Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

Nº de mulheres que são mães após os 40 anos cresce 49% em duas décadas

Seja em busca de realização profissional ou estabilidade financeira, cada vez mais brasileiras adiam a maternidade

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Ter filhos sempre foi um dos sonhos da bancária Fabiana Galvão Camargo Sarraf. Antes, porém, ela queria construir uma carreira sólida e alcançar a tão sonhada estabilidade financeira. Quando tudo isso chegou, aos 39 anos, ela começou a tentar engravidar. “Você foca no trabalho, o tempo passa e, como se sente bem fisicamente, jovial, acha que pode esperar, mas o relógio biológico não é bem assim.” Com ajuda da fertilização in vitro, Fabiana engravidou e deu à luz Samuel e Mariah em dezembro, no mesmo dia em que fez 42 anos.

Como Fabiana, cada vez mais brasileiras optam por ter filhos após os 40 anos. Dados inéditos do Ministério da Saúde mostram que o número de mulheres que foram mães após essa idade subiu 49,5% em 20 anos, passando de 51.603 em 1995 para 77.138 em 2015, dado mais recente disponível, divulgado em fevereiro.

As estatísticas de 2015 mostram que 72.290 dessas mamães tinham entre 40 e 44 anos e outras 4.475 estavam na faixa etária dos 45 aos 49. Houve ainda 373 brasileiras que se aventuraram na maternidade após os 50 – entre elas, 21 já eram sexagenárias quando deram à luz.

Segundo Arnaldo Cambiaghi, médico especialista em reprodução humana da clínica IPGO, a história de Fabiana se repete entre a maioria das mulheres que adia a gravidez. “Buscam melhor colocação profissional e, além disso, acreditam que a medicina será capaz de resolver qualquer problema, mas nem sempre é assim. Embora a gravidez natural e saudável seja possível após os 40, a dificuldade para engravidar e os riscos para a mãe e o bebê são reais.”

O médico Antonio Fernandes Moron, professor de obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador de medicina fetal do Hospital e Maternidade Santa Joana, ressalta que outra razão para adiar a gravidez é a mudança nas dinâmicas dos relacionamentos afetivos. “A mulher busca autonomia, independência em relação ao parceiro. Não precisa se manter em um único relacionamento desde jovem. A maternidade após os 40 acontece muito entre as pessoas que estão, por exemplo, no segundo casamento.”

Segundo especialistas, conforme aumenta a idade da mulher, crescem os riscos de doenças na gravidez e de anomalias congênitas ao bebê. Eles podem ser minimizados com cuidados com a saúde da gestante e exames que identificam possíveis mutações genéticas nas células reprodutoras.

Foi por meio de um procedimento do tipo que a analista contábil Damaris de Souza Carvalho, de 49 anos, conseguiu engravidar dos gêmeos que espera para abril. Com a idade avançada e endometriose, ela fez tratamentos de reprodução assistida por dez anos até que, em 2016, conseguiu gerar dois fetos saudáveis. Antes da fertilização in vitro, seus embriões foram submetidos a um exame que investiga alterações cromossômicas. Por meio da investigação, o médico consegue escolher os melhores embriões para implantar no útero, o que reduz o risco de aborto e de anomalias congênitas.

“Quase desisti, muitos médicos não me encorajavam, mas desde os 10 anos, quando brincava de boneca, sonhava em engravidar”, conta. No caso de Damaris, não foi só a carreira que atrasou a maternidade. Logo que se casou, aos 28 anos, teve de cuidar do pai com câncer, perdeu um tio e um irmão de forma trágica, assumiu os cuidados da filha do primeiro casamento do marido e, três anos depois, também passou a criar um sobrinho. “Eram as crianças, trabalho, faculdade, perdas familiares. Não tinha estrutura física nem emocional para engravidar. Quando, anos depois, o turbilhão passou e eu estava perto dos 40, comecei a pensar em engravidar, mas foi aí que descobri a endometriose.”

Apesar de já ter criado a enteada e o sobrinho, hoje adultos, Damaris diz que está curtindo agora as fases que nunca pôde viver. “Estou podendo, de fato, ter a experiência de gestar, pensar no parto, na amamentação. Tudo isso é novo para mim. Sempre acreditei que, depois da tempestade, viria a bonança.”

Energia. A bancária Fabiana, cujos bebês estão com dois meses, confirma a felicidade. “Algumas pessoas falam que não teriam pique para ter uma criança mais velhos, mas acho que, mais importante que a condição física, é o amor e a energia que você passa para o seu filho. E os meus foram muito desejados.”

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Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 Março 2017 | 03h01

SÃO PAULO - Eu namorava desde os 15 anos, cheguei a ficar noiva, e, aos 19, engravidei, antes de casar. Não programamos esse bebê. Eu ainda fazia faculdade de Direito. Nenhuma menina de 19 anos, no meio da faculdade, espera ter um filho.

Com o apoio da minha família, acabei enfrentando bem a situação, mas me separei um ano depois que a Isadora nasceu. Apesar da assistência familiar e de ter condições financeiras para criar uma criança, a parte emocional pesou. Fiquei confusa porque eu tinha aquela responsabilidade com a minha filha e, ao mesmo tempo, queria estar livre para sair com meus amigos.

Eu era muito jovem. O tempo passou e eu vivi outros namoros longos, mas que não deram certo. Tive depressão. Resolvi ficar sozinha por um tempo e me mudei do interior de São Paulo para a capital. Nessa época, com mais de 30 anos, eu já tinha desistido de casar. Coloquei na cabeça que ia criar a Isadora e tocar a minha vida. Nem cogitava ter outros filhos. Quando estava com 35 anos, conheci uma pessoa. Em seis meses, namoramos, noivamos e casamos. Logo depois, parei de tomar pílula e, seis meses após o casamento, estava grávida da Betina.

Como a diferença de idade entre a Isadora e a Betina é muito grande (quase 20 anos), a segunda experiência de ser mãe foi totalmente distinta da primeira. Para começar, eu nem sabia mais cuidar de um bebezinho. Também me sentia menos confusa e com mais estrutura emocional, mas fiquei mais protetora, preocupada, com um senso de responsabilidade maior. Isso às vezes trazia muita culpa e medo.

Eu e meu marido queríamos outro filho, tanto por nós quanto para dar um irmãozinho da mesma faixa etária para a Betina. Decidimos tentar de novo e, para a nossa surpresa, eu, com 42 anos, engravidei de gêmeos. Fiquei chocada por algumas semanas com a notícia. Tivemos de mudar um monte de coisa. Compramos um carro de sete lugares, estamos querendo nos mudar para uma casa, mas estou muito feliz. A Ana e o Levi nasceram no último dia 25 de janeiro, de cesárea. As duas primeiras meninas tinham sido parto normal. Eu brinco que, hoje, com uma filha de 22 anos, outra de 2 e um casal de gêmeos de 1 mês de vida, eu poderia fazer um blog ou dar consultoria sobre todas as questões da maternidade.

Vivi os dois tipos de parto, tenho filhos de diferentes idades, já passei por quase todas as fases. Outro dia, por exemplo estava dando de mamar às 3 horas ao mesmo tempo em que escrevia uma mensagem para a Isadora perguntando que horas ela voltaria do barzinho.

Mesmo com todas essas experiências, percebo que cada gestação muda a gente. Claro que estou cansada de cuidar de duas crianças, mas elas estão me fazendo uma pessoa melhor. Sempre fui muito agitada e estou mais tranquila, madura e tolerante. A gravidez tardia me trouxe mais segurança.

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