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Na pandemia, fábricas se transformam para consertar respiradores e produzir máscaras

Participam da força-tarefa as automotivas GM, FCA Fiat Chrysler, Ford, Honda, Jaguar Land Rover, Renault, Scania e Toyota. Completam o grupo a ArcelorMittal e a Vale, em parceria com o Senai

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 17h00
Atualizado 02 de abril de 2020 | 18h27

Preparada para equipamentos normalmente pesados, alguns sujos de graxa, usados na produção de automóveis, a ala de manutenção da fábrica da General Motors em São Caetano do Sul, no ABC paulista, passou por severo processo de higienização e desinfecção para consertar respiradores pulmonares que estão danificados ou sem uso há muito tempo. O trabalho começou na segunda-feira e as primeiras unidades já estão sendo devolvidas aos hospitais.

São os primeiros aparelhos que retornam ao mercado em ação envolvendo dez empresas que se prontificaram a realizar o serviço, numa parceria com o Senai. A entidade calcula que há cerca de 4 mil a 5 mil respiradores inoperantes no País, dos quais 3,6 mil já foram localizados e estão sendo entregues ao grupo para manutenção.

Além da GM, participam da força tarefa as automotivas FCA Fiat Chrysler, Ford, Honda, Jaguar Land Rover, Renault, Scania e Toyota. Completam o grupo a ArcelorMittal e a Vale, em parceria com o Senai, que treina o pessoal para a tarefa e dispõe de 25 pontos para coleta e manutenção de aparelhos.

No caso da GM, o serviço será realizado nas quatro fábricas do grupo em São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e também no campo de provas em Indaiatuba (SP). “Temos 15 engenheiros e técnicos em cada uma das fábricas trabalhando voluntariamente nas linhas de montagem que criamos”, diz Carlos Sakuramoto, gerente de Tecnologia e Inovação da Engenharia de Manufatura da GM. “Queremos fazer as entregas imediatamente para poder salvar mais vidas rapidamente.”

A corrida para ampliar no País a oferta de respiradores (ou ventiladores), vitais para pacientes com dificuldade de respirar após contaminação pelo novo coronavírus e o principal fator de mortes, levou empresas de variados setores a juntarem forças para minimizar a falta do equipamento, cuja demanda disparou em quase todo o mundo.

A Mercedes-Benz será a primeira montadora do Brasil a iniciar a produção de respiradores de baixo custo, em parceria com o Instituto Mauá de Tecnologia e apoio de prefeituras da região do ABC. A produção vai começar nos próximos dias na fábrica de São Bernardo do Campo, onde são feitos caminhões, ônibus e motores. Segundo a empresa, serão utilizadas peças da própria indústria. As peças serão doadas a hospitais da região e de São Paulo.

No Brasil há quatro fabricantes oficiais do aparelho, com capacidade para produzir cerca de 2 mil unidades ao mês. Mesmo ampliando a capacidade elas não terão condições de atender toda a demanda que, num cenário otimista feito pela Escola Politécnica da USP (Poli) seria de 40 mil respiradores. Num cenário pessimista, sem isolamento social, poderia chegar a 400 mil unidades.

Diante da urgência, a Leistung, que produz equipamentos médico-hospitalares (incluindo respiradores), cedeu sua tecnologia para a empresa de motores elétricos Weg para a produção em sua fábrica de Jaraguá do Sul (SC). A empresa está à procura de fornecedores de componentes e já conseguiu o suficiente para produzir as primeiras 500 unidades. O objetivo, segundo a Weg, é que estejam prontas para entrega na segunda quinzena de maio.

Componente é gargalo

Outro grupo de empresas se dispôs a produzir componentes e sistemas, como a Embraer, em parceria com seus fornecedores. Boa parte dos itens usados na produção são importados. Sakuramoto, da GM, diz que a empresa também pode produzir moldes e conexões para os ventiladores. Já a FCA Fiat Chrysler colocou suas áreas de Compras, Logística e Engenharia para localizar, no mercado global, fornecedores de peças e componentes para entrega no curto prazo.

“Também estamos procurando um parceiro estratégico internacional produtor de equipamentos para associação com empresa nacional, tendo como objetivo a transferência de tecnologia e a ampliação da capacidade instalada de produção de ventiladores no Brasil”, afirma o presidente da empresa para a América Latina, Antonio Filosa. “Buscamos também fontes de financiamento para investimento de fabricante nacional para ampliar sua capacidade de produção.”

O diretor geral do Senai, Rafael Luquesi, informa já ter contato com duas empresas nacionais interessadas em ampliar a produção, mas encontram dificuldades no abastecimento de componentes. Já outra empresa que produz ventiladores para uso veterinário vai reconfigurar sua linha de produtos para uso humano.

Grupos empresariais também fazem doações para a aquisição dos equipamentos, que custam a partir de R$ 15 mil. O banco Itaú, por exemplo, vai doar R$ 8,5 milhões para a compra de 190 respiradores. A KTK, de São Paulo, deve produzir os aparelhos a serem entregues ao Ministério da Saúde em maio.

Há outras iniciativas nas universidades do País. A Poli informa que desenvolveu um tipo de respirador mecânico de baixo custo (em torno de R$ 1 mil) para necessidades emergenciais. A ideia é oferecer o projeto a empresas autorizadas pela Anvisa que queiram assumir a produção. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também trabalham em um equipamento simples e barato para produção em larga escala.

Máscaras faciais

Outra demanda que mobiliza a iniciativa privada é a de protetores (ou escudos) faciais, feitas em acrílico. O grupo Leroy Merlin, que atua no varejo de materiais de construção, iniciou nesta semana a produção desses equipamentos para serem doados aos profissionais da saúde que atuam diretamente com pessoas contaminadas. Em parceria com o Movimento Brasil Contra o Vírus, o objetivo inicial é fabricar 12 mil peças ao longo dos próximos três meses.

“Se for necessário, poderemos produzir mais”, diz Rodrigo Spillere, gerente de Inovação da Leroy Merlin. Ele conta que a sala onde antes eram feitos projetos de bricolagem na unidade da Marginal do Tietê, em São Paulo, foi isolada e passou por processo de higienização. Segundo ele, são utilizadas cinco impressoras 3D, com as quais são produzidas 50 máscaras ao dia. “Se uma técnica que estamos testando for aprovada, de uso de uma cortadora a laser, a capacidade pode subir para 2 mil ao dia”, informa Spillere.

Máscaras de proteção facial também estão sendo produzidas pela Mercedes-Benz em impressoras 3D. São cerca de 10 peças ao dia, segundo a empresa, também em parceria com o Instituto Mauá e a Universidade de São Carlos. No Rio de Janeiro, a PSA Peugeot Citroën usa suas impressoras 3D para produzir protetores faciais, em parceria com a Federação das Indústrias (Firjan).

Também teve início nesta quinta-feira a produção de 50 mil protetores nas fábricas da Ford em Camaçari (BA) e na Argentina. A FCA é outra montadora que vai fabricar cerca de 2 mil peças a serem doadas a serviços de saúde de Minas Gerais e Pernambuco. A Esmaltec, do ramo de eletrodomésticos, se propôs a produzir componentes para a produção de cerca de 30 mil máscaras, em iniciativa com o Senai do Ceará.

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