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Não aprendemos

Quando houver vagas e respiradores de novo as pessoas baixarão a guarda

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2021 | 05h00

Várias pessoas estão com a sensação de que, assim como a Terra fez em tornou do sol, a pandemia deu uma volta completa nos últimos trezentos e sessenta e cinco dias e chega em março de 2021 no mesmo ponto em que estávamos em março de 2020. Lockdowns sendo decretados em meio ao medo crescente diante da elevação do número de infectados e mortos. 

Não estamos exatamente no mesmo ponto – os óbitos se acumularam às centenas de milhares nos últimos doze meses, e no ano passado ainda levaríamos algum tempo para chegar ao pico em que agora nos vemos. Pelo lado positivo, a doença era quase totalmente desconhecida, a vacina era uma promessa distante que agora já se materializa no braço de milhões de brasileiros. Ainda assim a sensação de retrocesso, de reinício, é inescapável.

Não precisaria ser assim. Poderíamos ter evitado as novas ondas de contágio. Se ao menos fôssemos seres racionais. Porque para impedir esse caráter cíclico bastava que nosso comportamento fosse pautado pelo conhecimento da dinâmica da doença e suas formas de contágio. Então, todos agiríamos racionalmente, nos protegendo, cuidando para não sermos infectados, reduziríamos a velocidade de propagação, daríamos tempo para o desenvolvimento e aplicação das vacinas, e não haveriam mais ondas depois de finda a primeira. Bastava que fôssemos outra espécie de criatura. Porque infelizmente não é assim que o ser humano se comporta.

Em abril de 2020 eu já escrevia que o impacto emocional que então se abatia sobre a sociedade aos poucos desvaneceria. A perspectiva de vacinas, a abertura de leitos de UTI e o achatamento da curva não eliminariam os óbitos, mas os manteriam num nível no que chamei de “mortes normais”. Todo dia morrem milhares de pessoas, afinal. Desde que tenham assistência garantida e não se empilhem em nossas portas, vida que segue – para a maioria. E assim foi. Pouco tempo depois era exatamente essa a sensação no país: numa coluna de agosto eu refletia sobre a ilusão de que a pandemia havia acabado para muita gente, com a retomada progressiva da normalidade.

A queda na percepção de risco, não só pelo controle parcial das infecções como também pela redução de medo que se segue a grandes sustos iniciais, levava cada vez mais gente a se proteger cada vez menos. Era óbvio que haveria um recrudescimento. “Há modelos que explicam a partir dessa oscilação a característica cíclica das epidemias – a gente se protege inicialmente, o tempo passa, a gente relaxa, os casos aumentam, a gente se amedronta, e assim por diante”, escrevi então.

Não é uma característica só de brasileiro. Não é consequência – apenas – de decisões políticas e atitudes de lideranças. É do ser humano. Nossa cultura e nossos políticos são elementos a mais a temperar esse prato que foi servido assim em praticamente todas as epidemias (o que não exime ninguém da responsabilidade por seus atos e falas, fique claro).

Ou seja, a curva irá novamente cair. Tragicamente muitas vidas ainda serão perdidas no caminho, mas cedo ou mais tarde atingiremos um novo pico e voltaremos a ver a queda dos casos. Arrisco dizer que, dessa vez, não teremos um platô longo como o do ano passado, principalmente se a vacinação acelerar como esperamos.

Mas é só um chute. Certeza mesmo é que a proliferação das notícias atuais, de pessoas morrendo na fila das UTIs, trazendo a ameaça de uma morte anormal, uma morte não aceitável, vai impactar mais no comportamento coletivo. Parece que quem morre depois de esgotados os recursos, morreu porque era hora. Mas se isso acontece por falta de recursos a nossa responsabilidade fica mais clara, aumentando a quantidade de pessoas se protegendo melhor.

E pode esperar: quando novamente a vida estiver normal, houver vagas e respiradores para todos os doentes necessitados, quando a emoção ruim gerada por esse tsunami arrefecer, de novo as pessoas baixarão a guarda. Nós não aprenderemos a lição. A única chance é que, quando esse período chegar, as vacinas mantenham sua eficácia e tenhamos vacinado em número suficiente. Senão, apertem os cintos e se preparem para a próxima subida. 

É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP) 

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