DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
A família Santos Botelho, em frente à casa de dois cômodos na Favela Gato Preto, onde moram; com volta do comércio no bairro, famílias estão mais vulneráveis à epidemia do coronavirus  DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Na periferia, comércio reabre aos poucos e moradores vão às ruas para garantir sustento

Moradores relatam retorno gradual do movimento ao longo da semana; para muitos, continuar trabalhando é a única forma de sobreviver, mas especialistas veem riscos para a saúde de quem vive nesses bairros

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 05h00

Na cama que divide com três filhos, a dona de casa Luciana Santos Botelho, de 45 anos, tem passado as últimas noites em claro. Ela respira o ar abafado do quarto onde a família se aperta, pensa nas dívidas e na epidemia que se espalha no Jardim dos Francos, na zona norte paulistana, onde mora. 

Ali, embora os casos do novo coronavírus tenham se multiplicado, o comércio aos poucos volta à atividade, e o risco para a família Santos Botelho tem aumentado.

“O que me tira o sono é o aperto aqui, porque nós moramos em dois cômodos para muita gente, e não ter um lugar melhor para eles”, diz Luciana. São oito pessoas – a mãe, três moças e quatro meninos – para o barraco de 4 por 8 metros. Com o fim da merenda na escola das crianças, todos comem mal na casa. Ela só consegue comida no descarte de um supermercado e com a mãe, a faxineira Maria Raimunda, de 65 anos, que ainda usa o transporte público todos os dias para ir ao trabalho.

A quarentena não durou muito para moradores de alguns bairros da periferia. Nos arredores da Favela Gato Preto, onde mora Luciana, já é possível ver bares abertos, e filas de clientes dentro das barbearias, mesmo com metade do portão fechado. Aos poucos, as ruas que concentram o comércio da comunidade voltam a ter movimento. À noite, carros de som e lojas de bebida voltaram a fazer pequenas festas. 

“Na periferia, temos muitos estabelecimentos pequenos, e as pessoas dependem disso. Parte acabou reabrindo, com muitos preocupados em não conseguir manter o sustento da família”, diz o líder comunitário Henrique Deloste, que mora na Brasilândia. Ele disse que equipes da subprefeitura têm orientado os comerciantes a fechar, “mas sem trabalho e preocupados com as contas da família, muitos comerciantes acabaram reabrindo”. 

O cenário é o mesmo nas duas maiores favelas da capital, Heliópolis e Paraisópolis. Moradores relatam um retorno gradual do movimento ao longo desta semana, após o fechamento de bares, restaurantes e comércios não essenciais ter sido decretado no município. Durante o fim de semana anterior, houve carreatas pedindo a reabertura do comércio na cidade, e o presidente Jair Bolsonaro chegou a visitar comerciantes do Distrito Federal

“Está aumentando (o movimento) porque está faltando dinheiro”, diz Igor Amorim, membro da união dos moradores em Paraisópolis. “O presidente dizer que é uma ‘gripezinha’ traz problema, porque o povo quer sair mesmo. O movimento está muito alto, muito diferente da semana passada para cá.” 

Bairros mais pobres têm registros de covid-19

O novo coronavírus já atingiu esses bairros. Um dos casos é o da professora Michele Fernandes Teixeira, de 38 anos. Ela foi diagnosticada por meio de uma tomografia no pulmão, após ir a dois médicos com febre, dor no corpo e tosse. Moradora do Jardim dos Francos, ela hoje passa a maior parte do dia no quarto, onde deve permanecer por mais dez dias, mas divide o único banheiro da casa com o marido e os filhos. 

“O pessoal está na rua jogando bola, e no sábado estava a maior música na rua”, conta Michele. “As pessoas estão achando que é brincadeira, até ter algo muito próximo delas, elas não percebem o quanto esse assunto é sério.”

Para muitos, porém, seguir trabalhando é visto como a única forma de sobreviver. Aos 77 anos, o metalúrgico aposentado Jair Araújo continua saindo de casa para visitar a igreja, uma praça e o posto de saúde. Ele complementa a renda de aposentadoria com os bicos de pedreiro e jardinagem no bairro.

