Daniel Teixeira/Estadão
 Michelle Ito, de 35 anos, passou a meditar durante a quarentena com ajuda de vídeos no YouTube. Daniel Teixeira/Estadão

Na pandemia, buscas por meditação no Google batem recorde

Impacto da pandemia nas rotinas, aumentando o estresse e a ansiedade, faz procura de técnicas como mindfulness crescer até 4.000%

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 15h10

Em meio à pandemia da covid-19, que levou a uma situação de isolamento social e mudanças no ritmo de vida, as buscas pelos termos meditação e mindfulness (ou atenção plena) atingiram o recorde dos últimos 16 anos, segundo levantamento do Google. Em relação ao ano passado, a pergunta “como fazer meditação para ansiedade” cresceu 4.000% e o aumento de “benefícios da meditação” chegou aos 200%.

Especialistas nas práticas ouvidos pelo Estadão afirmam que as pessoas estão procurando formas para lidar com as aflições que têm surgido no período e encontram, nos métodos, técnicas para tentar manter a calma, diminuir o estresse e focar nas atividades que precisam ser realizadas.

“Há uma sensação de necessidade de buscar alguma ferramenta para lidar com esse momento que é estressante para todos, porque houve mudança de padrão de vida. Aqueles que já conheciam e não estavam fazendo com regularidade, voltaram. E muitas pessoas foram buscar informação. Acho que a curva é ascendente”, diz o médico especialista em mindfulness Marcelo Demarzo, coordenador do Centro Mente Aberta, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

De acordo com o Google, as buscas por “como ser uma pessoa mais calma” tiveram um aumento de 3.250% em relação ao ano passado. “Espairecer a mente” cresceu 400%. “Muitos temas dispararam nas buscas durante a pandemia, e o bem-estar físico e mental foi umas das verticais em que esse salto ficou bem claro. As medidas de distanciamento social criaram uma nova rotina na vida das pessoas e elas precisaram se acostumar a novos hábitos, horários e precisaram encontrar novas maneiras de executar determinadas atividades”, avalia Marco Túlio Pires, diretor do Google News Lab no Brasil.

Cursos online

Ante a necessidade de distanciamento por causa da covid-19, também cresceu um movimento de cursos online e lives, que atraíram pessoas interessadas em saber mais sobre o tema. “Com a pandemia, as pessoas viram outras possibilidades. Ao mesmo tempo, há uma melhor compreensão sobre o assunto, de entender mindfulness ou atenção plena como estado psicológico”. Segundo ele, o estado de mindfulness não é concentração, é um estado de estar consciente do que está acontecendo neste momento. De acordo com o médico, o aumento de buscas pelo curso online de oito semanas foi de 50% no período.

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Há uma necessidade de buscar alguma forma para lidar com este momento porque houve mudança no padrão de vida
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Marcelo Demarzo, coordenador do Centro Mente Aberta, da Unifesp

Líder de marketing de uma empresa de tecnologia, Michelle Ito, de 35 anos, já tinha familiaridade com a meditação, mas tinha dificuldade de praticar. “Trabalhando em casa, o nível de ansiedade aumentou. Faço ioga há três anos e a professora começou a fazer meditações guiadas aos domingos logo no começo da pandemia. Isso já ajuda a começar a semana bem.”

As técnicas também foram incorporadas no dia a dia. "Antes, tinha como dar uma pausa para o café. Quando tinha outras distrações, como sair de casa, a gente se obrigava a manter rotinas para manter a sanidade. Agora, faço técnicas de respiração. Três respirações profundas, principalmente no horário de trabalho."

Ela conta que pesquisou vídeos no YouTube e páginas de personalidades, como a Monja Coen. "A gente pode buscar formas de meditar e de vibrar diferentes, cada um tem a sua jornada. Eu faço tudo que me ajuda a me trazer para este momento presente, porque é o que tenho agora, e a segurar a emoção."

A assistente administrativa Jessica Braga, de 27 anos, descobriu o mindfulness enquanto enfrentava crises de ansiedade e começou a praticar em junho. “Sempre fui de trabalhar, sair, ir ao cinema, sair com meus filhos. Quando veio a pandemia, fiquei trancada e surtando dentro de casa. Tentava treinar e não focava.” Ela diz que se adaptou às técnicas e passou a praticar antes de dormir e após acordar. “A ansiedade caiu muito.”

A advogada Patrícia Machado, de 44 anos, fez buscas no Google e no Instagram e se deparou com um curso online de mindfulness na quarentena no final de julho. Desde então, tem praticado diariamente.

"Já tinha lido sobre, mas nunca tinha tentado. O mundo parou, não pude mais ver meus pais, fiquei muito ansiosa e deprimida vendo as notícias. Nos primeiros dez dias, vi diferença na minha ansiedade, dormi melhor e fiquei sem a angústia que eu tinha durante o dia."

