Reprodução/Estadão
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'Não é hora de pensar em aliviar as medidas de isolamento', diz epidemiologista

Em entrevista transmitida ao vivo pelo Estadão, Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), falou que relaxar o distanciamento social significa um retrocesso no combate ao coronavírus

Renata Cafardo e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 21h24

O epidemiologista e reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal, afirma que o Brasil ainda não está pronto para sair do isolamento social. Em entrevista ao vivo transmitida pelo Estadão nas redes sociais, o especialista disse que o País ainda está no estágio inicial da doença e que não há previsão para a volta à normalidade, principalmente de escolas e faculdades. Hallal é também o coordenador de uma grande pesquisa que tem como objetivo apontar o número real de casos de coronavírus no Brasil.

Para ele, o Brasil acertou em começar o distanciamento social antes da explosão do número de casos, o que pode ser arruinado agora com a volta precoce. Repetindo o que muitos cientistas têm dito, avisou que é importante manter as medidas para que os hospitais consigam se estruturar para receber os pacientes da covid-19. “É mais importante olhar para o limite do sistema de saúde do que para o número de mortos ou de casos”, disse, referindo-se a critérios para definir níveis de isolamento social.

Nesta semana, sete estados e o Distrito Federal começaram a relaxar o distanciamento e a permitir, por exemplo, a reabertura de comércios e serviços não essenciais. Para o epidemiologista, a pressa dos governos em relaxar as medidas de isolamento têm a ver com uma “falsa dicotomia entre economia e saúde pública”. 

Hallal explicou na entrevista que o guia da Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece seis requisitos para o fim do isolamento social e que o Brasil não cumpriu ainda a maior parte deles. Um deles é o controle da transmissão do coronavírus, que não está controlada no País. O segundo item é ter a capacidade de testar, tratar e isolar os pacientes e seus familiares, também não cumprido.

O terceiro requisito é o de ter preparados os locais de trabalho e as escolas para evitar o contágio. “Não temos um plano pronto sobre isso”, afirmou. O quarto ponto é conseguir controlar o surto em locais específicos, como hospitais. “Não conseguimos. Muitos profissionais de saúde ainda estão se contaminando”, disse, citando também a falta de equipamentos de proteção individual. “Não é hora de pensar em aliviar as medidas de isolamento”, conclui.

Para o pesquisador, se o governo não garante renda complementar para a população fazer o isolamento, acaba pressionando as pessoas a solicitarem a reabertura das atividades. “Se as pessoas não estão fazendo o que é recomendado é porque o estado brasileiro não está cumprindo o seu papel”, afirmou, acrescentando que a responsabilidade não é apenas do governo federal, mas também dos estados e municípios.

Hallal falou que ainda não há previsão para a volta à normalidade, mas adiantou que, por critérios científicos, os estabelecimentos de ensino devem ser a última coisa a reabrir. Um dos motivos para isso é a característica da composição familiar brasileira, onde muitas crianças vivem com pessoas do grupo de risco, como seus avós.

“Na imensa maioria da população brasileira, as famílias se aglomeram de forma muito mais intensa e não têm a possibilidade de separar os idosos das crianças que vão para o colégio e correm o risco de contaminação”, explica.

As universidades também devem demorar a retomar o funcionamento. Além da aglomeração nos campi e do aumento no movimento das cidades, as instituições de ensino superior têm muitos alunos oriundos de outros estados ou municípios. “Podemos ter uma importação e exportação de casos muito grande”, analisa.

Por outro lado, Pedro Hallal reconhece que o Brasil está indo bem na área científica. Ele elogia a realização de pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos e vacinas e de estudos populacionais. Ele coordena uma grande pesquisa que tem como objetivo apontar o número real de casos de coronavírus no Brasil.

Dados preliminares da primeira fase do estudo, feita no no Rio Grande do Sul, mostram que o Estado ainda está no início da pandemia e que o número real de casos tende a ser cerca de oito vezes maior que o oficial. A fase nacional da pesquisa inicia na semana que vem e os resultados serão divulgados em breve. Serão testadas 33.250 pessoas em 133 cidades de todos os estados.

Os participantes do estudo são escolhidos de forma aleatória. A equipe, devidamente identificada, faz a coleta de dados no domicílio sorteado. O teste sanguíneo leva cerca de 15 minutos para ficar pronto. Neste intervalo, a pessoa responde a um questionário padronizado sobre sintomas, histórico de saúde e informações básicas sobre seu domicílio. “Se o resultado der positivo, o participante é informado e colocado em contato com a Secretaria de Saúde do município”, explicou Pedro.

Ele garante que o teste usado no estudo passou por uma validação e foi aprovado. O índice de acerto entre pessoas que estão infectadas pelo vírus é de 99%. Em casos negativos da doença, o grau de acerto é de 80%. “As estimativas obtidas têm uma margem de erro associada”, falou. Ele acrescentou que o resultado da pesquisa é corrigido pela qualidade do teste.

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