Mulher de 39 anos foi a 1ª morte por gripe suína no México

Caso de Adela Gutierrez mostra que acompanhamento das famílias e resposta inicial ao surto foram fracos

Agência Estado e Associated Press,

03 Maio 2009 | 09h42

Quase duas semanas antes de os exames confirmarem que ela foi a primeira pessoa a morrer de gripe suína, os médicos na cidade colonial de Oaxaca, no sul do México, não conseguiam descobrir o que estava errado com a mulher de 39 anos que chegou ao hospital com falta de ar e mãos e pés roxos por falta de oxigênio no sangue. Eles a medicaram com antibióticos, mas ela piorou. Ela passou a respirar com aparelhos. Uma amostra de sua saliva foi enviada para um laboratório no dia 12 de abril, no terceiro dia em que ela estava em tratamento intensivo. Os exames indicavam que poderia ser coronavírus, uma doença altamente contagiosa associada à síndrome respiratória aguda grave, ou Sars.

 

O doutor Jesus Salcedo, diretor do Hospital Geral Dr. Aurélio Valdivieso, percebeu que tinha uma crise em potencial em suas mãos. Os cuidados que Adela Maria Gutierrez e pelo menos outros 20 pacientes recebiam, tinham de se tornar uma quarentena. Aterrorizados, os funcionários exigiam melhores equipamentos de proteção ou transferência. "Os religiosos diziam 'isto é um castigo de Deus e todos iremos morrer'", relembrou Salcedo numa entrevista exclusiva para a Associated Press. Um dia depois, Gutierrez morreu, pouco depois de uma segunda rodada de exames darem negativo para coronavírus. O hospital e funcionários da saúde começaram então uma caça desesperada para encontrar a fonte da doença misteriosa e quem mais poderia estar contaminado. 

 

O caso mostra por que tem sido tão difícil conter o vírus no México. Grupos médicos tomaram algumas medidas que epidemiologistas recomendam para seguir a pista de um vírus mortífero, entrevistando 472 pessoas que poderiam ter entrado em contato com Gutierrez, mãe de três filhos que havia trabalhado temporariamente para a agência de coleta de impostos mexicana num trabalho porta a porta. Eles recolheram mais amostras do corpo de Gutierrez e enviaram para o Instituto Nacional de Referência e Diagnóstico Epidemiológico, que por sua vez enviou as amostras para um laboratório no Canadá. A unidade de terapia intensiva foi fechada para novos pacientes até que os que haviam sido expostos estivessem bem o suficiente para deixar o hospital, dizendo a eles que deveriam retornar imediatamente sue apresentassem sintomas de gripe. Nenhum voltou, disse Salcedo.

 

Mas o acompanhamento foi fraco - como a resposta inicial ao surto de gripe suína em outras partes do México, onde os familiares das vítimas ainda têm de ser contactados por funcionários de saúde para saber se eles também contraíram a doença. No final, apenas 18 pessoas, todas funcionárias do hospital, fizeram exames para gripe suína depois que o resultado da amostra enviada pelo doutor Gutierrez chegou por volta de 20 de abril, disse o doutor Ruben Coronado, diretor do departamento de epidemiologia de Oaxaca.

 

Nos últimos dias, Gutierrez tem acompanhado de perto outra funcionária temporária que entrevista contribuintes e preenchendo formulário para atualizar os registros. A mulher tem tosse forte e é de Veracruz, o Estado onde o primeiro caso de gripe suína foi confirmado: Edgar Hernandez, um menino de 5 anos que sobreviveu. Cerca de 450 pessoas foram diagnosticadas na cidade de La Gloria, em Vera Cruz, com infecção respiratória aguda, mas apenas 35 fizeram exames para descobri se têm o vírus. O exame de Edgar foi o único a dar positivo.

 

Gutierrez vivia numa casa de dois andares onde a família tem uma loja de conveniência. Seu marido, um soldador, recusou-se a ser entrevistado. "Eles estão realmente com medo e não sabem o que está acontecendo", disse o secretário de Saúde, doutor Martin Vasquez, sobre a família. Gutierrez foi enterrada no mesmo dia em que morreu, algo estranho no México onde o costume é fazer um velório durante a noite, com o enterro no dia posterior. Também circularam rumores de que ela havia morrido de uma doença muito contagiosa.

 

Quatro casas adiante, Hermelinda Leon estava muito amedrontada para ir ao velório. Ela, seu marido e os três filhos do casal apresentaram os sintomas da doença a partir de 7 de abril. Hermelinda teve febre de 40ºC e passou vários dias na cama antes que o médico desse a ela injeções de antibiótico. O remédio não mata o vírus, embora possa funcionar contra infecções bacterianas que surgem algumas vezes. "Quando me disseram que a vizinha morrera de inflamação na garganta, eu fiquei preocupada, porque minha garanta doía tanto que eu achei que fosse morrer", disse ela.

 

A família Leon recuperou-se em a ajuda do Tamiflu ou outro remédio antiviral. Salcedo disse que seu hospital não tinha esse tipo de medicamento naquela data, mas desde então foi formado um estoque e atualmente ele está tratando 11 pessoas com o Tamiflu. Três dias depois, funcionários da saúde foram entrevista Leon, que fornece comida para hotéis de Oaxaca. Eles perguntaram sobre a doença da família, sintomas, medicamentos usados e disseram que voltariam para realizar exames. Ela disse que eles nunca voltaram.

 

Um dia mais depois de Salcedo ficar sabendo, por meio do laboratório canadense, que Gutierrez teve gripe suína, duas pessoas morreram de pneumonia no hospital de Oaxaca. Essas pessoas não passaram por exames para descobrir se tiveram gripe suína porque não apresentaram os sintomas típicos, disse Salcedo. A família de Gutierrez também não apresentou nenhum sintoma, disse ele.

 

Coronado disse que apenas 18 pessoas entrevistadas passaram por exames porque as demais não apresentaram os sintomas da doença, mesmo que a família Leon tenha apresentado sinais similares. Coronado disse á Associated Press que não conhecia o caso Leon. Das 18 amostras de saliva coletadas dos funcionários do hospital, 12 não tinham células suficiente para serem examinadas. As outras seis deram negativo, disse Coronado.

 

Funcionários da saúde de Oaxaca disseram que os atuais 11 casos suspeitos de gripe suína não têm relação com o trabalho dos funcionários da agência de coleta de impostos, mas a falta de acompanhamento da família Leon sugere que eles não descobriram todas as conexões possíveis. Três pessoas continuam hospitalizadas e oito foram para casa depois de terem recebido medicamento antiviral. Nenhum outro caso em Oaxaca foi confirmado.

 

Salcedo disse que é estranho que ninguém das famílias de Gutierrez e Hernandez tenha ficado doente. Ele acredita que seus sistemas imunológicos foram fortes o suficiente para resistir ao vírus.

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