TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Na cidade de SP, 56% dos adultos têm ao menos um fator de risco para covid-19 grave

Estudo da Unifesp mostra que, além de condições biológicas, nível de escolaridade apresenta forte impacto na prevalência de indicadores de risco

Ludimila Honorato, O Estado de São Paulo

24 de agosto de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) estimou a prevalência dos fatores de risco para covid-19 grave nos moradores da cidade de São Paulo, segundo características socioeconômicas e demográficas. Os resultados mostram que 56,4% da população tem maior chance de desenvolver complicações sérias da doença caso seja infectada, mas há diferenças significativas entre as regiões e quando se analisa o nível de escolaridade.

Entre os paulistanos sem educação formal, 86% tinham ao menos um fator de risco, ante 49% daqueles que iniciaram curso universitário. “Chama a atenção como vulnerabilidade socioeconômica está associada à biológica. Educação é um marcador de condição geral de vida, de alimentação pior, incidência de diabete, hipertensão. Pessoas com curso universitário iniciado provavelmente comeram melhor, se cuidaram para não ter hipertensão aos 40 anos”, comenta Beatriz Thomé, do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp e uma das autoras do estudo.

Os pesquisadores incluíram dados de 3.223 pessoas, com 18 anos ou mais, que participaram da pesquisa ISA-Capital, de 2015, que reúne as informações mais recentes dos moradores da cidade. Desse total, 47% eram homens, 66% tinham pelo menos educação secundária, 51% eram brancas e 54% viviam com menos de um salário mínimo.

Os critérios de risco para o agravamento da covid-19 incluíram pessoas de 65 anos ou mais ou com diagnóstico de doenças cardiovasculares, diabete, doenças respiratórias crônicas, hipertensão, câncer, histórico de AVC, obesidade, tabagismo e asma.

Publicado na última semana na Revista Brasileira de Epidemiologia, o estudo reforça alguns pontos já conhecidos sobre o novo coronavírus. No geral, os fatores de risco são mais prevalentes em idosos a partir dos 65 anos, mas há duas exceções importantes: obesidade e tabagismo são predominantes em adultos jovens, abaixo dessa idade.

Outro destaque da análise é que o sudeste da capital paulista, que compreende as subprefeituras da Mooca, Aricanduva, Vila Prudente e Ipiranga, tem a maior prevalência (59,8%) de pessoas com um ou mais fatores de risco para a covid-19 grave. Em seguida, vêm as regiões norte (58,7%) e sul (56%). Relativamente, a zona centro-oeste teve menor registro (53,8%), apesar da elevada proporção de idosos. “Esses resultados confirmam os de outros estudos, e os próprios dados da vigilância epidemiológica, que há distribuição diferente e concentrada em populações mais vulneráveis”, afirma Beatriz.

No começo de agosto, quando a cidade de São Paulo atingiu a marca das 10 mil mortes por causa do novo coronavírus, o Estadão publicou o perfil geral das vítimas. A análise, feita com 9.752 registros contabilizados até 29 de julho, mostrou que 55,8% dos óbitos são de pessoas com 70 anos ou mais e 21,4% tinham entre 60 e 69 anos.

Além disso, os 25 primeiros distritos com mais mortes estão nas zonas afastadas do centro da cidade, com um total de 4.109 óbitos (42,1%). Em primeiro lugar está Sapopemba, seguido por Jardim Ângela, Brasilândia e Capão Redondo. Todas são regiões onde a população é mais vulnerável em termos sociais, educacionais, econômicos e de saúde.

O estudo da Unifesp mostrou que a diferença de prevalência dos fatores de risco em homens e mulheres é pequena, mas o público feminino tem um pouco mais de risco. Apesar disso, dados nacionais e da capital paulista mostram que a mortalidade é maior no sexo masculino. Beatriz esclarece que o artigo assume que todos os fatores têm o mesmo peso, mas que, na vida real, isso pode não se refletir. “Se hipertensão, isoladamente, é mais significativo do que a idade, e se homens têm mais hipertensão, então eles que mais vão morrer.” Outras análises estatísticas seriam necessárias para compreender melhor os resultados.

Conclusões podem ajudar no planejamento de políticas na pandemia

Os dados do recente estudo da Unifesp foram analisados em maio, quando ainda se discutia no Brasil o tipo de isolamento social mais adequado, se amplo ou restrito. “Naquele momento, a gente queria fortalecer a importância do isolamento social, que fosse amplo. Uma das coisas que queria mostrar é que não só idosos estão sob risco”, explica a pesquisadora.

Segundo ela, uma das motivações da análise foi entender a dimensão das pessoas que têm fatores de risco que pudessem agravar a infecção pelo novo coronavírus. O segundo ponto foi entender as diferenças de mortalidade nas regiões. No Brasil e em outros lugares do mundo, existe o que ela chama de “bolsões”, onde a taxa de mortalidade é mais acentuada.

Beatriz afirma que os dados mostram que, embora fatores biológicos tenham peso, as condições socioeconômicas também contribuem para maior ou menor agravamento da covid. Conhecendo melhor as informações, juntamente com outras descobertas, é possível adotar medidas mais acertadas. “Dados como esse ajudam na gestão de recursos, de leitos hospitalares e, de forma mais ampla, levam a refletir sobre a situação de iniquidade das condições de saúde da população.”

A divulgação do estudo agora coincide com outro momento da pandemia, a reabertura gradual do comércio. “Tem de saber que há grupo importante de pessoas que poderia evoluir para doença mais grave. A maioria não vai, mas é importante para tentar definir quem estaria com maior probabilidade”, diz a médica.

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