Reprodução/Instagram @joaopaulodinizoficial
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Morte de João Paulo Diniz: qual é o motivo de enfartes em pessoas aparentemente saudáveis?

Morte do empresário de 58 anos, também triatleta amador, faz especialistas reforçarem o alerta sobre a realização periódica de exames cardiovasculares

Caio Possati, Especial para o Estadão

02 de agosto de 2022 | 10h00

A morte do empresário João Paulo Diniz, de 58 anos, fez médicos ouvidos pelo Estadão reforçarem o alerta sobre a prevenção às doenças cardiovasculares a partir da realização de exames periódicos. A causa do óbito não foi oficialmente confirmada, mas a principal hipótese é a de que o empresário e investidor, filho de Abilio Diniz, tenha sofrido um enfarte fulminante horas depois de ter feito exercícios físicos, no último domingo, 31, no Rio de Janeiro.

Especialistas afirmam que a morte súbita de pessoas fisicamente ativas (como era o caso de Diniz) surpreende, mas lembram que corações podem aparentar estar clinicamente saudáveis, quando, na realidade, estão comprometidos por alguma patologia. Isso porque algumas das doenças não manifestam sinais ou sintomas. E esse avanço silencioso se torna uma barreira entre pacientes e a busca por exames cardiovasculares periódicos.

"Alguns corações são aparentemente saudáveis", afirma Taline Costa, especialista em medicina esportiva. "A pessoa não tem manifestação clínica de alguma doença, o que faz parecer (que o coração é) saudável. Então, quando alguém estressa o coração com exercício de alta intensidade, isso se torna um gatilho para arritmias cardíacas que podem ser fatais."

As avaliações são fundamentais para detectar possíveis problemas e impedir que as pessoas coloquem em risco a própria vida ao sobrecarregar o coração em atividades físicas que o órgão é incapaz de suportar. "Não é que o exercício faz mal para o coração, mas sim que o coração não está pronto para determinada carga, seja por alguma patologia ou por não estar preparado o suficiente", afirma a médica.

Patologias

O enfarte é a morte do músculo cardíaco, também chamado de miocárdio, provocada pela obstrução da coronária, a artéria que nutre o músculo do coração com oxigênio, algo vital para seu funcionamento. Em atividades físicas (momento em que há aumento de demanda por oxigênio), se o miocárdio não é abastecido porque a coronária está parcialmente obstruída, o músculo do órgão bate de forma descompassada (arritmia).

Se essas batidas forem tão fortes, o órgão pode parar de funcionar de forma repentina e provocar morte súbita, quando o paciente não tem nem tempo para pedir socorro. “Quando obstruir totalmente, a pessoa enfarta”, afirma Caroline Reigada, médica intensiva e nefrologista do Hospital Oswaldo Cruz

Uma das causas de óbitos desse tipo é a cardiomiopatia hipertrófica, "que geralmente acomete jogadores de futebol jovens que morrem de ataque fulminante durante o exercício", explica Caroline. Ela afirma que a cardiomiopatia hipertrófica se caracteriza pelo fato de o miocárdio ser maior e, por isso, exigir ainda mais oxigênio. É uma condição clínica genética, que pode passar despercebida até a fase adulta. Fazer atividades físicas nessas condições é arriscado. “O coração é um órgão muito musculoso. Se você continuar fazendo exercício, o miocárdio vai exigir mais oxigênio. Dependendo da intensidade do exercício (físico), o coração não aguenta”, diz Caroline.

A cardiomiopatia hipertrófica é também chamada de hipertrofia do miocárdio. Este foi o termo que Abilio Diniz usou em livro publicado em 2004 ao se referir a uma complicação cardíaca que fora detectada no filho anos antes. "Ele teve diagnosticada uma hipertrofia do miocárdio. Trata-se de uma doença congênita no coração que costuma matar atletas. No caso de João Paulo, que é atleta, foi recomendado que não praticasse mais nenhum tipo de esporte. Nada. Nem atravessar a rua correndo ele podia, sob pena de morrer de um ataque fulminante. Você imagina que isso caiu como uma bomba lá naquela casa", escreveu Diniz.

"Não sei se temos acesso à etiologia do que causou o enfarte (no João Paulo Diniz), mas o fenômeno da morte súbita é semelhante, tanto se a causa for miocardite hipertrófica como aterosclerose (provocada por acúmulo de gordura nas artérias)", diz Taline Costa, médica do esporte. "Porque o exercício físico é um gatilho para a arritmia em um coração que tem uma patologia assintomática", acrescentou.

