibilidade da doença, bem como o fato de que, não raramente, tais indivíduos são portadores de doenças pré-existentes que os qualifica justamente como grupo de risco”, alegam os defensores no documento.

A cartilha contém oito sugestões, solicitando o reforço da higiene, o fornecimento de alimentos e o uso de espaços públicos educacionais e esportivos fechados para abrigar a população de rua. Enquanto isso, o Ministério Público do Estado de São Paulo sugeriu via ofício na segunda-feira, 16, a realização de obras emergenciais para reforçar a baixa ventilação natural dos albergues, já que muitos carecem de janelas e a falta de aeração pode aumentar a disseminação de doenças infectocontagiosas. Ao todo, o município conta com 89 centros de acolhimento, totalizando 17,2 mil vagas.

Procurada pela reportagem, a Smads informou apenas que "recebeu as duas notificações e prestará os esclarecimentos solicitados". Maycon e Richard, porém, contam que não presenciaram obras e continuam sem acesso a locais públicos para se abrigar. Na quinta-feira, 19, ativistas da Pastoral do Povo de Rua flagraram policiais da Guarda Civil Metropolitana coagindo moradores de rua, em busca de isolamento, a saírem do parque da Mooca.

Enquanto as iniciativas mais estruturais não são tomadas, moradores de rua contam que dependem apenas da Pastoral do Povo de Rua e outras ONGs para conseguir insumos e retaguarda fora dos albergues. A organização católica abriu a Casa de Oração do Povo da Rua, no centro de São Paulo, para acolher em regime de quarentena os desabrigados com suspeita do coronavírus. O local tem capacidade para receber, com o devido isolamento, até 50 pessoas.

Saiba como ajudar quem está em situação de rua:

https://www.instagram.com/p/B97aSIQn0S2/

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*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais

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