Michel Dantas/ AFP - 13/1/2021
Michel Dantas/ AFP - 13/1/2021

Mortalidade por covid em hospitais do Brasil é das maiores do mundo, mostra estudo

Número de mortes nos hospitais tende a ser alto em todo o mundo porque, de forma geral, só os casos mais graves são internados

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 20h55

RIO - A mortalidade por covid-19 nos hospitais brasileiros - públicos e privados - é uma das mais altas do mundo, chegando a 38%.  Entre os pacientes em estado grave, internados em UTIs e com ventilação mecânica, a mortalidade é ainda mais alta, podendo chegar a 80%. A informação está em estudo brasileiro publicado nesta sexta-feira, 15, na The Lancet, uma das mais importantes revistas de divulgação científica do mundo.

A mortalidade por covid-19 nos hospitais tende a ser alta em todo o mundo porque, de forma geral, só os casos mais graves são internados. No entanto, na Alemanha, por exemplo, esse porcentual é de 22%. No Reino Unido, a taxa de mortalidade dos pacientes intubados é de aproximadamente 50%.

A comparação internacional é difícil, porque a grande maioria dos países não tem um sistema de saúde unificado como o brasileiro, nem números nacionais. Um estudo pontual feito no Irã revelou uma mortalidade geral de 24%. Outro trabalho, no México, indica mortalidade de 74% para os internados em UTIs.

Ainda assim, segundo os autores do estudo, a mortalidade hospitalar brasileira pode ser considerada muito alta, sobretudo porque os pacientes brasileiros são, em média, dez anos mais jovens que os europeus. Essa mortalidade alta, segundo os cientistas, pode ser explicada por vários fatores. São eles a gravidade da doença, a explosão de casos, a fragilidade de boa parte do sistema de saúde no Brasil e o colapso das estruturas de muitos municípios diante da covid-19.

“A mortalidade que observamos no Brasil também observamos em outros países, nos momentos de pico da epidemia”, afirmou o epidemiologista intensivista Otávio Ranzani, um dos autores do estudo. “Como a nossa população é bem mais jovem, esperávamos um número menor de mortes. Mas a gravidade da doença, o grande volume de casos e a estrutura hospitalar brasileira não deram conta.”

O infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz, também assina o trabalho.

“Na Europa, mesmo com uma população eminentemente idosa, os números não são tão ruins quanto os nossos”, disse Bozza. “E os dados do Brasil mostram taxas de mortalidade altas também nas populações mais jovens.”

O estudo é assinado por sete pesquisadores brasileiros de diferentes instituições. Partiu da SIVEP-Gripe , base de dados do Ministério da Saúde com 254.288 casos de pessoas com mais de 20 anos internadas com diagnóstico de covid feito pelo teste PCR. Os casos foram registrados ainda na primeira onda da epidemia no Brasil, entre 16 de fevereiro de 2020 e 15 de agosto de 2020.  Nesse período, havia pouco mais de três milhões de casos confirmados da doença no País, espalhados por 5.506 municípios. Esse número representa 99% do total de cidades brasileiras.

A mortalidade dos pacientes internados sobe com a faixa etária. Entre os pacientes de 20 a 39 anos é de 12%; na faixa de 50 a 69 fica em 27% e entre aqueles com mais de 80 anos chega a 66%. A gravidade da doença também faz aumentar a taxa de mortalidade. Entre os que estão internados nas unidades de terapia intensiva, a taxa média é de 59%. Para os que precisam de ventilação mecânica, chega a 80%.

“Um aspecto importante que o estudo ressalta é que os efeitos da pandemia não são iguais para todas as populações, nem para todos os sistemas de saúde”, disse Bozza. “A doença afeta mais as populações vulneráveis e os sistemas de saúde frágeis, como mostra a comparação regional. A região norte, em particular, é a que tem menos leitos, menos recursos, menos profissionais preparados, ou seja, um sistema ineficiente desde antes da epidemia. Na primeira onda, foi a mais afetada, com o colapso do sistema de saúde; e, agora, a situação se repete.”

De fato, os piores números são da Região Norte, onde a taxa de mortalidade entre os mais jovens (20 a 39 anos) era de 20%. No Nordeste, no mesmo grupo de idade, chegava a 19%. Porcentuais bem superiores aos encontrados no Sudeste (10%) e no Sul (8%). Para os pacientes em estado grave, intubados, com menos de 60 anos, as taxas também variam muito. O porcentual é de 77% (considerado extremamente alto para a faixa etária) no Nordeste contra 55% no Sul.

“Essa mortalidade alta entre pessoas mais jovens em algumas regiões indica que o sistema passou da capacidade possível de atendimento, e começam a surgir casos de pessoas que poderiam ser salvas, mas acabam morrendo porque não chegam a receber os cuidados adequados”, explicou Ranzani.

Bozza lembrou que a epidemia começou há mais de um ano e, ainda assim, o País não foi capaz de se preparar para a segunda onda. Para ele, a situação atual continua extremamente grave.

“O País não se preparou e não aprendeu com o que aconteceu”, resumiu. “A mensagem passada foi de que a epidemia estava passando e não estava. Com as novas variantes do vírus se espalhando, o cenário tende a ser pior do que esse atual, que já é horrível. E não são dois milhões de doses de vacina que vão resolver o problema.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.