Reprodução / Redes Sociais
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Na mira da CPI, médico olavista ganha espaço no Ministério da Saúde e busca ‘nova cloroquina’

Secretaria comandada por Hélio Angotti, responsável pelo acompanhamento de pesquisas em saúde e articulações com o complexo industrial do setor, é considerada estratégica pelo governo federal

Mateus Vargas, BRASÍLIA

21 de abril de 2021 | 20h00

Possível alvo da CPI da covid-19 no Senado, o médico Hélio Angotti Neto chegou a entrar na lista de demissões do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mas segue na pasta, e mais forte. Com apoio do presidente Jair Bolsonaro, o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos (SCTIE) agora trabalha para emplacar uma “nova cloroquina” como bandeira do governo federal. 

Seguidor do escritor Olavo de Carvalho, tido como "guru do bolsonarismo", e entusiasta do “tratamento precoce”, Angotti deve ser questionado pelos senadores justamente sobre o incentivo do ministério ao uso de medicamentos sem eficácia contra a covid-19.

As especulações sobre a demissão de Angotti foram encerradas no último dia 8, quando o médico participou de uma live ao lado de Bolsonaro. Ambos estavam sem máscaras. Dias antes, o secretário chegou a se despedir de sua equipe, mas o novo ministro da Saúde desistiu da troca, segundo apurou o Estadão. Na leitura de auxiliares de Queiroga, pesou o bom relacionamento de Angotti com Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O secretário e o deputado participaram de comitiva do governo brasileiro que foi a Israel, em março, para conhecer estudos sobre um spray nasal experimental contra a covid-19.

Além de ter sido mantido no cargo, Angotti ganhou uma queda de braço dentro do Ministério da Saúde. No dia seguinte à live com Bolsonaro, a farmacêutica e servidora de carreira da pasta Camile Sachetti foi exonerada do cargo de diretora de Ciência e Tecnologia do ministério, área que lida com o fomento à pesquisa.  

Sachetti e Angotti têm posições opostas sobre o uso de medicamentos como a cloroquina. Questionado por representantes de entidades científicas, Queiroga tentou minimizar a demissão, afirmando que Sachetti, na verdade, iria se tornar assessora direta do ministro. A nova função, porém, não foi aceita. A exoneração é atribuída ao secretário Angotti.

Próximo de completar um mês como ministro, Queiroga mantém intacta a ala de secretários que defende o uso de medicamentos sem eficácia. A médica Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), conhecida como “capitã cloroquina”, também compõe o grupo. Ela e Angotti devem ser chamados à CPI no Senado, segundo um roteiro preliminar de trabalhos da comissão. O secretário de Atenção Primária à Saúde (Saps), Raphael Parente, é associado a esta ala, mas não é defensor desses medicamentos.

Bolsonaro se aproximou de Angotti no momento em que o governo busca uma “nova cloroquina”. O médico esteve em Israel, no começo de março, junto de outros membros do governo, para conhecer o EXO-CD24, um spray nasal que está em fase inicial de testes contra a covid-19. O produto havia sido tratado como “milagroso” por Bolsonaro, mas o grupo voltou ao Brasil sem a esperada assinatura de carta de intenções para participar dos estudos.

Outra opção de nova bandeira do governo foi apresentada por Angotti durante a live com Bolsonaro: a proxalutamida. O médico disse que a droga se mostra “muito promissora”. Em março, um grupo de pesquisadores apresentou dados de estudo com o medicamento feito no Amazonas, que ainda não foi detalhado em artigo científico ou analisado por cientistas independentes. Ao lado de Bolsonaro, Angotti afirmou que há conversas com a Fiocruz para levar a pesquisa à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Especialistas consultadas pelo Estadão Verifica disseram que ainda é cedo para afirmar a eficácia do medicamento e pedem mais informações do estudo.

Angotti chegou à cúpula da Saúde em junho de 2020, na gestão do ex-ministro Pazuello. Ele foi indicado ao cargo pela secretária Mayra Pinheiro e já atuava na pasta em cargo de menor poder. A promoção de Angotti reforçou a ala conservadora, tida como "bolsonarista raiz" dentro do ministério.

A secretaria comandada pelo médico olavista é considerada estratégica pelo governo federal. Além de acompanhar pesquisas e novas tecnologias em saúde, a pasta comanda o complexo industrial do setor. O secretário lida, por exemplo, com as parcerias bilionárias entre laboratórios públicos e privados para a produção de medicamentos, chamadas de PDPs.

Pazuello teve divergências com Angotti e Mayra Pinheiro durante a sua gestão. Ele se queixava a auxiliares de que o grupo conduzia uma "agenda própria" dentro da Saúde. Em setembro, o Estadão revelou que a pasta planejava um "dia D" para o "tratamento precoce", com reforço de estoques e distribuição de cloroquina. Apesar de também ser defensor dos medicamentos sem eficácia, a divulgação do evento irritou o general, que atribuiu, nos bastidores, a iniciativa à ala composta por estes secretários.

Em discurso de despedida da Saúde, no fim de março, Pazuello ligou a sua demissão a um complô de políticos interessados em verba pública e "pixulé", além de médicos de dentro do ministério que espalharam boatos de que o general era contra a cloroquina. Na leitura de auxiliares de Pazuello, o segundo recado foi direcionado às equipes de Angotti e Pinheiro, que teriam levado a Bolsonaro uma frágil nota técnica defendendo o "tratamento precoce".

Bandeira do governo

Logo no começo da pandemia, o presidente Bolsonaro elegeu a cloroquina e a hidroxicloroquina como apostas do governo federal contra o vírus. Mesmo sem eficácia comprovada, o laboratório do Exército turbinou a sua produção e o País ainda conseguiu uma doação de 3 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina dos Estados Unidos e da farmacêutica Sandoz - mais de 2,5 milhões seguem encalhados.

Em julho, Angotti encabeçou discussões para inserir medicamentos hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina por meio do Farmácia Popular, como revelou o Estadão. Orçada em R$ 250 milhões, a iniciativa não prosperou, mas poderia desfigurar o programa que distribui medicamentos para controle de doenças crônicas gratuitamente ou com até 90% de desconto.

As drogas do "kit covid" caíram em descrédito e o governo passou a ser criticado e investigado por incentivar o tratamento, principalmente após janeiro. Neste mês, uma comitiva do Ministério da Saúde, liderada por Pazuello e Pinheiro, levou 130 mil comprimidos de hidroxicloroquina ao Amazonas, quando o Estado já entrava em colapso pela falta de oxigênio medicinal. Na mesma viagem, a equipe do general lançou o TrateCov. Como mostrou o Estadão, o aplicativo indicava cloroquina até mesmo a um recém-nascido que apresentava náusea e dor de cabeça.

Procurado, o Ministério da Saúde não se manifestou.

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