O dinheiro extra, que chega a ultrapassar R$ 700, ajuda a sustentar a casa, onde moram 15 pessoas. De vez em quando, ajuda a completar o valor da prestação do carro da filha ou a cesta de remédios para os parentes. Ele parece convencido de que é ficar parado que o deixaria doente.

“Eu uso a máscara, mantenho distância, não fico no meio de aglomerações”, conta, despreocupado. “O meu objetivo é trabalhar, doa a quem doer, com dignidade e honestidade.” 

Volta do movimento aumenta risco da pandemia

O epidemiologista Bernardino Alves Souto, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), alerta que a volta do movimento no comércio pode ter consequências mais graves para a comunidade. Segundo ele, estudos apontam que a mortalidade pela covid-19 é mais alta em bairros mais populosos, em que mais pessoas estão concentradas em um espaço pequeno.

“Se elas não levam a sério a quarentena, o risco da epidemia se disseminar de uma maneira mais intensa e mais grave é maior para a própria comunidade”, afirma. Souto também diz que não faz sentido que a quarentena vigore em apenas alguns bairros da cidade. “A negligência em um bairro significa risco para o outro também.”

2 mil agentes fazem fiscalização

Em nota, a Prefeitura disse que cerca de 2 mil agentes têm trabalhado na conscientização de ambulantes e comerciantes para manter estabelecimentos fechados. Até o momento, segundo a gestão municipal, 33 lugares foram interditados por não acatar a decisão de fechamento, e uma empresa foi multada no valor de R$ 9.231,65.

“A população tem colaborado com a determinação dos decretos municipais” , diz a Prefeitura. “Os locais que descumprirem o exposto no decreto estão sujeitos à interdição imediata de suas atividades e, em caso de resistência, cassação do alvará de funcionamento.”

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Bares e restaurantes de SP ignoram quarentena e servem bebida e alimentos

Parte dos estabelecimentos permite que clientes consumam em mesas dispostas na entrada; outros ‘escondem’ frequentador atrás de portas

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - A quarentena no Estado de São Paulo contra a pandemia do novo coronavírus chega ao 12º dia neste sábado, 4, com cumprimento parcial por parte dos afetados. Entre os setores mais resistentes, estão pequenos bares, lanchonetes e restaurantes da capital paulista, que adotaram “jeitinhos” para continuar servindo alimentos e bebidas no local - o que é vetado.

O Estado percorreu vias da região central e do distrito de Pinheiros, na zona oeste, entre as 12 e as 15 horas da sexta-feira, 3, período em que avistou ao menos 20 estabelecimentos que descumpriam o decreto estadual. Os espaços permitiam o consumo de alimentos no balcão ou em mesas dispostas no limite entre a área interna e a calçada. 

Na República, por exemplo, um bar na Rua Bento Freitas baixou parcialmente as portas, mas não conseguiu esconder um cliente que consumia um pão na chapa e tomava um café no balcão. Perguntado, um funcionário disse que está servindo apenas uma pessoa por vez na parte de dentro do estabelecimento e que a maioria dos atendimentos são por delivery.

Caso semelhante se repetiu na Rua Xavier de Toledo, nas proximidades da Estação Anhangabaú. O restaurante impedia a entrada de clientes na área interna criando uma espécie de barreira de mesas, nas quais justamente servia cachaça e cerveja em copos de vidro para dois clientes - ambos idosos. Os funcionários falaram que era “exceção” por se tratar de “amigos da casa”.

“O limão dizem que protege, o álcool dizem que protege também (contra o covid-19)”, brincou um dos clientes, que disse ter 72 anos. “Vim resolver uma coisa e aproveitei para encontrar um amigo, mas a gente fica bem longe um do outro, nem beijo na boca a gente dá”, ironiza. “Minhas filhas não sabem (que está fora de casa). Se soubessem, tinham me amarrado no pé da cama.”

A situação também se repetia perto dali, na Avenida São João. Nas quadras entre o Largo do Paiçandu e a Rua Ana Cintra, ao menos cinco bares repetiam o procedimento.

O funcionário de um dos locais justificou que servia as bebidas em copos plásticos e que não conseguiria controlar o comportamento dos clientes, que colocavam os copos sobre as mesas que bloqueavam a entrada, aglomerando-se. “Da porta para fora, eles não podem fazer nada”, justifica um frequentador. 

