Nando Carvalho
Nando Carvalho

Na linha de frente, médicos e enfermeiros relatam apreensão no trabalho e em casa

Profissionais de saúde adotam estratégias de quarentena e cuidados antes de encontrar a família; também há denúncias de falta de equipamentos de proteção contra o coronavírus

Gonçalo Junior e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2020 | 15h00

Na linha de frente no combate ao novo coronavírus, médicos e enfermeiros confessam medo, insegurança e apreensão com o avanço da doença. Eles não temem apenas o próprio contágio, mas também a transmissão para a família - o que faz mudar até a rotina dentro de casa. Além disso, os profissionais da saúde se queixam de falta de materiais, como luvas, máscaras e álcool gel, em algumas unidades hospitalares.

Os índices de contaminação entre os profissionais de saúde é alto. A Federação das Ordens dos Médicos Cirurgiões e Dentistas da Itália, país com maior número de casos na Europa, criou um site em homenagem aos “mortos em combate”. Já são 17 os médicos mortos pela covid-19 no país europeu. No Brasil, não foram registrados óbitos de profissionais de saúde. 

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O cirurgião de coluna Luiz Cláudio Rodrigues, do Hospital Santa Marcelina, também usa a metáfora da guerra. “Estamos em uma guerra e fomos convocados. Não temos opção de dizer 'não'. A informação que a população recebe é a mesma que temos”, conta.

O Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira orientaram os profissionais que atuam com questões não urgentes, como cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais, a fecharem seus consultórios. Foi o que aconteceu com Marcus Yu Bin Pai, especialista em Dor e Acupuntura. “Existe desinformação e incerteza. Existe grande temor de contaminação entre os médicos que atuam nos prontos socorros e hospitais."

Quando é possível, os próprios médicos adotam para si uma espécie de quarentena. Aos 71 anos, o oncologista Artur Malzyner, consultor científico da Clínica de Oncologia Médica (Clinonco) e médico do Hospital Albert Einstein, afirma passar 90% do tempo em casa. “Temo a contaminação sim. Os médicos que acabaram falecendo não são poucos. Mudei radicalmente minha rotina. Só vou ao consultório quando é essencial. Parei de praticar esportes e estou comendo em casa”, diz o especialista.

A preocupação também se estende a enfermeiros. “Nosso ambiente de trabalho está tenso, pois estamos tendo conflitos. Os médicos estão assustados e cobram mais de nós”, diz uma enfermeira que atua em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na zona leste de São Paulo. “O que mudou na nossa rotina foi trabalhar com medo. O medo de se contaminar ou contaminar nossos famíliares."

Uma funcionária do Hospital Nove de Julho, na região central, repete a palavra “medo”. Reclama da demora para a distribuição de máscaras entre profissionais. Segundo ela, só na semana passada os colaboradores da enfermagem, recepção, manobristas começaram a usar o equipamento de proteção individual.

“Ouvimos que não era para usar a máscara para não 'espantar' os clientes. Agora, liberaram o uso”, afirma. A instituição rebate. “O hospital tem seguido todos os protocolos recomendados pela Organização Mundial de Saúde e Ministério da Saúde no combate ao coronavírus. As medidas tomadas incluem implantação de fluxos e procedimentos que garantam a segurança de pacientes, visitantes e equipes multiprofissionais, como o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual – EPIs”, diz o Nove de Julho, em nota.

Reclamação semelhante sobre falta de EPIs foi identificada no Hospital Santa Marcelina, na zona leste. “Equipes de enfermagem usam a mesma máscara o dia todo. A direção reclama do uso de muito álcool em gel”, conta uma profissional. “Recebi bronca ao usar uma máscara e disseram que era para causar alvoroço." O hospital não respondeu ao pedido de esclarecimento da reportagem.

Rogério Medeiros, coordenador nacional da Rede Saúde Filantrópica, entidade que reúne as Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas do Brasil, afirma que a falta de materiais é parcial. “Ninguém trabalhava com estoque para esse tipo de demanda. Já existem programações de compra. A primeira semana é de desespero. O uso foi indiscriminado. Se a gente entrar nas unidades SUS, não tem máscara e álcool gel. Mas já não havia antes. As prefeituras já estavam com problemas financeiras. Outra questão atual é o superfaturamento dos produtos."

Sindicato de médicos recebe 43 denúncias em quatro dias

Ao menos 43 denúncias de falta proteção adequada para profissionais de saúde durante a pandemia do coronavírus foram registradas desde terça-feira, 17, no Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp). A maioria das queixas envolve principalmente a falta de EPIs, como máscara facial, óculos, gorro, avental e luvas, em instituições tanto da rede pública quanto da privada.

No caso da rede privada, há denúncias que envolvem os Hospital Sírio Libanês e São Camilo, ambos na capital, que não estariam disponibilizam EPIs suficientes. Além disso, no caso do primeiro, um profissional ainda se queixou que médicos estão sendo “jogados na linha de frente sem o necessário suporte”. As duas instituições negam o conteúdo das denúncias e dizem ter insumos e equipamentos suficientes. 

