Diego Moura/Estadão
Diego Moura/Estadão

Moradores suspeitam de focos de dengue em terreno da Eletropaulo

Moradora de Carapicuíba enviou para o WhatsApp do 'Estado' denúncia de mato alto e lixo que tomam conta do local

Diego Moura , O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 05h20

CARAPICUÍBA - Com a pequena mochila nas costas, o garoto de 7 anos chega da escola. Saudável, não lembra nem de longe o abatido João Vitor que há menos de um mês foi levado para um hospital em Barueri, na região metropolitana de São Paulo, com sintomas de dengue. Morador do centro de Carapicuíba, só recebeu o diagnóstico da doença ao chegar ao hospital da cidade vizinha. “Levei ao médico (em Carapicuíba), ele falou que era virose e passou dipirona”, conta, indignada, a mãe de João Vitor, a empregada doméstica Janaina Gomes da Silva, de 35 anos.

A família acredita que o nascedouro do mosquito que picou o menino de 7 anos e o irmão dele, Júlio César Gomes da Silva, de 16, fica no terreno abandonado ao lado da casa da família. Mas não se trata de um terreno baldio qualquer: o local tem uma torre de energia da Eletropaulo e está sob responsabilidade da empresa, na Avenida Alice. A denúncia foi enviada para o WhatsApp do Estadão.

Em junho do ano passado, Janaína começou a batalha para que a Eletropaulo limpasse o terreno. Foram dezenas de telefonemas e protocolos. Conseguiu que a empresa cortasse o mato em outubro. Entretanto, a situação não foi resolvida e o mato e o lixo ficaram abandonados no terreno. No dia das eleições, alguém colocou fogo no local.

“A gente teve de sair de casa, porque esquentou muito aqui. A fumaça era horrível. Quem apagou o fogo fomos nós. Para você ter uma ideia, a conta de água veio R$ 122 naquele mês, muito mais que os R$ 18, 20 de sempre”, recorda Janaina. O portão de acesso ao terreno não tem trancas ou correntes, apenas um arame enferrujado que o marido dela amarrou lá. 

“Tem gente que para o carro aqui de frente para jogar lixo”, afirma a moradora. “Se você olhar aí dentro vai ver raque, sofá, cama... uma casa completa.” O matagal esconde sacolas, peças de lataria e pneus de automóveis, cheios de água por causa das últimas chuvas. Em frente ao terreno, ainda há lixo e entulho espalhados, nos quais as queimadas são recorrentes. O fogo constante pode ter comprometido a estrutura do muro, cheio de rachaduras. Se houver um desabamento, a primeira coisa que descerá o barranco é a varanda de Janaina, ao lado da cozinha e do quarto.

A dengue também assustou a família da vendedora de tapiocas Flávia da Silva, de 28 anos. Em dezembro do ano passado, o filho Natan Lima, de 4 anos, amanheceu com sangramentos no nariz e na boca e foi levado a Barueri, onde os médicos constataram a dengue em sua forma mais grave: a hemorrágica. “Ver seu filho daquele jeito, debilitado, sangrando foi uma sensação muito ruim. Você se sente impotente. Eu fiquei desesperada”, lembra. O garoto reagiu bem ao tratamento, apesar da anemia. “Mas e se não reagisse? E se ele morresse? Eu quero me mudar daqui, porque o médico alertou que ele não pode pegar de novo.” 

Além dos pernilongos, outro problema estourou na rua. Literalmente. No começo do ano, o esgoto entupiu e passou a vazar dentro do terreno, mas a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) só consertou a tubulação que fica do lado de fora do lugar, segundo Janaina. “Eles disseram que o esgoto é irregular, que o terreno tem muito mato e eles não podiam fazer nada”, conta.

Na mesma rua há outro terreno, também da Eletropaulo, mas em situação melhor. Segundo o casal de aposentados Durvalino Fernandes, de 84 anos, e Eunides Fernandes, de 79, a empresa de energia deu autorização para que eles plantassem no local, desde que mantivessem a limpeza. Em meio às bananeiras, aos pés de mamão, de abacate e de chuchu, seu Lino, que mora no bairro há 50 anos, convive com lixo jogado por quem passa pela rua e até por vizinhos das casas de cima. “Nós pagamos um rapaz para manter o terreno”, explica o aposentado. “Mas é difícil. Já pedi para eles (Eletropaulo) subirem o muro. Vou cortar essas bananeiras e levar tudo para o meu sítio.” Ele ainda aponta duas casas construídas irregularmente embaixo da torre de energia.

Na face oposta do terreno, na Avenida Cacilda, o gráfico José Ricardo Barbeiro, de 39 anos, reclama da enorme quantidade de pernilongos. O terreno fica ao fundo da casa dele, de onde é possível ver pneus e sacolas de lixo, arremessadas por quem passa na rua. A esposa e o cunhado de Barbeiro tiveram dengue há cerca de um mês, e ele não descarta que o foco poderia ser das terras da Eletropaulo. 

“O pessoal pensa que, por ser centro, o bairro não precisa de nada, mas isso não corresponde à realidade”, diz o presidente da Sociedade Amigos do Bairro de Vila Rosalina, José Ramos de Almeida, de 59 anos. A associação tem todos os documentos em dia, mas está com as atividades paradas. “Nós mandamos uns quatro ofícios para a prefeitura pedindo a limpeza de ruas aqui do bairro, e não fomos atendidos”, reclama.

Sem notificação. Procurada, a Eletropaulo não comentou sobre os protocolos abertos por Janaina. Apenas informou que “não recebeu ofício da prefeitura para limpeza dos terrenos em Carapicuíba” e que “há uma programação para a limpeza dos terrenos da distribuidora. "A ação está prevista para o primeiro semestre de 2015”, informou, sem precisar dia ou mês.

Já a Sabesp enviou uma equipe e, de acordo com a empresa, desentupiu a rede coletora do local. “No entanto, existem lançamentos irregulares de esgoto no terreno em questão. A Companhia vai comunicar a prefeitura para que os imóveis responsáveis sejam notificados pela Vigilância Sanitária”, afirmou, em nota.

A prefeitura de Carapicuíba confirmou que a limpeza do terreno é responsabilidade da Eletropaulo e disse que enviará uma equipe ao local para fazer uma vistoria. Afirmou, porém, que, por se tratar de um terreno particular, fica restrita a emitir uma notificação. Segundo a prefeitura, as reclamações foram "encaminhadas às secretarias responsáveis para que as medidas sejam providenciadas".

---------------------------

Tem algum relato, denúncia ou reclamação? Envie para o WhatsApp do Estadão: (11) 9-7069-8639

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.