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Mutilação genital feminina ainda é fator de status social e casamento

Embora tenha se reduzido em alguns países, prática é generalizada em outros; procedimento causa dor, sangramentos, além de baixa autoestima e depressão

O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2017 | 07h00

A mutilação genital feminina (MGF) é uma prática ancestral global, que está longe de se limitar a países da África e que persiste como um fator de status social da mulher e em alguns lugares determina suas possibilidades de matrimônio, disseram nesta segunda-feira, 6, especialistas neste fenômeno.

"Estamos diante de uma prática cultural. Em algumas comunidades é uma condição para que as meninas passem à etapa adulta, para que sejam elegíveis ao matrimônio ou para alcançar um status social elevado", explicou a conselheira do Comitê Interafricano de Práticas Tradicionais, Adebisi Adebayo.

Ao se comemorar o Dia Internacional de Tolerância Zero com a MGF, várias organizações da ONU que participam neste esforço recordaram que cerca de 200 milhões de mulheres sofreram a extirpação total ou parcial de seus órgãos genitais externos.

Ainda que a incidência da mutilação genital feminina tenha diminuído em vários países (entre eles Burkina Faso, Quênia, Libéria e Egito), se mantém como uma prática generaliza em outros.

Em regiões do Quênia e da Nigéria, "uma menina que não se submeteu à incisão não pode se casar", enquanto que em outros lugares "uma mulher que não tenha sido circuncidada não tem voz na sociedade e não pode pertencer aos grupos mais importantes de mulheres", destacou Adebayo em uma coletiva de imprensa.

"As famílias se envergonham tanto que farão o possível para se assegurarem que suas filhas sejam submetidas à MGF", acrescentou.

Mais recentemente se confirmou a amplitude da MGF na Indonésia e no Irã, e foi descoberto que para um povo indígena na Colômbia é um rito ancestral de passagem à idade adulta.

"Se trata de um problema global, que cada vez cruza mais as fronteiras", disse Alfonso Barragués, representante do Fundo das Nações Unidas para a População, que gerencia com a Unicef um programa de luta contra esta prática.

Os últimos dados recolhidos indicam que os países com maior prevalência de MGF entre as mulheres de 15 a 49 anos são Somália (98%), Guiné (97%) e Djibouti (93%), ainda que a grande maioria sofra a ablação ao cumprir os cinco anos.

Entre as meninas de catorze anos e menos, a Gâmbia é o país com mais prevalência, com 56% de mulheres submetidas à MGF, seguida de Mauritânia (54%).

Na Indonésia, cerca da metade de meninas de onze anos já sofreram esta prática, que tem graves consequências físicas e psicológicas de longo prazo. Entre as complicações mais comuns estão a dor aguda, o sangramento severo, problemas urinários e menstruais, assim como cistites e infecções.

Além disso, está relacionado com complicações no parto e elevado risco de recém nascidos mortos. Em relação a questões psicológicas foi observado que a mutilação pode provocar depressão, ansiedade, desordens pós-traumáticas e baixa autoestima.

"Desde tempos ancestrais, muitas comunidades dão a esta prática um valor positivo. Nosso trabalho consiste em aportar evidências de que causa graves danos à saúde", comentou Barragués.

Para isso, as organizações trabalham diretamente com as comunidades, já que está comprovado que a mudança só pode provir delas mesmas e não de imposições exteriores.

Desde que teve início, em 2008, o Programa das Nações Unidas contra a MGF, cerca de 18 mil comunidades em 17 países declararam publicamente que renunciam a esta prática, com 2.900 declarações deste tipo só em 2016 e uma taxa de cumprimento da ordem de 70%.

Além disso, 13 países aprovaram leis para lutar contra a mutilação genital feminina e no ano passado houve 72 condenações, que em alguns casos envolveram médicos que aceitaram realizar essas intervenções e, em outros, familiares.

Entretanto, Barragués explicou que a solução do problema não passa por condenar pais ou avós das vítimas, que constituem a sustentação de suas famílias, mas de convencê-los de erradicar esta prática. /EFE

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