O sindicato cogita procurar o Ministério Público e até entrar com ações na Justiça. “A gente vê que a rede de saúde já tinha uma série de problemas antes. Com o coronavírus, era de se esperar que esses problemas da rede, de falta de insumos e medicamentos, ficariam mais graves.”, diz Eder Gatti, presidente do Simesp. Na terça-feira, 17, o Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo divulgou comunicado em que diz estar "temeroso" sobre o fornecimento de EPIs adequados e pede o afastamento de profissionais em grupos de risco.  

No hospital, desaparece o café em grupo e surge o silêncio

Alguns hospitais estão adotando regras rígidas com a prevenção dos funcionários. No Albert Einstein, que tem 20 casos de pacientes hospitalizados com coronavírus, os cuidados com profissionais foram intensificados. É preciso usar a máscara no momento em que o funcionário entra no hospital. Ela deve ser substituída a cada duas horas; a lavagem das mãos é constante. Casos com sintomas respiratórios evidentes são isolados imediatamente para avaliação. Em caso positivo para coronavírus ou influenza, quarentena de 14 dias. Não há dados sobre o número de funcionários afastados.

A chegada do coronavírus mudou os hábitos de socialização no hospital. São raros os momentos de pausa para o café em grupo. Uma das funcionárias conta que não há choro em público nem grandes momentos de desespero, mas as pessoas trabalham em silêncio. “A notícia do aumento de casos ou da contaminação de algum colega de trabalho deixa todo mundo ainda mais abatido. O silêncio fica mais pesado”.

A relação com os chefes também mudou. “Estão preocupados em informar, explicar quais são as fake news, mas fazem questão de manter a distância na hora da conversa”, diz uma enfermeira. Os setores que estão tendo atividades reduzidas estão remanejando seus colaboradores. A escala de folgas, por enquanto, não foi alterada.

Na volta pra casa, de olho na proteção

Além do receio de contaminação, os profissionais de saúde também se preocupam em não levar o vírus para casa. Quando volta para casa, Luiz Cláudio Lacerda Rodrigues tira os sapatos e passa direto para a lavandeira. O médico de 42 anos coloca para lavar toda a roupa que usou durante o dia. Tudo separado das outras peças. Em seguida, vai tomar banho. Só depois, ele abraça e beija a mulher Glayce e os filhos, Luiz Felipe, de 18 anos, e Julia, de 9 anos. Antes não era assim. O abraço na família era obrigatório logo na chegada. Praticamente todos os profissionais ouvidos pelo Estado relatam hábitos semelhantes após o coronavírus.

Uma enfermeira do Hospital Nove de Julho tomou uma atitude radical: decidiu usar as economias para alugar um apartamento e ficar longe dos pais por dois meses. Ela está indo para o Jabaquara enquanto o pai, de 62 anos, e a mãe, 56, vão continuar na zona norte. O aluguel de R$ 1100 não vai pesar no orçamento. No último ano, ela vinha guardando toda renda extra mais 30% do salário religiosamente. Seu projeto era comprar uma apartamento novo. “Eu, enfermeira profissional, não posso cuidar deles de perto, mas elimino uma possível culpa caso algo acontecesse a eles”, explica a enfermeira.

Aplauso coletivo

Na noite desta quinta-feira, 19, brasileiros foram às suas janelas para aplaudir os profissionais da área de saúde pelo seu trabalho na linha de frente da luta contra o covid-19. O movimento foi convocado por internautas nas redes sociais e também por meio de mensagens no aplicativo Whatsapp usando a hashtag #aplausosnajanela.

Algumas cidades já realizaram o ato e uma nova convocação havia sido feita para esta sexta-feira. O texto de convocação diz que “enquanto estamos protegidos em casa, os profissionais da saúde estão enfrentando essa crise onde muitos estão se contaminando”. As características do ato são as mesmas: abrir as janelas de casa, varandas e portas, para um longo aplauso aos médicos, enfermeiras e outros profissionais de saúde que combatem a doença.

“O povo brasileiro bate palmas para os trabalhadores e trabalhadoras da saúde que estão na linha de frente da luta contra o coronavírus. Que demonstração de reconhecimento social. O Brasil tem jeito!”, escreveu Juliano Medeiros nas redes sociais.

O movimento ganhou o apoio de artistas, como a cantora Preta Gil. “Aplausos para os profissionais de saúde que estão bravamente cuidando de nós. Salva de palmas #profissionaisdasaude”, escreveu a cantora nas redes sociais.

O movimento começou na Itália, país com maior número de vítimas na Europa. Na tarde de sábado, 14, eclodiu uma salva de palmas em todo o país para os médicos que estão na linha de frente da batalha contra a epidemia. Os italianos continuam numa espécie de prisão domiciliar com as restrições extraordinárias decretadas para evitar o contágio. A ação também se repetiu nas janelas da Espanha e de Portugal, também motivada pelas redes sociais.  

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