MASSIMO PINCA / REUTERS
MASSIMO PINCA / REUTERS

Na Itália, coronavírus lota hospitais e transforma médicos em pacientes

Autoridades da saúde na linha de frente da batalha contra o coronavírus disseram que o sistema de saúde do país chegou no seu limite

Loveday Morris, The Washington Post

04 de março de 2020 | 12h33

LODI, ITÁLIA - Um médico afirmou que o coronavírus atingiu como “um tsunami” o hospital onde trabalha e onde mais de 100 das 120 pessoas admitidas infectadas com o vírus também desenvolveram pneumonia. Outro hospital vizinho tem escassez de profissionais uma vez que os médicos agora se tornaram também pacientes.

Em mais de uma dezena de entrevistas, médicos, virologistas e autoridades da saúde na linha de frente da batalha da Itália contra o coronavírus disseram que o sistema de saúde chegou no seu limite – situação que outros países deverão enfrentar à medida que o vírus se propaga.

Num esforço para resolver o problema, a Itália vem formando enfermeiros rapidamente e convocando trabalhadores da área médica já aposentados. Os hospitais nas regiões mais atingidas pelo vírus vêm postergando cirurgias não urgentes e lutando para aumentar em 50% o número de leitos nas unidades de tratamento intensivo.

“Este é o pior cenário que vi até hoje”, afirmou Angelo Pan, chefe da unidade de doenças infecciosas no hospital de Cremona, observando que há uma prevalência de casos de pneumonia. Segundo afirmou, 35 pacientes no seu hospital necessitam ser entubados ou de ventilação mecânica para conseguirem respirar.

A Itália vem realizando testes extensivos do coronavírus, incluindo casos de pessoas que não manifestam sintomas da doença. Desde a tarde de terça-feira, 2.263 pessoas tiveram teste positivo. Dessas, 1.263 foram hospitalizadas, incluindo 229 em tratamento intensivo. E 79 pessoas morreram.

Especialistas afirmam que, embora muitos casos do Covid-19, no geral, sejam mais brandos, regiões no norte da Itália registram situações mais severas porque a região tem uma grande população de idosos com uma alta incidência de câncer e outros problemas de saúde – o segmento mais vulnerável à doença.

“A situação é bem ruim no epicentro da epidemia”, indicou Giovanni Rezza, diretor do departamento de doenças infecciosas no Instituto Nacional de Saúde da Itália. “Temos uma população muito idosa que necessita de suporte e assistência hospitalar e é uma sobrecarga muito grande para os hospitais nessa área”.

Do mesmo modo que o cluster no Estado de Washington, os virologistas acreditam que o vírus vinha se propagando silenciosamente no norte da Itália sem que as pessoas percebessem. O italiano de 38 anos que foi o primeiro a testar positivo para o vírus, na região da Lombardia, e permanece em tratamento intensivo, não viajou para o exterior, e os médicos de início o enviaram para casa.

Uma vez que o Covid-19 se manifestou, os hospitais na região rapidamente se viram inundados de casos. E nessa ocasião, dezenas de médicos e atendentes hospitalares foram infectados. “A lição é que você precisa intervir muito rapidamente e de maneira muito incisiva”, disse Rezza. “Do contrário, terá uma grande sobrecarga da doença que vai colocar em risco o sistema de saúde. Não podemos transigir”.

Embora criticadas por demorar a detectar o primeiro caso, as autoridades de saúde italianas adotaram medidas decisivas, isolando 50 mil pessoas e testando milhares, num esforço para conter a propagação do vírus. Eles esperam que as medidas adotadas comecem a dar resultado no fim da semana. Mas Reza disse que as restrições de movimento e reuniões poderiam ser ampliadas para mais de duas semanas, como previsto, de modo a se avaliar melhor se estão funcionando, ao passo que a área de isolamento também tinha de ser expandida.

Para ele, embora a contenção do vírus não seja possível neste estágio, é importante desacelerar sua circulação. “A pior situação é ter muitos casos num único lugar”.

Foi este o caso na cidadezinha de Lodi, a pouco mais de 30 quilômetros distante de Milão, onde dois andares do hospital foram separados para atender 250 pacientes de coronavírus, com 70 deles em situação grave. Os médicos afirmam ter tratado a epidemia como um “evento com vítimas em massa”, que piorou diante do fato de que médicos e atendentes também foram atingidos pelo vírus.

“Este hospital conseguiu funcionar numa situação bastante complexa. Médicos, atendentes de enfermagem, técnicos, também foram infectados e foram obrigados a permanecer em casa”, explicou.

Segundo as autoridades de saúde italianas, 10% do corpo médico na região da Lombardia foram infectados. Costantino Troise, diretor do sindicato de médicos Anaao Assomed, afirmou que os funcionários da área médica representam 5% das infecções na Itália e que cortes de financiamento recentes significam que, mesmo antes de o vírus surgir, o país já enfrentava uma escassez de milhares de médicos e enfermeiros.

Médica vira paciente

No hospital de Lodi, a dra. Francesca Reali, de 43 anos, agora é paciente, tendo contraído o vírus. Segundo informou, os sintomas foram leves, embora mais intensos do que uma gripe. Ela acredita que contraiu o vírus dias antes de ficar constatado que ele estava presente na comunidade e ela estava trabalhando sem nenhuma proteção extra.

Tossindo enquanto falava ao telefone, Massimo Vajani, diretor da associação médica local, disse ter sido testado para o coronavírus há cinco dias e aguardava o resultado. Três dos quatro médicos de família na cidade de Castiglione d’Adda, na Lombardia, estavam em quarentena. “Precisamos de mais médicos e enfermeiros”, afirmou. E acrescentou que os médicos estão fazendo o máximo possível para ajudar os pacientes remotamente. “Acho que o sistema dará conta, mas depende de como as coisas vão evoluir nos próximos dias”.

Embora tratamentos quimioterápicos continuem, cirurgias não urgentes foram retardadas e o serviço de ambulatório de HIV foi temporariamente suspenso.

No hospital em Lodi, Giovanna Cardarelli visitava seu pai de 92 anos, internado com problemas cardíacos pouco antes da eclosão da epidemia.

Ele não pode ser transferido para ala cirúrgica como sua condição de saúde requer, enquanto não for testado negativo para o vírus, uma vez que outros hospitais estão preocupados com o contágio. “Não estou acusando ninguém, mas é muito estressante”, lamentou, removendo o jaleco hospitalar e a capa de proteção dos sapatos na porta e lavando as mãos. “Já se passaram duas semanas. Ele está muito deprimido e estamos todos muito cansados”. / Tradução de Terezinha Martino.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.