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Itália se tornou o segundo país do mundo com maior número de casos do coronavírus AP Photo/Andrew Medichini

Mortes na Itália por coronavírus sobem 57%; 90 mil brasileiros vivem em área isolada

Em apenas 24 horas, 133 pessoas morreram, elevando o número de vítimas para 366; país já tem mais de 7.375 infectados, se tornando o segundo com mais casos no mundo

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2020 | 15h18

BRASÍLIA - Em apenas 24 horas, o número de mortos em decorrência da infecção do novo coronavírus subiu 57% na Itália, chegando a 366 neste domingo, 8. No sábado, o registro oficial do governo era de 233 mortes. O total de infectados saltou para 7.375. Com isso, provavelmente o país passa a ser o segundo com mais infectados no mundo, atrás somente da China.

O rápido crescimento de casos e mortes ao longo deste fim-de-semana levou o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, a decretar quarentena na região norte do país, em todo o Estado da Lombardia e em mais 14 províncias, isolando 16 milhões de pessoas. Cidades como Milão e Veneza estão no cerco.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil estima que de 70 mil a 90 mil brasileiros estão nesta área. O bloqueio está previsto para durar até o dia 3 de abril. Além da quarentena, o governo italiano determinou o fechamento de escolas, ginásios, museus, cinemas e clubes noturnos, entre outros espaços públicos da região.

Entre 40 mil e 60 mil brasileiros estão na região da Lombardia, área mais afetada pelo novo coronavírus. O Itamaraty ressalta, contudo, que os dados são estimados, uma vez que os brasileiros não têm a obrigação de se registrarem no consulado.

O governo ainda não tem uma posição sobre a eventual possibilidade de resgatar brasileiros que manifestarem interesse de sair da Itália, a exemplo do que foi feito com os cidadãos do País que estavam em Wuhan, na China, epicentro de contágio do coronavírus.

Em fevereiro, o governo brasileiro resgatou 34 pessoas que estavam em Wuhan. Na chegado ao Brasil, os brasileiros e a tripulação (que somava 14 pessoas) passaram por quarentena em Anápolis (GO) por duas semanas.

No Brasil, são 20 casos de pessoas com coronavírus, 19 deles confirmados pelo Ministério da Saúde e um deles identificado neste domingo pela manhã pela Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. Uma atualização sobre os dados nacionais deve ser divulgada pela pasta entre 16h e 17h. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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‘Já nem tenho medo mais do coronavírus, se pegar, peguei’, diz brasileiro na Itália

Chef brasileiro que mora em Milão atualiza o clima na cidade após o governo decretar quarentena na região norte do país, isolando 16 milhões em ato que o primeiro-ministro chamou de 'emergência nacional'

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2020 | 13h02
Atualizado 08 de março de 2020 | 18h45

Há exatas duas semanas, quando a rápida dispersão de casos do novo coronavírus pegava de surpresa a Itália, o chef brasileiro Gustavo de Miranda de Lima, de 23 anos, que mora em Milão, contou ao Estado como o clima lá naquele momento era de incerteza e medo. Neste domingo, diante da decisão do governo de colocar em quarentena toda a região da Lombardia, onde fica a cidade, e mais 14 províncias, isolando 16 milhões de pessoas, Lima afirmou que já está resignado.

“Sinceramente não estou nem preocupado de pegar a doença. O vírus está tão próximo que, se eu pegar, já aceitei. Fico em casa, me curo e vai ficar tudo bem. Gripe a gente pega todo ano, no inverno sempre fico gripado aqui, então vai ser só mais uma. Estou tentando ficar mais tranquilo”, disse.

Ele está desde quinta em casa – no que chamou de “férias forçadas” –, porque o hotel onde trabalha está quase sem hóspedes. “Ia ficar até o outro domingo, mas agora não sei. Antes de decretarem o isolamento da Lombardia, eu cheguei a pensar em viajar. A ideia de ficar em casa, fechado, sem fazer nada, estava me enlouquecendo. Mas nem consegui. Liguei para um amigo que mora na Puglia (sul do país), mas ele me não deixou ir não. ‘Não vem trazer o vírus para cá, não’, me disse.”