Também sobre as mesas de madeira que bloqueavam a entrada, outro bar da mesma via colocava não somente copos de vidro como um prato de cerâmica com diversos cortes de carne. O estabelecimento, de pequeno porte, reunia seis homens na entrada e justificou que a maioria dos clientes compra para levar.

Situações do tipo também foram vistas na Rua Augusta, na Barra Funda, na Santa Cecília, na Bela Vista e em dois pequenos restaurantes de Pinheiros - todos voltados para um público de classes média e baixa. Em contraste aos que burlam o decreto, outros chegavam a usar fitas para impedir a aproximação de clientes da área interna ou entregavam os pedidos por pequenas janelas entreabertas.

Comércio que descumprir quarentena pode até perder alvará e ser multado

Quando anunciou quarentena, que permanece ao menos até 7 de abril, o governador João Doria (PSDB) ressaltou que estabelecimentos não podem servir bebidas e alimentos para consumo no local e pediu que comerciantes sejam “criativos” e “solidários”. 

"Serviços de alimentação preparada deverão ser suspensos e, se desejarem, transformados em serviços de delivery. Isso implica que bares, cafés e restaurantes em todo o Estado de São Paulo devem fechar as suas portas (...), mas, se desejarem, poderão funcionar através de delivery." 

Na sexta-feira, 3, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), disse, em coletiva de imprensa, que a gestão municipal está com 2 mil fiscais das subprefeituras para garantir o cumprimento da quarentena e que denúncias podem ser feitas pelo serviço 156. A orientação é fechar o local infrator e, em caso de reincidência, cassar o alvará de funcionamento e encaminhar o caso para a Polícia Civil.

"Essa não é questão de responsabilidade exclusiva do poder pública, embora a gente não abra mão da nossa responsabilidade, mas é também da população”, afirmou. “É um ato humanitário poder respeitar essa quarentena.”

Frequentadores retomada do movimento no centro

Moradores e frequentadores da região central dizem que o movimento de carros e pessoas cresceu nos últimos dias. “Aumentou muito, está um absurdo. Antes de ontem, você olhava aqui (Largo do Paiçandu) e não via um carro subindo. Não tinha isso, de gente andando pra lá e pra cá”, comenta o empresário Sérgio Schumann, de 67 anos. “Eu tinha certeza que, depois de ontem (do posicionamento do Ministério da Saúde sobre máscaras de pano na quinta-feira), todo mundo estaria de máscara hoje.”

Na Vila Madalena, na zona oeste, por sua vez, era raro encontrar um pedestre e grande parte dos bares e restaurantes estava fechado até mesmo para serviços de entrega. “Está um eterno domingo. Em uma sexta-feira, já estaria um movimento meio de happy hour. Só aqui, a gente costuma servir uns 120 almoços por dia”, conta o chef Filipe Leite, de 34 anos, que agora prepara pratos apenas para delivery. “Costuma ser um bairro mais movimento de pedestre, até porque tem muito escritório pequeno (no entorno).”

Leite conta, contudo, que percebeu o trânsito mais intenso do que nos dias anteriores. “Foi o dia mais movimentado para chegar (do centro, onde mora, até o restaurante). Infelizmente.”

Mesmo com a suspensão do rodízio, a cidade de São Paulo não tem enfrentado engarrafamentos na quarentena. Segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a capital não teve registros de lentidão na sexta-feira.

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Bairros do Rio têm registro de aumento na circulação nesta semana, aponta levantamento

Com céu azul e calor moderado, a cidade viu casos de “reocupação” das ruas mais gritantes no Leblon e em Ipanema. Distanciamento social é recomendado para combate ao coronavírus

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 05h00

RIO - Os bairros do Rio que registram o maior número de casos do novo coronavírus passaram a ter as ruas mais movimentadas nesta semana. Em comparação com a média histórica, a semana passada havia registrado uma queda de 85% na circulação; nesta semana, a variação foi menor: 80%. Ou seja, se 100 pessoas passavam por determinada rua numa semana pré-pandemia, 15 passaram na semana passada, enquanto 20 circularam por ela nesta semana. O levantamento é realizado pela empresa CyberLabs, que recorre a imagens detectadas por câmeras de videomonitoramento.