Causas multifatoriais

Caroline Reigada lembra também que uma morte causada por problemas cardíacos acontece por múltiplos fatores, e não só por uma disfunção do coração. Ela cita que, durante o exercício físico de alta intensidade ou longa durabilidade, há muita perda de eletrólitos pelo suor, como: potássio, cálcio e magnésio. Elementos que, em baixos níveis, podem levar a uma arritmia.

“Nunca a pessoa morre de uma coisa só. São problemas multifatoriais. Se alguém nadar ou correr por duas horas, isso leva a desidratação. Se cai o nível de magnésio, por exemplo — que quando está baixo dá muita arritmia —, e a pessoa  já tem um coração mais hipertrofiado, o indivíduo pode nem ter infartado, mas ter tido uma arritmia que levou à morte dele”, explica a médica.  

Ela destaca que os enfartes são causados por tromboses coronárias, que podem ser motivadas pela covid-19 e também pelo uso de suplementação com testosterona, que leva a transformações hormonais que agravam os riscos de um problema cardíaco letal. 

Se sentir dor no peito, pare!

A cardiomiopatia hipertrófica — doença relatada no livro de Abilio Diniz — costuma ser assintomática e raramente indica que o coração está com algum problema. Por isso, é importante tentar detectar essa condição o quanto antes e, caso confirmada, não fazer exercícios. 

Até porque, se alguém com cardiomiopatia hipertrófica não souber que tem essa condição e se propuser a fazer atividade física de alta intensidade, o corpo não dará sinais claros de que há algo errado. Isso explica a morte súbita de muitos atletas jovens por complicações cardíacas ainda em campo. Falta de ar e dores no peito não são incomuns, explica Caroline Reigada, mas há casos assintomáticos. 

Outra enfermidade possível nestes casos é a doença arterial coronariana, que tende a ser mais sintomática do que a cardiomiopatia hipertrófica. Ela pode sinalizar ao atleta durante o exercício que o coração está sobrecarregado e que o miocárdio está sofrendo por não receber o oxigênio necessário, levando ao surgimento de dores, falta de ar fora do normal e até desmaios.

Quando isso acontece, os especialistas são unânimes em afirmar que a pessoa deve parar o exercício imediatamente e investigar as razões dos sintomas. “Pode ser o começo de uma obstrução total da artéria coronária que pode levar ao enfarte”, alerta Caroline Reigada.

Tratamentos e prevenção

Não há cura para a cardiomiopatia hipertrófica, que é genética. Contudo, para a doença arterial coronariana, que também provoca enfartes, é possível desobstruir a artéria coronária e evitar uma complicação cardíaca. 

Os tratamentos disponíveis podem ser tanto por via medicamentosa, que ajudam a baixar os níveis de colesterol, alargar o vaso ou tornar o sangue mais “fino” para facilitar o fluxo de sangue, como também por meio de um stent que é passado na artéria para dilatá-la e permitir a melhor irrigação do miocárdio com oxigênio.

Em relação à prevenção, os especialistas afirmam que todas as pessoas acima de 40 anos devem fazer um check-up anual para verificar a situação do coração. Isso inclui a realização de eletrocardiograma, teste ergométrico e ecocardiograma.

Taline Costa recomenda que todos os atletas e esportistas e, principalmente, para os que têm acima de 35 anos façam a Avaliação Pré-Participação Esportiva. "Essas avaliações precisam ser feitas antes de iniciar a atividade ou, quem já pratica o esporte, se submeter aos exames e ser acompanhados anualmente."

Diabéticos, hipertensos, pessoas que fumam com frequência, que possuem doença renal crônica e histórico de enfarte na família, independentemente da idade, devem redobrar os cuidados e também passar por avaliação cardiológica todos os anos, uma vez que este público tem alto risco de desenvolver doença cardiovascular.

“Às vezes, para pessoas que têm mais chances de desenvolver doença coronariana, só um teste ergométrico não dá conta. A pessoa vai ter que passar por um cateterismo”, afirma Caroline. E aos atletas ou àqueles que realizam atividades físicas com frequência, a médica alerta: “Todos devem fazer uma avaliação cardíaca”. “A gente pode evitar muitas mortes de atletas."

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