Gerard Julien/ AFP
Gerard Julien/ AFP

Na contramão dos EUA, Ministério da Saúde amplia recomendação de cloroquina para grávida e criança

Órgão americano alertou nesta segunda-feira para riscos do uso de medicamento para pacientes de covid019

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 19h31

BRASÍLIA - No mesmo dia em que os Estados Unidos retiraram a autorização de emergência de tratamento com a cloroquina e hidroxicloroquina contra a covid-19, o Ministério da Saúde estendeu a recomendação de uso da droga para gestantes e crianças.

A orientação para estes grupos, a partir desta segunda-feira, 15, é para prescrição destes medicamentos, associados ao antibiótico azitromicina, mesmo para casos leves. Não há evidência científica sobre eficácia da cloroquina contra a covid-19. O presidente Jair Bolsonaro é defensor deste tratamento e dois ministros da Saúde já deixaram o governo por, entre outros motivos, se opor ao uso amplo da droga.

O ministério deve atualizar nota informativa divulgada em 20 de maio sobre a cloroquina. O documento não é um protocolo, ou seja, não dita regras no SUS nem passa a autorizar procedimentos antes proibidos, mas tem forte poder político. Um dos pilares para elaborar o protocolo é a comprovação científica da eficácia da droga – o que não existe.

Mesmo antes do posicionamento do ministério, médicos já vinham receitando a cloroquina nas redes privada e pública de forma "off label", fora das recomendações da bula. Para dar respaldo a esta situação, mas sem seguir recomendações científicas, o Conselho Federal de Medicina (CFM) decidiu, no fim de abril, livrar de infração ética o profissional que prescrever a cloroquina contra a covid-19.

A Secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, afirmou nesta segunda-feira, 15, que gestantes e crianças são grupos de risco para a doença, e por isso foram incluídos na recomendação. Ela disse que o ministério deve orientar uso da cloroquina e de outros medicamentos na atualização da nota, ainda não divulgada. 

Pinheiro minimizou a decisão dos EUA sobre a cloroquina, tomada por meio da Food and Drug Administration (FDA), espécie de Anvisa. Segundo a secretária, a agência se baseou em "trabalhos de péssima referência metodológica". A secretária disse ainda que a agência só permitia uso para casos graves, enquanto no Brasil a recomendação é do uso precoce. 

Pinheiro ainda sugeriu, sem mostrar evidências, que a mudança de discurso do ministério sobre a cloroquina, feita no fim de maio, fez a curva de casos no País e a taxa de ocupação de leitos de UTI baixarem. "Não podemos afirmar com segurança que se deve a Estados e municípios que usaram prescrição, mas há indícios", disse.

Também sem mostrar evidências sólidas ou apontar benefício do distanciamento social, Pinheiro disse que a Índia teve resultados benéficos por adotar de forma preventiva o uso da cloroquina, o que ainda não é feito no Brasil.

Para o médico, advogado sanitarista e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Daniel Dourado, é "inacreditável" que o ministério dobre a aposta no uso da cloroquina, ampliando a orientação de uso, no mesmo dia da decisão dos EUA contrária ao tratamento.

"Sem nenhuma base científica, sem comprovação de segurança e eficácia. No mesmo dia em que a agência FDA cancelou até mesmo a autorização emergencial para esse tipo de uso, concluindo que não é mais razoável acreditar que essas drogas possam ser eficazes no tratamento da covid-19 e nem que os seus benefícios potenciais possam superar seus riscos conhecidos e potenciais", disse.

O uso da cloroquina contra a covid-19 também é rejeitado por três das principais entidades médicas e científicas nacionais. A Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia  assinam documento no qual recomendam não usar estas drogas como tratamento de rotina da doença.  

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