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Mudanças

A maioria das atividades é rotineira, repetitiva. E é exatamente por isso que temos tanta aversão à mudança: ela pode ser um estímulo poderoso para criatividade

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 03h00

Nos anos 1990, fizeram sucessso no Brasil os livros do Roger Von Oech, escritor especialista em criatividade. Ele criou também uma espécie de baralho – que vendeu milhões de cópias mundo afora – com cartas para estimular essa habilidade que começava a ser valorizada no mundo corporativo. Uma delas trazia a figura de um bebê mal-humorado dizendo que única pessoa que gosta de mudar algo é um bebê com a fralda cheia. Em inglês a frase fica mais bonita, brincando com o duplo significado de change (que pode ser mudança, mas também troca), mas mesmo no nosso idioma ela traduz algo bastante verdadeiro: de forma geral, não gostamos muito de mudanças. 

Segundo Von Oech, contudo, elas são essenciais para a criatividade. Quando tudo permanece igual, sem novidades, nós acabamos desenvolvendo comportamentos engessados, ritualizados até, o que é fatal para a inovação. 

Por outro lado, quem precisa inventar coisas novas o tempo todo? No nosso dia a dia a maioria das atividades é mesmo rotineira, repetitiva, dispensando grandes esforços mentais. E é exatamente por isso que temos tanta aversão à mudança: ela pode ser um estímulo poderoso para criatividade, mas requer um tremendo esforço mental. E conscientemente ou não nós vivemos evitando fazer esforço. 

A rotina, desse ponto de vista, é uma verdadeira bênção. À medida que os eventos se repetem um dia depois do outro o cérebro aprende a sequência e cria pacotes automáticos de comandos, dispensando a trabalhosa tarefa de manter a concentração e pensar no que está acontecendo. É quando nos tornamos capazes de realizar atos complexos, como dirigir um veículo por avenidas movimentadas, indo do trabalho para casa, sem nos darmos conta do que estamos fazendo. Ligamos o piloto automático, desligamos nossa atenção e quando vemos estamos na garagem sem nem perceber. Evidentemente, esse processo poupa uma tremenda quantidade de energia. Mas fica claro como ele nos rouba de nós mesmos ao nos alienar do momento presente. 

A quebra da rotina força nosso cérebro a sair desse modo econômico, obrigando-nos a parar para prestar atenção, pensar no que estamos fazendo, raciocinar. Não é de se espantar, portanto, que mudanças causem estresse. 

Nos anos 1960, dois psiquiatras americanos elaboraram uma lista das coisas mais estressantes para o ser humano. A maioria delas está relacionada a alterações importantes na vida: casar, separar, ser demitido, aposentar-se, ter filhos. Quando é preciso desligar o piloto automático e retomar o controle existe um custo emocional significativo. 

Deu para entender por que você pode estar se sentindo cansado, irritado, mal-humorado desde que essa mistura de restrição à circulação, distanciamento social, quarentena e tantas outras alterações em nossa rotina nos foram impostas? Fomos obrigados a mudar, todos ao mesmo tempo. E muito. Isso estressa todos ao mesmo tempo. E muito. 

Dá para entender também por que se fala tanto na importância de manter uma rotina quando se está isolado. Se a cada dia tivermos de decidir o que vamos fazer, como vamos comer, em que horários iremos estudar ou trabalhar, quem usará o computador, quem ficará com o controle remoto e assim por diante, o gasto de energia nos derrubará em pouco tempo. Mas se mantivermos uma rotina, mesmo que seja uma rotina inteiramente nova, distante da que seguíamos antes, rapidamente treinamos o piloto automático para poupar esforço dando uma folga para nossa mente. 

E vamos juntos. Porque juntos vamos mais longe. 

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