Os bairros analisados são a Barra da Tijuca, na zona oeste; Leblon, Ipanema, Copacabana e Botafogo, na zona sul; e Tijuca, na zona norte. O Centro também é abarcado pelo levantamento, apesar de ter poucos infectados pelo vírus.

Os casos de “reocupação” das ruas mais gritantes são os de Leblon e Ipanema. Considerando um universo de 100 pessoas, os bairros chegaram a ter a circulação de apenas 12 na semana passada. Agora, nestas quinta e sexta-feira, tiveram média de 30.

O aumento no movimento pode dever-se a características locais. Os últimos dias foram típicos do outono carioca: céu azul e um calor mais moderado que o do verão. É uma época  apropriada para caminhar na rua. As manhãs têm sido de ciclovias movimentadas, com muitos moradores correndo ou andando de bicicleta. Na orla, o policiamento reforçado monitora quem tenta descer para a areia e, é claro, para o mar. Os policiais pedem que as pessoas voltem para casa.

Além da estação favorável a atividades ao ar livre, esta foi a primeira semana cheia após o presidente Jair Bolsonaro começar a defender a reabertura do comércio e a retomada de outras atividades do dia a dia.

Destaca-se no levantamento o caso de Copacabana, que tem obedecido pouco às medidas restritivas. Enquanto os outros bairros chegaram a ter reduções de mais de 90% na circulação, o tradicional reduto de idosos do Rio tem mantido queda entre 75% e 80% desde o início do isolamento social. Muita gente ainda vai à rua.

Uma moradora do bairro que preferiu não se identificar, de 62 anos, conta que tem precisado sair para passear com a cadela de estimação e, eventualmente, ir ao mercado ou ao banco. Bem de saúde e favorável às medidas de isolamento, ela se preocupa com a quantidade de idosos com idade mais avançada que tem visto pelas ruas de Copa. Como o covid-19 é um vírus que ainda estamos conhecendo, diz, é importante que respeitemos as ordens de quem está estudando a doença.

“Temos que acatar as ordens das autoridades que conhecem: os cientistas, pesquisadores, médicos. Não estamos numa hora de questionar, e sim de obedecer para ver se essa crise acaba o mais rápido possível. Queremos que acabe rápido, e a vida volte ao normal”, comenta.

A presença de policiais, que na zona sul atuam de modo ostensivo, não inibiu um grupo de jovens que mergulhava na Baía de Guanabara, no centro da cidade, na tarde desta sexta-feira,3, perto do Museu do Amanhã, na Praça Mauá. Eles moram ali perto, na comunidade Pedra do Sal. Apesar de preocupados com a doença, não viram problema em aproveitar o tempo aberto para mergulhar nas águas da Guanabara.

Quem se destaca na obediência ao isolamento é a Barra da Tijuca. Com a maior concentração de casos da covid-19, o bairro tem se recolhido e mal apresentou variação de uma semana para outra no período da pandemia. A queda em comparação com a série histórica tem se mantido na casa dos 90%.

A Tijuca, que também aparece entre os locais mais infectados pelo coronavírus, decepcionou nesta semana, depois de já ter chegado a reduzir a circulação de pessoas em 95%. Nesta sexta-feira, o movimento foi reduzido em 85%, enquanto ao longo da semana o número tinha ficado em 90%.

Ainda não é feita, pela CyberLabs, uma análise de bairros do subúrbio do Rio,  nem da parte pobre da zona oeste - a Barra é da área rica. Quando esses dados forem levantados, será possível analisar, por exemplo, se há uma diferença entre bairros ricos e pobres no cumprimento das ordens restritivas.

A empresa faz o levantamento com base em câmeras de videomonitoramento espalhadas pela cidade - são 800 no Rio. A empresa garante que não faz nenhum tipo de reconhecimento facial, por exemplo; tem acesso apenas às imagens. Por meio delas, os profissionais fazem uma contagem do número de pessoas que circulam por minuto nas ruas.

Transportre público

Segundo o governo do Estado, o metrô registrou queda de 80% na circulação, em comparação com a média pré-pandemia. As barcas que ligam o Rio a Niterói, 73%; e os trens da SuperVia, que conectam o Centro da capital às zonas mais pobres da cidade e à Baixada Fluminense, 70%.  

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