DIDA SAMPAIO/ESTADAO
DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Na capital do País, vacinação avança em ritmo lento e especialistas apontam má gestão

No Distrito Federal, previsão é vacinar 70% da população até outubro, o que destoa das expectativas mais céleres de outras regiões

Lorenna Rodrigues,Vinícius Valfré e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Governadores e prefeitos do País abriram uma "corrida" por quem vacinará toda a sua população primeiro contra a covid-19. Ainda em maio, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), divulgou calendário em que prevê imunizar 100% dos cariocas com mais de 18 anos até outubro. Em São Paulo, João Doria (PSDB), também prevê mais quatro meses para completar a vacinação no Estado. Seu colega do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), foi mais ambicioso e prometeu a primeira dose a todos os gaúchos até setembro, prazo que também foi dado pelo governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). No Distrito Federal, porém, a previsão é vacinar 70% da população até outubro, o que destoa das expectativas mais céleres de outras regiões.

Especialistas apontam o excesso de categorias beneficiadas, ineficiência no sistema de agendamento e problemas de gestão como fatores que fazem a imunização avançar lentamente na capital do País. Até ontem, a cobertura vacinal no Distrito Federal com uma dose da vacina era de 23%. No Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul, o índice ultrapassa os 30%.

"O Distrito Federal tem uma área menor e uma população menor do que a maioria das outras unidades da federação. Era pra fazer tudo bem feito aqui, porque, além disso, a gente tem mais capital per capita e mais recursos per capita recebidos do SUS", diz o sanitarista Jonas Brant, coordenador da Sala de Situação da Universidade de Brasília (UnB).

O DF adotou alguns critérios próprios. Em vez de distribuir a Coronavac a todos, tem guardado doses para garantir a segunda aplicação, contrariando orientação do Ministério da Saúde. Assim, o percentual de pessoas totalmente vacinadas, condição necessária para a imunização plena, também não evolui. No domingo passado, dia 6, apenas 47 pessoas tomaram a segunda dose nos seis pontos disponíveis. Enquanto isso, 98.710 unidades seguem guardadas nas geladeiras.

As críticas à gestão do DF também se devem ao fato de o governo ter cedido a categorias que exercem pressão política, como os bancários, e os priorizado na fila. Por outro lado, não há busca ativa, por exemplo, por idosos que tomaram uma dose e não voltaram para a segunda. A estratégia, segundo especialistas, privilegia os mais ricos e com mais acesso a informações.

Dados reunidos pelos pesquisadores da UnB mostram que a cobertura chega a 20% no Plano Piloto, área central do DF, e não passa de 5% em Samambaia, região administrativa, com renda menor. Contudo, a mortalidade segue tendência contrária. 

Xepa

Na "xepa" da vacina, mais aspectos conflitantes da estratégia vacinal. Ao Estadão, a secretaria de saúde do DF diz que a prática de distribuir doses não utilizadas no dia a quem aparece nos postos de saúde não ocorre.

No entanto, o fim de tarde nas unidades de saúde do DF revela outra realidade. Moradores vão às dezenas na expectativa de serem contemplados, mas os critérios de quem pode receber muda a cada dia. Alguns dão sorte. A maioria volta para casa sem a agulhada. 

Na semana passada, até a embaixatriz da Indonésia, Senny Syahfinar, apareceu em um posto de saúde. Sem falar português, foi ao local acompanhada pelo marido, Edi Ysusup, embaixador do País no Brasil. Aos 60 anos, ele já poderia se vacinar. Edi saiu de lá vacinado. Senny não. "Estou ansiosa para me vacinar, espero que chegue logo a minha vez", disse.

A reportagem visitou a unidade de saúde, localizada na 612 Sul, área nobre de Brasília, em quatro dias diferentes. Às 17 horas, a vacinação agendada é encerrada e a "xepa" começa. O Estadão também percorreu outros dois pontos de vacinação, no Parque da Cidade e no Paranoá. No dia com mais sobras, dez pessoas foram contempladas.

Na segunda-feira, 7, a policial civil Ludmila Fraga, 37 anos, esperava sobras de vacinas pela terceira vez. Apesar de ser da área de segurança, não foi priorizada porque, grávida, não estava nas ruas. Outra peculiaridade do DF: só são vacinadas as gestantes com comorbidade.

"Sinto como uma humilhação a gente ter que passar por isso, porque tantas gestantes morreram, tinha que ser prioridade. Em outros Estados, grávidas mesmo sem comorbidades estão sendo vacinadas, até porque a vacinação da gestante imuniza o bebê", afirmou.

Ludmila deu sorte. A "regra do dia" a favoreceu. Em cada uma das vezes em que a reportagem esteve nas unidades de saúde o critério foi diferente. Às vezes, incluía pessoas que poderiam ter sido imunizadas pelo critério da vacinação geral, mas não foram antes. No Paranoá, as vacinas que sobraram eram destinadas à Polícia Militar.

Na cidade de São Paulo, a regra é mais clara. Pessoas com mais de 50 anos podem se inscrever em uma lista de espera no posto mais próximo de onde moram ou trabalham. Caso haja sobra, elas recebem telefonemas.

O coordenador da força-tarefa do Ministério Público do Distrito Federal que acompanha a evolução da pandemia na unidade da federação, Eduardo Sabo, diz que preocupa a lentidão da vacinação no DF, sobretudo no critério da idade. "Existem vacinas que já vêm com um prazo de validade e não podemos ficar dependentes do público aparecer nos postos de saúde", disse.

Para a professora de Imunologia da UnB Anamelia Bocca, o DF tem um problema muito mais de logística para os agendamentos do que de disponibilidade de doses. "Nem toda a população está aderindo. As pessoas não estão indo por quê? Falta para o governo fazer ações específicas por grupo, campanhas de publicidade", afirmou. 

Governo diz que estratégia garante doses a toda a população

Questionado, o governo do DF respondeu que a estratégia garante doses a toda a população. A pressão pela vacinação mais rápida, porém, fez o governador Ibaneis Rocha acelerar o cronograma ontem, ampliando o agendamento para a faixa acima de 53 anos. 

"Não houve mudança de postura. Temos de lembrar que vários Estados usaram a dose reservada para a segunda aplicação como 1ª dose. Tem Estados que ficaram quase 50 dias sem aplicar a 2ª dose", disse o secretário da Casa Civil, Gustavo Rocha. 

Ontem, 98.710 unidades estavam guardadas para a 2ª dose, sendo 85.790 da AstraZeneca, cuja orientação do Ministério da Saúde é que não haja reserva.

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