Mosquitos transmissores de malária foram levados para os EUA

Além de usar cobaias humanas, integrantes da pesquisa financiada pela Universidade da Flórida no Amapá sobre malária enviaram para os Estados Unidos cerca de 120 fêmeas do mosquito transmissor da doença. Pelas regras do País, a remessa de material biológico somente pode ser feita quando satisfeitas várias condições. É preciso saber para onde vão e qual a finalidade que será dada às amostras, acima de tudo. "O envio das espécies não constava do protocolo. Além disso, sabemos somente para qual laboratório o material foi enviado. Não o destino dado a ele", afirmou o consultor em ética do Conselho Nacional de Saúde, Cláudio Lorenzo. Em sua avaliação, tal remessa expõe o País a uma série de riscos. "Hoje sabemos que a chave para entender e desenvolver novos medicamentos para malária está na descoberta de seus mecanismos genéticos. É imprescindível melhorar mecanismos de controle tanto das pesquisas quanto do uso do material biológico, se quisermos evitar perdas futuras." Falhas Contratado para investigar o caso da pesquisa com cobaias humanas, Lorenzo participou ontem da audiência pública no Senado para discutir o escândalo. Também na audiência, o secretário de Ciência e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Moisés Goldbaum, admitiu as falhas existentes na legislação e anunciou a criação de um grupo de trabalho para reformular as regras para pesquisa médica. A idéia é que, em 120 dias, o grupo apresente o primeiro esboço. Entre as medidas sugeridas pelo próprio secretário está o acompanhamento da execução da pesquisa. "Hoje fazemos uma análise somente durante o registro." "Fraude" A pesquisa que acabou usando cobaias, desenvolvida em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, Universidade de São Paulo e Fundação Nacional de Saúde foi realizada na comunidade ribeirinha de São Raimundo do Pirativa. Moradores interessados em participar da pesquisa serviram de isca para capturar mosquitos transmissores da malária. E, por cinco dias, "alimentaram" mosquitos capturados com seu sangue. Muitos contraíram malária. A pesquisa foi aprovada pelo Conselho Nacional de Ética Médica. Isso ocorreu somente porque o trecho em que constava o uso de humanos como cobaias não estava no documento traduzido e levado à apreciação do Conep. "Não foi erro, foi fraude", disse Lorenzo na audiência. Um dos integrantes da pesquisa, o biólogo Allan Kardec, admitiu, na audiência, os erros cometidos, mas se eximiu de responsabilidade. Ele também se queixou de ser comparado a um "pesquisador nazista".

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