National Institutes of Health/AFP
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Mulher pode ter sido curada do HIV após transplante de sangue do cordão umbilical, diz pesquisa

Tratamento abre possibilidade de curar pessoas de diversas origens raciais, pois fluido não precisa ser perfeitamente compatível com o receptor

Apoorva Mandavilli, The New York Times

15 de fevereiro de 2022 | 16h36
Atualizado 15 de fevereiro de 2022 | 18h57

Uma mulher, de origem birracial, pode ser a terceira pessoa a ser curada do HIV, vírus causador da Aids, anunciaram cientistas nesta terça-feira, 15. Ela foi tratada por meio de um novo método de transplante envolvendo sangue do cordão umbilical, o que abre a possibilidade de curar pessoas de diversas origens raciais. 

O sangue do cordão umbilical é mais amplamente disponível do que as células-tronco adultas normalmente usadas em transplantes de medula óssea, e não precisa ser perfeitamente compatível com o receptor. A maioria dos doadores nos registros é de origem caucasiana, portanto, a necessidade de apenas uma correspondência parcial tem o potencial de curar dezenas de americanos que têm HIV e câncer por ano, informaram os cientistas.

A mulher, que também tinha leucemia, recebeu sangue do cordão umbilical para tratar o câncer. O fluido veio de um doador parcialmente compatível com a paciente, e não de alguém de raça e etnia semelhantes, prática tradicional. Ela também recebeu sangue de um parente próximo que lhe proporcionou defesas imunológicas temporárias enquanto o transplante acontecia.

Os pesquisadores apresentaram detalhes do novo caso nesta terça na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas em Denver, nos Estados Unidos. O sexo e a origem racial da paciente marcam um passo significativo no desenvolvimento de uma cura para o HIV, destacaram os pesquisadores.

"O fato de ela ser birracial e mulher é muito importante cientificamente e em termos de impacto na comunidade", disse Steven Deeks, especialista em Aids da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que não esteve diretamente envolvido nessa pesquisa.

Acredita-se que a infecção pelo HIV progride de maneira diferente em mulheres. Embora representem mais da metade dos casos de infecção por HIV no mundo, elas são apenas 11% dos participantes em ensaios de cura.

Deeks, porém, não acredita que essa técnica vá se tornar comum. “Essas são histórias trazem inspiração para o campo e, talvez, um roteiro”, disse ele. Drogas antirretrovirais poderosas podem controlar o HIV, mas a cura é a chave para acabar com uma pandemia de décadas. Em todo o mundo, cerca de 38 milhões de pessoas vivem com o vírus e cerca de 73% recebem tratamento.

Um transplante de medula óssea não é uma opção realista para a maior parte dos pacientes. Esses enxertos são altamente invasivos e arriscados, por isso, geralmente são oferecidos apenas a pessoas com câncer que já tenham tentado todas as outras alternativas.

Até agora, há apenas dois casos conhecidos de cura do HIV. Chamado de “O Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown ficou livre de vírus por 12 anos, até morrer em 2020, de câncer. Em 2019, outro paciente, posteriormente identificado como Adam Castillejo, teve a cura relatada.

Ambos receberam transplantes de medula óssea de doadores que carregavam uma mutação que bloqueia a infecção pelo HIV. A mutação foi identificada em cerca de 20 mil doadores - a maioria dos quais são descendentes do norte europeu.

Como os transplantes de medula óssea substituíram todo o sistema imunológico dos pacientes, os dois homens sofreram efeitos colaterais punitivos, incluindo a doença do enxerto contra o hospedeiro (GVHD, na sigla em inglês), na qual as células do doador atacam o corpo do receptor. Brown quase morreu após o procedimento. O quadro de Castillejo foi menos intenso, mas, no ano seguinte ao enxerto, ele perdeu quase 70 quilogramas, desenvolveu perda auditiva e passou por múltiplas infecções, segundo seus médicos.

Por outro lado, a mulher que recebeu sangue do cordão umbilical deixou o hospital passados 17 dias do transplante e não desenvolveu doença do enxerto contra o hospedeiro, disse o JingMei Hsu, médico da paciente. A combinação com células do parente pode tê-la poupado de muitos dos efeitos colaterais brutais de um transplante de medula óssea típico, ponderou Hsu.

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