Brian Snyder/Reuters
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Na corrida pela vacina para covid-19, apenas um estudo está na fase de testagem maciça

São 136 candidatos no total pelo mundo, sendo dez em fase clínica, com testes em humanos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2020 | 05h01

 

A parceria do Instituto Butantã com o laboratório chinês Sinovac, anunciada na quinta-feira pelo governo de São Paulo, para testar e produzir uma vacina contra o coronavírus assim que ela existir, representa mais uma etapa da corrida pela vacina no mundo. Entre as 136 candidatas em estudo atualmente, dez estão em fase clínica, com testes em humanos, e apenas uma já se encontra na fase 3, o momento de testagem maciça. Mesmo com o ritmo acelerado das pesquisas, especialistas preveem que campanhas de vacinação, depois que o imunizante for encontrado, devem ficar para o ano que vem.

Atualmente, três pesquisas - Reino Unido, China e Estados Unidos - lideram a corrida. Cientistas explicam que dizer que uma vacina é a mais promissora ou é a mais adiantada significa que ela se mostrou eficaz em mais etapas dos testes pré-clínicos (animais) e clínicos (humanos). Mas não significa necessariamente que ela seja a mais próxima de ser bem-sucedida. “Quanto mais vacinas investigadas em estágios avançados, melhor. Ela vai ser necessária no mundo todo. Existe muita pressa, mas tudo tem de ser feito de acordo com os protocolos de pesquisa”, opina a infectologista Rosana Richtmann do Instituto de Infectologia Emilio Ribas. 

A vacina da Universidade de Oxford, no Reino Unido, está na fase mais avançada das testagens. Ela vai aferir a eficácia em pelo menos 10 mil pessoas a partir do final do mês de junho. É o momento decisivo para testar sua eficácia. A vacina é feita a partir de um vírus (adenovírus) atenuado da gripe comum que infecta macacos. Esse vírus serve de vetor para levar ao organismo humano uma cópia produzida em laboratório de uma proteína presente no novo coronavírus. A ideia é que o organismo comece a produzir anticorpos capazes de reconhecer e atacar o vírus verdadeiro em caso de uma infecção real.

A vacina do laboratório Sinovac, parceira do Instituto Butantã, vai entrar na fase três de testes no mês de julho. Rosana Richtmann esclarece que ela utiliza uma tecnologia clássica, já conhecida. A vacina é formada pelo vírus Sars-CoV-2 isolado, multiplicado e inativado no laboratório chinês.

O microbiólogo e virologista Rômulo Neris, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a ideia das vacina é apresentar para o organismo pedaços ou agente infeccioso inteiro antes da infecção para que o nosso sistema imune desenvolva uma memória imunológica e consiga gerar uma resposta mais rápida quando a gente for de fato infectado. A urgência para o combate à covid-19, no entanto, estimula o desenvolvimento de novas tecnologias, como é o caso da empresa de biotecnologia Moderna.

Em parceria com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a companhia anunciou testes preliminares positivos em ensaios clínicos que começaram em março. Faltam, no entanto, os testes em larga escala, que devem ser realizados em também em julho. A estratégia envolve um segmento de material genético do vírus chamado RNA mensageiro ou mRNA. O RNA (ácido ribonucleico ou uma espécie de "parente" do DNA) também aparece em células humanas saudáveis, mas, em muitos vírus, como o HIV ou o novo coronavírus. As pesquisas tentam modificar o RNA mensageiro e fazê-lo “comandar” a célula para produzir outras substâncias, mais benéficas para a resposta do corpo ao vírus.

Considerando-se o êxito de todas as próximas etapas de testes, especialistas apontam que a vacina da Oxford, a mais adiantada, deve iniciar a produção em larga escala até o final do ano. Isso abriria a possibilidade de disponibilização de uma vacina a partir de abril do ano que vem.

“Trata-se de um cenário otimista”, diz a infectologista Cristiana Toscano. “Além das etapas de desenvolvimento, existem fases importantes de ampliação da capacidade produtiva, como o processo regulatório de registro e licenciamento, política e estratégia de vacinação e distribuição de vacina nos países. Estamos falando de bilhões de doses”, completa a representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) em Goiás e professora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás.

