REUTERS/Remo Casilli
REUTERS/Remo Casilli

Mortalidade na Itália por coronavírus é 8 vezes a da Coreia do Sul

Fatores como a quantidade de idosos no país – a Itália tem uma população mais envelhecida – e estrutura dos sistemas de identificação de novos casos e assistência aos doentes ajudam a explicar diferença; para especialistas, país asiático pode ser exemplo para o Brasil

Giovana Girardi e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2020 | 05h00

Dois dos países com mais casos de coronavírus depois da China apresentam taxas de mortalidade discrepantes. A letalidade da doença na Itália é mais de 8 vezes a observada na Coreia do Sul. Enquanto no país europeu já morreram 6,21% das pessoas confirmadas com a covid-19, no asiático, a porcentagem de óbitos foi de 0,7%, segundo dados divulgados pelos departamentos de saúde dos dois países.

Fatores como a quantidade de idosos no país – a Itália tem uma população mais envelhecida do que a Coreia – e a estrutura dos sistemas de identificação de novos casos e assistência aos doentes ajudam a explicar essa diferença significativa.

A disparidade indica que a taxa real de mortalidade pelo novo coronavírus pode ser menor do que a que vem sendo observada até o momento, de 3,5%. Na Coreia, o governo fez testagem em massa da população, identificando e contabilizando casos assintomáticos. Após o país identificar o crescimento de casos relacionados a um culto religiosos, pelo menos 200 mil pessoas foram testadas.

“A vantagem de um teste em massa é que ele identifica tanto os casos graves, quanto os brandos e até os assintomáticos. Isso aumenta muito o número de casos identificados. Mas se é feito somente o teste em quem busca o atendimento médico, o dado pode ficar enviesado, porque provavelmente só vai identificar os casos médios e graves, justamente onde a chance de evoluir a óbito é maior”, explica Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fiocruz. Estima-se que isso tenha ocorrido na Itália.

A Coreia começou a ter registros de casos pouco depois do início da epidemia na China. O primeiro relato de um caso foi feito em 20 de janeiro. O pico de casos novos em 24 horas ocorreu em 29 de fevereiro – com 909 registros – e nesta terça foi de apenas 131. Assim como vem ocorrendo com a China, os novos casos vêm caindo e a epidemia começa a se estabilizar. Até esta terça, eram 7.513 casos confirmados e 54 mortes.

Na Itália, o surto teve início no carnaval e o número de casos subiu rapidamente – e continua em alta. Até esta terça eram 10.149 casos com 631 mortes.

“O perfil etário da população é importante porque a letalidade é significativamente mais alta na população idosa. Uma população com mais idosos tende a apresentar uma letalidade em toda a população também maior”, explica Gomes.

“Como a epidemia ainda está evoluindo, não temos uma resposta de por que tanta gente está morrendo. Mas uma hipótese é que só tenhamos o diagnóstico das pessoas que vão procurar o hospital e que já estão mal, o que diminui o denominador de quantos casos de fato existem. A taxa de mortalidade fica alta, porque o número de casos é só dos mais severos”, afirma a pesquisadora brasileira Rafaela da Rosa Ribeiro, que está colaborando com o grupo de Elisa Vicenzi, especialista em vírus do Ospedale San Raffaele, hospital universitário de Milão.

Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), entre chineses infectados acima de 80 anos, a mortalidade pela doença chegou a 21,9%. Na Itália, 22% da população tem mais de 65 anos – o país tem a população mais velha da União Europeia. Na Coreia, a faixa etária responde por 14%.

A estimativa é que quando a situação se estabilizar no mundo, talvez a taxa de mortalidade fique mais parecida com a apresentada na Coreia – próxima de 1%. “Em novos surtos, é normal começar detectando os casos mais graves, então no início a taxa de letalidade é mais alta. Mas os dados indicam que a covid-19 vai acabar se mostrando uma gripe forte, com mortalidade maior que a da H1N1, que foi de 0,5%”, diz Gomes.

Como na Itália, o número de casos cresceu muito rapidamente e muitas pessoas com quadro severo passaram a buscar o atendimento de saúde, houve sobrecarga do sistema, o que também pode estar impactando na taxa de letalidade. Nos casos mais graves, o tempo de internação pode ser de quatro a seis semanas, de modo que não há vaga para todos que chegam doentes. Relatos da imprensa local apontam para a falta de respiradores.

Lições para o Brasil

“A impressão que se tem é que a vigilância da Coreia talvez estivesse mais bem preparada. Se a vigilância tem uma boa sensibilidade, se identifica a maior parte dos casos, o denominador aumenta. E se tem um bom atendimento para as pessoas infectadas, a mortalidade é menor. Na Itália, como já nos primeiros casos identificados houve mortes, isso sugere que a vigilância tem baixa sensibilidade”, afirma o epidemiologista Eliseu Alves Waldman, da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Para ele, o sistema de saúde acabou entrando em colapso com a alta procura e parte dessa alta mortalidade pode se dever às condições adversas no atendimento. “A impressão é que a Itália foi pega de surpresa” diz.

Os pesquisadores opinam que os dois quadros trazem algumas pistas sobre o que precisa ser feito. Uma vigilância atenta, que monitore o vírus desde o início, pode ajudar a impedir a transmissão, mas é mais do que recomendável adotar medidas que diminuam aglomerações, cancelar eventos que não sejam estritamente necessários,  e que as pessoas adotem uma postura de distanciamento social – especialmente os mais idosos.

“Para aqueles que estão em instituições, é recomendável que se diminuam as visitas. Quem está em casa, que se diminua o contato com as pessoas da residência, que fique só um responsável por cuidar da pessoa. É importante proteger essa população”, afirma Waldman.

“Tem de informar bem a população, ser transparente, preparar os hospitais e preparar na medida possível as UTIs. O problema não é tanto o número de casos, mas a distribuição no tempo. Muita gente procurando ao mesmo tempo hospitais é um perigo. Acho que na Itália, quando acordaram para o problema, já encontraram ao mesmo tempo um monte de caso”, afirma o epidemiologista.

“Mesmo que não se consiga completamente bloquear a transmissão ou impedir a invasão no Brasil, é fundamental que se consiga diminuir a velocidade de transmissão. Isso tem impacto na habilidade do sistema de saúde de tratar de forma adequada os pacientes e evitar os óbitos que são evitáveis”, complementa Gomes.

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