Andrey Rudakov/Bloomberg via Washington Post
Andrey Rudakov/Bloomberg via Washington Post

Muitos voluntários de testes receberam placebo. Agora eles merecem a vacina de verdade?

Tema se tornou objeto de um debate espinhoso entre especialistas

Carl Zimmer e Noah Weiland, The New York Times

05 de dezembro de 2020 | 10h00

Em outubro, Judith Munz e seu marido, Scott Petersen, se apresentaram como voluntários para um teste de vacina contra o coronavírus. Cada um levou uma picada no braço, em uma clínica perto de sua casa, em Phoenix.

Petersen, médico aposentado, ficou um pouco cansado depois da injeção e desenvolveu vermelhidão e inchaço no braço. Mas Munz, assistente social, não percebeu nenhuma mudança. “Por mais que eu quisesse, não consegui encontrar nada”, disse ela. “Era um x-tudo sem nada”.

Ela sabia que havia uma chance de 50-50 de receber a vacina, desenvolvida pela Johnson & Johnson. A julgar pela ausência de reações, imaginou que tinha recebido o placebo.

Na época, Munz pensou que qualquer pessoa que tivesse recebido o placebo receberia a vacina verdadeira assim que o teste mostrasse que o imunizante era seguro e eficaz. Ela ansiava pela paz de espírito que isso traria. Mas, no mês passado, ela foi convidada a assinar um termo de consentimento modificado, o qual indicava que as pessoas que tomaram o placebo poderiam ter de esperar até dois anos para receber a vacina, se é que chegariam a receber uma dose.

Munz achou o formulário vago, confuso e, acima de tudo, injusto. “Eu me expus a um risco”, disse ela. “Estão me devendo uma vacina”.

Enquanto os governos estadual e federal se preparam para distribuir as primeiras vacinas contra o coronavírus para profissionais de saúde e residentes de asilos no final deste mês, as dezenas de milhares de pessoas que receberam injeções de placebo em testes se tornaram objeto de um debate espinhoso entre especialistas.

Alguns cientistas concordam com Munz: se ela realmente recebeu um placebo, deveria passar para a frente da fila, em retribuição a seu serviço para um bem maior. “Acho que provavelmente devemos a essas pessoas, por causa de sua participação no estudo, alguma prioridade especial em termos de acesso à vacina”, disse Francis S. Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde, durante uma reunião em julho.

Mas, na quarta-feira, 18 importantes especialistas em vacinas – entre eles um regulador da FDA, a agência sanitária dos Estados Unidos – argumentaram que vacinar grupos de placebo logo no início seria desastroso para a integridade dos testes. Se todos os voluntários que receberam as injeções de placebo fossem subitamente vacinados, os cientistas não seriam mais capazes de comparar a saúde daqueles que foram vacinados com a dos que não foram.

“Se você vai priorizar algumas pessoas na fila da vacinação, as últimas pessoas que você deve vacinar são aquelas que estavam num grupo de placebo em algum teste”, disse Richard Peto, médico estatístico da Universidade de Oxford. Peto e seus colegas expuseram suas preocupações em um novo comentário no periódico científico The New England Journal of Medicine.

Os placebos têm sido essenciais para os ensaios clínicos há décadas. É vital que nem os voluntários nem a equipe que gerencia o estudo saibam quem foi aleatoriamente designado para receber a vacina ou o placebo. Esse “teste cego”, como é chamado, elimina a chance de que as pessoas se comportem de maneira diferente dependendo do tratamento que recebem, o que pode distorcer os resultados do ensaio clínico.

Em seu artigo no New England Journal of Medicine, Peto e seus colegas argumentam que, se um grupo de placebo deixar de existir em um ensaio clínico, a chance de coletar dados rigorosos sobre determinada vacina contra o coronavírus desaparecerá.

Os resultados preliminares não revelam, por exemplo, quanto tempo durará a proteção de determinada vacina. É possível que a imunidade fornecida por uma vacina possa enfraquecer ao longo dos meses. Esse declínio levaria a um aumento na taxa de pessoas vacinadas adoecendo em comparação com o grupo do placebo. Os cientistas provavelmente verão essa tendência, caso possam manter intactos os testes de vacinas.

“Está claro que existe uma proteção temporária e suspeito que haverá proteção por muito tempo”, disse Peto. “Mas acho que nos sairemos muito melhor se tivermos evidências claras disso”.

Se as empresas possibilitassem essa escolha, poderiam prejudicar suas chances de receber o selo de aprovação total do FDA. E possibilitar que um teste continue também pode ser bom para seus resultados financeiros, porque saber quando a imunidade da vacina começa a diminuir determinará a frequência com que as pessoas precisarão de seu produto.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, disse que o argumento ético para dar a vacina a pessoas como Munz é mais convincente agora que as vacinas estão funcionando surpreendentemente bem.

As duas empresas na frente da corrida de vacinas nos Estados Unidos, Pfizer e Moderna, relataram taxas de eficácia de cerca de 95%. É improvável que esperar que mais voluntários desenvolvam covid-19 mude muito esse número.

O problema provavelmente chegará ao auge em 10 de dezembro, quando um conselho consultivo do FDA vai se reunir para discutir o pedido da Pfizer para autorização de emergência de sua vacina contra a covid-19. A Moderna, que está apenas uma semana atrás da Pfizer, ainda não estabeleceu uma política para seu grupo de placebo. Fauci disse que ele, Collins e outros altos funcionários do Instituto Nacional de Saúde conversariam mais sobre o assunto com a Moderna, cuja vacina foi desenvolvida em colaboração com pesquisadores do instituto de Fauci.

Se o FDA autorizar as vacinas da Pfizer e da Moderna, o limitado fornecimento inicial provavelmente significará que as vacinas serão aplicadas lentamente. À medida que novos grupos de pessoas se tornarem elegíveis para vacinação, é possível que os dois ensaios clínicos venham a perder gradualmente algumas pessoas de seus grupos de placebo, conforme essas pessoas desistirem de participar do estudo para obter as vacinas autorizadas.

O lançamento das vacinas pode ter um impacto maior sobre os outros dois testes clínicos cujos estágios finais estão em andamento nos Estados Unidos, gerenciados pela Johnson & Johnson e pela AstraZeneca. A Johnson & Johnson espera obter os primeiros resultados de seu ensaio em janeiro ou fevereiro – mas isso dependerá de seu grupo de placebo permanecer não vacinado.

Depois de saber que pode demorar até dois anos para que a Johnson & Johnson lhe forneça a vacina de verdade, Munz, que tem 68 anos, está pensando em obter a versão da Pfizer ou da Moderna assim que estiver elegível, por causa de sua idade.

“Vou sair do ensaio, o que posso fazer? Vou tomar a vacina”, disse ela.

Holly Janes, bioestatística do Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle, e seus colegas estão se preparando para esse tipo de erosão. Ela e seus colegas agora estão trabalhando com métodos estatísticos para extrair o máximo de informação dos testes, não importa qual seja seu destino.

“Não será o ideal, do ponto de vista puramente científico, porque perdemos a comparação direta entre a vacina e o placebo”, disse ela. “Mas estamos tentando encontrar um equilíbrio entre fazer o que alguns argumentam ser certo para os participantes e maximizar o valor para a saúde pública”. / Tradução de Renato Prelorentzou.  

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