Cristiana está diretamente envolvida nas pesquisas por uma vacina contra o coronavírus. Ela é única representante da América do Sul a integrar o Grupo de Trabalho de Vacinas para covid-19 do Grupo Estratégico Internacional de Experts em Vacinas e Vacinação (SAGE), da Organização Mundial da Saúde. A especialista terá o papel de revisar, junto com os outros 14 componentes do grupo de trabalho, as evidências disponíveis sobre o progresso das vacinas candidatas contra a doença e definir estratégias e planos sobre o uso acelerado de vacinas (pré e pós-licenciamento).

Rosana Richtmann concorda que as perspectivas apontam para campanhas de vacinação apenas no ano que vem. “Sou otimista e acredito que tenhamos uma vacina eficaz até o final do ano. Ter produção suficiente para a vacinação para a população deve acontecer no primeiro semestre de 2021”.

Testes no Brasil

A vacina que integra a parceria com o Instituto Butantã é a segunda que será testada no País. A outra integra a parceria da Universidade de Oxford (Reino Unido) com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e o Instituto D'or, que será responsável pelas testagens no Rio de Janeiro. Serão mil voluntários em São Paulo e outros mil no Rio de Janeiro, os dois estados que concentram a maioria dos casos brasileiros. 

Rosana Richtmann explica que o Brasil foi escolhido porque a epidemia ainda está em ascensão por aqui, diferentemente do que ocorre no Reino Unido ou na China, por exemplo. “Infelizmente, o Brasil é o melhor lugar para testes de pesquisas atualmente. Na China, os resultados demorariam muito mais", diz. 

O Brasil integra o programa ACT Accelerator, iniciativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) que visa tornar mais rápidos o desenvolvimento, a produção e o acesso a diagnósticos, medicamentos, tratamentos, testes e vacinas contra a covid-19. 

A preocupação com outras vacinas

Mesmo com a crise do coronavírus, interromper a vacinação rotineira contra outras doenças, em especial de crianças menores de 5 anos, gestantes e outros grupos de risco, pode levar ao aumento de casos de doenças imunopreveníveis e ao retorno de outras que haviam sido eliminadas ou controladas. Isso pode ter consequências podem ser mais graves do que as causadas pela pandemia. Por essa razão, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Unicef lançam neste sábado a cartilha digital "Pandemia covid-19: o que muda na rotina das imunizações".

O material é parte da campanha “Vacinação em dia, mesmo na pandemia”, que busca conscientizar especialistas e o público em geral sobre a importância da vacinação no período. A iniciativa inclui ações nos sites e redes sociais das instituições participantes.

Nesse contexto, 19 estados brasileiros registram circulação ativa do sarampo, destacando-se o Pará, com 40,9% dos casos. De acordo com a OMS, o sarampo infectou em 2018 quase 10 milhões de pessoas e matou mais de 140 mil, a maioria crianças menores de 5 anos. A febre amarela também preocupa. Há casos em mais de 50 municípios dos estados do Paraná (principal foco), São Paulo, Santa Catarina e Pará. “A pandemia de covid-19 é uma situação inédita para a nossa geração. No entanto, outras infecções graves continuam a circular. A meningite bacteriana, por exemplo, pode levar à morte em poucas horas. Não podemos nos descuidar”, alerta Cristina Albuquerque, chefe da Área de Saúde e HIV/AIDS do Unicef no Brasil.

O presidente do Departamento de Imunizações da SBP e membro da Comissão Técnica para Revisão dos Calendários Vacinais da SBIm, Renato Kfouri, lembra que o Brasil já vinha de um movimento de queda progressiva nas coberturas vacinais. A consequência mais imediata foi a perda, em 2019, do certificado de eliminação do sarampo, conquistado pouco menos de três anos antes.

“A volta do sarampo foi um retrocesso inaceitável e frustrante para todos que atuaram ao longo de décadas para alcançar a conquista. Agora, temos um longo caminho a percorrer. Esperamos que a publicação venha contribuir para que o mesmo não aconteça com outras enfermidades, como a poliomielite, por exemplo”, afirma.

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