Lima conta a situação meio rindo, mas diz que não sabe direito como as coisas vão ficar agora. “Estamos curiosos para ver como vai ser. Não é como foi feito na China, em que as pessoas não podiam sair de casa. Aqui e gente pode circular, só estamos isolados no Estado. Acho que é uma medida mais para conscientizar a população de que temos de ficar aqui no Estado. Acho difícil controlar 100% das pessoas”, opina.

Há duas semanas, ele contou que os supermercados estavam vazios, após um sentimento de pânico tomar a população. “Mas voltei lá uns dois dias depois e já estava bem abastecido de novo. Acho até que nunca tinha visto tanta comida lá. É meio como se eles dissessem: ‘Fiquem tranquilos, temos comida suficiente’, aí o pessoal acalmou e parou de estocar.”

Neste domingo, porém, a preocupação parece ter voltado. Lima contou que o mercado que ele costuma frequentar estava limitando o número de consumidores por vez. “Mas acho que é meio óbvio que não vão deixar faltar comida. É só um controle”, diz. Mais preocupada está sua mãe, que mora no Itaim, em São Paulo. “Ela ficou nervosa, atacou a enxaqueca, passou mal e foi até parar no hospital outra dia. Está com mais medo do que eu mesmo.”

Lima, que mora há quase dois anos no país, afirma que está mais receoso sobre o impacto que a epidemia pode ter sobre a economia e os empregos. Além das cidades postas em quarentena, o governo italiano tomou várias outras medidas para evitar a circulação do novo coronavírus, como o fechamento de escolas, museus, cinemas e teatros. Os hotéis estão praticamente vazios, o turismo despencou.

Essa é a opinião também de outro brasileiro que mora na cidade, o arquiteto Gustavo Minosso, de 39 anos, que mora há 13 em Milão. "Tem meio um clima de pânico em parte da população. Hoje invadiram os supermercados mais uma vez. Os bares e restaurantes têm de fechar às 18h e muitos deles fecharam as portas definitivamente até ter novas notícias. Além das escolas, cinemas, teatros, shoppings... Se a situação continuar assim por muito tempo vai ser trágica para a economia. Tenho mais medo das complicações para o país que a epidemia pode causar do que de pegar a doença", afirma.

Minosso afirma que deu uma volta na cidade neste domingo para visitar alguns amigos e viu a cidade meio deserta. Segundo ele, apesar da decisão de quarentena, houve movimentação para fora da cidade. "Muita gente de outras regiões está indo embora com medo de ficar bloqueada aqui. Apesar da decisão do governo, as pessoas estão conseguindo sair, porque as autoridades ainda estão organizando com vão fechar as fronteiras. Essa fuga pode ser crítica pois as pessoas podem estar levando o vírus para outras zonas ainda sem casos", opina.

Assim como Lima, Minosso também diz pessoalmente não ter medo da doença, mas vem mudando seus hábitos. "Sei dos riscos nesse momento estando aqui, porém não acho que exista motivo pra pânico. A mídia em alguns casos está causando mais danos que informando. Lavo as mãos sempre que saio, estou evitando pegar meios de transporte públicos e lugares com muita gente. Mas pessoalmente não tenho medo porque a incidência de complicações é alta nas pessoas com idade avançada. Entre os jovem o índice é muito baixo", diz.

A decisão do governo estabelece restrições na Lombardia e em outras 14 províncias que incluem as cidades de Veneza, Modena, Parma, Piacenza, Reggio Emilia e Rimini. O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, disse que ninguém poderia entrar nesses locais ou sair deles nem se locomover internamente a não ser que tivessem motivos comprovados de trabalho ou de saúde.

“Estamos enfrentando uma emergência nacional. Escolhemos desde o início adotar a linha da verdade e da transparência e agora estamos nos movendo com lucidez e coragem, com firmeza e determinação”, disse Conte no meio da madrugada, ao anunciar a decisão. “Temos de limitar a dispersão do vírus e impedir que nossos hospitais sejam sobrecarregados”, disse. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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