Ela pretende continuar após a pandemia. "Com a prática, você vai se tornando melhor. Quero ficar mais serena e me livrar desse piloto-automático. Com 44 anos, estou começando a viver o presente, porque só vivia no futuro ou no passado.

Fazer atividades com presença

Instrutora sênior de mindfulness pelo Mindfulness Trainings International (MTI), Luiza Bittencourt diz que, com a pandemia, estímulos externos foram retirados das pessoas e, em casa, elas passaram a observar seus problemas e a lidar com questões como a ansiedade.

"As pessoas procuraram a prática de autocuidado, porque estavam no limite. O ser humano tem a tendência a ficar com a mente no passado, com uma mente ruminativa ou nostálgica, ou está no futuro, com a mente ansiosa. Mas a nossa vida só está acontecendo agora."

Luiza explica que, no caso da atenção plena, não é necessário acrescentar uma tarefa no dia, mas adotar as técnicas para realizar as atividades com presença.

"Não é só meditação, porque não adianta meditar e não se lembrar o que comeu ontem, o que falou com as pessoas, onde deixou as coisas em casa, não ter empatia e gratidão. É, na hora de comer, tirar um momento para curtir o sabor e não ficar respondendo mensagens. Sentir sua respiração, perceber o corpo, ver o que está tensionado e soltar. Sentir as sensações no banho, escolher o que vai usar de acordo com o aroma. Por isso que o mindfulness se encaixou bem. Ninguém quer mais uma tarefa, mas uma forma de alívio e de autoconhecimento."

Entre os benefícios, Demarzo destaca regulação das emoções e redução da ansiedade. “Na área da educação, melhora a atenção, memória e a aprendizagem. Para empresas, diminui o esgotamento profissional e melhora a liderança. Mais consciente, mais humanizado.” “A pessoa pode optar por meditar no campo da religião e da espiritualidade, dentro de um contexto filosófico do que ela se identifica. A proposta moderna é no contexto acadêmico. É uma técnica para qualidade de vida”, explica Demarzo.

As técnicas podem ser praticadas independentemente de religião, segundo os especialistas. E essa é uma dúvida frequente entre quem pesquisa sobre o tema: "O que é meditar na palavra de Deus" e "O que a bíblia diz sobre meditação" foram perguntas que apareceram nas buscas.

"A pessoa pode optar por meditar no campo da religião e da espiritualidade, dentro de um contexto filosófico do que ela se identifica. A proposta moderna é no contexto acadêmico. É uma técnica para qualidade de vida", diz Demarzo.

Como praticar meditação

  1. Pratique a autocompaixão e saiba que você não estará focado o tempo todo. Quando se distrair, traga a atenção de volta. Mindfulness é estado de atenção plena.
  2. Procure estar presente na atividade que está realizando e nas sensações que ela causa. 
  3. É possível encontrar vídeos e playlists com técnicas de meditação e mindfulness online com diferentes durações.

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Prática de meditação pode ser curta e se adapta ao perfil ‘zen urbano’

Empresa oferece programa de três minutos; também cresce nas redes a busca por óleos e incensos terapêuticos

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 18h12

Além de poder se encaixar em atividades do dia a dia, as práticas de meditação e mindfulness não precisam ser longas. Recentemente, houve interesse maior pelos programas curtos e por produtos, como incensos e pedras.

“Temos um público ‘zen urbano’, que quer encontrar paz no meio da rotina, mas procura uma coisa breve, porque a vida já demanda muito delas”, afirma a educadora em meditação e autoconsciência Flávia Cadinelli, criadora da empresa Movimento Zen.

Ela oferece programas de meditação a partir de três minutos de duração, que vão aumentando conforme a prática. “A meditação não é uma prática exclusiva para pessoas calmas. O pré-requisito é ter uma mente. Se a pessoa quiser manter cinco minutos por dia, vai ter efeito. São alguns minutinhos de pausa para se desconectar do mundo externo”, reforça. 

Flávia conta que também houve aumento na compra de produtos, como incensos, pedras e japamalas (cordão com contas para ajudar na meditação), usados para compor o momento dedicado à busca pelo equilíbrio interior.

“A procura no WhatsApp com interesse pela meditação e nossos produtos cresceu em 45%. A gente aumentou a nossa venda de incensos terapêuticos, aromaterapia, óleos essenciais. Tivemos o crescimento de 470% nas vendas dos incensos terapêuticos de abril a outubro, comparado com o mesmo período de 2019.”

Aromaterapia

De acordo com o levantamento do Google, o interesse por aromaterapia atingiu seu nível mais alto dos últimos dez anos no mês de julho, com crescimento das buscas de 79% entre abril e julho.

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