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Namorados e ‘nãomorados’

Se os sentimentos transbordam em qualquer pessoa, no espectro autista o aguaceiro é quase um afogamento

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2022 | 05h00

“O que me chama a atenção é que você tem ideias como verdades, você fica presa num modo de pensar. E tem uma dificuldade grande de mudar de ideia.” Nessa época, eu começava a entender o efeito do espectro. Mesmo que não fôssemos mais um casal, a intimidade compartilhada poderia me dar pistas de como as características se apresentavam. Estava presa na ideia de literalidade, da compreensão trocada, e não percebi que ele descrevia o efeito do autismo na nossa relação. 

É unânime, para além do campo do autismo, que relacionar-se é um desafio, ainda mais na esfera amorosa. Se os sentimentos transbordam em qualquer pessoa, na gente o aguaceiro provoca quase um afogamento, nosso e às vezes do outro. Será que a ideia de ter que fazer coisas em uma relação é só mais um clichê na mente, como o ex me dizia? Será só rigidez de pensamento, esse irritante ponto do autismo de que tento me livrar a todo custo?

De percepção fácil em crianças neurodivergentes, a rigidez cognitiva é uma inabilidade mental de adaptação a novas demandas e informações. A dificuldade de aceitar a visão e o modo de pensar de outras pessoas, ou fora de padrões, que pessoas neurotípicas também apresentam em diferentes níveis. No espectro, esse nível é mais desajustado, ainda mais levando em conta o ambiente em que a gente vive, pouco dado a responder a padrões. Além das mudanças constantes, existem regras sociais não faladas, e não necessariamente lógicas. Para sobreviver à não compreensão do que rege o mundo à sua volta (e isso acontece frequentemente), a criação de normas ajuda a decodificar espaços e relações.

Os clichês repetidos em filmes e livros viravam nortes, para um lado ou outro. Tive grandes amores, “nãomorados”, que seguiam em afeto, embora não se encaixassem no padrão “para namoro”. “Como tu é braba”, me disse um que esteve a meu lado durante os quatro anos em que não namoramos. Imagine a brabeza da pessoa quando era confrontada com alguém que não seguia as regras, que para mim eram universais, mesmo num “nãomoro”. 

Um dos grandes desafios de escrever esta coluna é deparar-me com o passado, reinterpretá-lo. Às vezes dói, em outras, ajuda. A relação e o confronto nos levam a uma nova perspectiva. Com o diagnóstico e a autonomia que ele traz, tento tornar-me mais permeável ao outro e ao mundo, e a suas ideias e proposições em qualquer relação, amorosa ou não. 

Como no compromisso entre Laurie Anderson e Lou Reed, para relacionar-se é bom ter um grande detector de m*, perceber quando você está fazendo isso com a sua vida, quando o outro está fazendo isso com você. Não ter medo de si próprio, de outra pessoa ou de nada, e não esquecer da ternura. Não quero me prender a mais um clichê, mas, como alguém que precisa de algum padrão para se segurar nesta vida, esses três me parecem um bom norte para qualquer relação.

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