TABA BENEDICTO /ESTADÃO
TABA BENEDICTO /ESTADÃO

'Não é meu cabelo que vai dizer se eu sou ou não merecedora', diz Yasmin Martinez

Diagnosticada com alopecia ainda na infância, ela aprendeu a lidar com o bullying e com os olhares estranhos. Hoje usa sua experiência para ajudar outras mulheres

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2022 | 05h00

A publicitária Yasmin Martinez aprendeu desde cedo a lidar com olhares curiosos sobre sua alopecia, algo que afetou a forma com que ela se via. “A minha maior dor sempre foi essa: não me olhar com carinho, por conta da forma que os outros me enxergavam”, conta ela, que sofre com a alopecia desde os 8 anos de idade. A condição autoimune implica a queda de cabelos e/ou pelos do corpo de homens e mulheres e pode ser causada por diversos fatores – no caso de Yasmin, a causa nunca ficou clara. 

Depois de passar por diversos tratamentos ineficazes, hoje, aos 28 anos, ela descobriu o seu amor-próprio e ajuda outras mulheres nessa busca em suas redes sociais. “Agora eu sei que não é meu cabelo que vai dizer se eu sou ou não merecedora”, diz. 

Yasmin Martinez tinha apenas 8 anos quando notou as primeiras falhas em seu cabelo. Após algumas consultas com dermatologistas, ela foi diagnosticada com alopecia areata, condição na qual o sistema imunológico ataca o folículo capilar, deixando falhas no couro cabeludo. Dois anos depois, os fios começaram a cair de uma forma mais intensa e, ao procurar ajuda, descobriu que seu quadro evoluiu para alopecia universal, ou seja: a perda ocorre em qualquer pelo do corpo. 

Foi assim que, aos 10 anos, ela resolveu raspar a cabeça. “Era muito ruim tomar banho e ver meu cabelo caindo. Eu sabia que não teria muita solução, então resolvi raspar, eu mesma, com uma gilete. E naquele momento foi tranquilo, parecia a solução para um problema que já estava me prejudicando há algum tempo”, lembra.

Ao longo da vida, ela tentou diversos tratamentos para amenizar a condição. No entanto, em razão da agressividade dos processos e excesso do uso de medicamentos fortes, ela decidiu parar. “Quando era criança, eu não me enxergava como algo superdiferente. Só que quando comecei a entender que as pessoas viam aquilo como uma aberração isso começou a exercer um poder sobre mim. Eu mesma comecei a me enxergar diferente”, diz. 

Na época, sua mãe foi à escola orientar os professores e pais sobre a doença, mas nem todos reagiram bem. “Alguns pais de alunos viam aquela situação e achavam que era algo que poderia ser contagioso”, conta ela, que sofreu muito bullying.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Por mais que tudo isso tenha me trazido muita dor, conseguiu me transformar na pessoa que eu sou hoje. Foi um processo, tem sido e vai ser sempre
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Yasmin Martinez, Publicitária

Finalmente, quando mudou de colégio, aos 14 anos, ela teve a chance de se reinventar. “Eu falava para as pessoas que eu era ruiva, mas não era, meu cabelo era bem puxado pro castanho. Sempre comprava no mesmo tom para criar essa identidade e as pessoas não perceberem que era peruca, sabe? Não falava disso com ninguém”, conta. 

Redes sociais ajudaram a recuperar a autoestima

Em 2018, com o auxílio das redes sociais, Yasmin passou a entrar em contato com outras pessoas com alopecia. “Acabei chegando a muitas meninas que têm alopecia, o que me trouxe uma proximidade legal com a comunidade, até universal. Não que eu pense em me tornar uma influenciadora sobre isso, mas ajudar as pessoas que passam por isso é meu maior orgulho”, revela. 

Para ela, o processo de “autoamor” não foi fácil. “Sempre me comparei muito e tive muitas exigências comigo mesma, principalmente por pensar que, por não ter cabelo, eu estava em desvantagem de alguma maneira. Então foi bem aos poucos que eu comecei a me entender como um ser único e comecei a parar de me comparar com outras pessoas”, diz.

Um dos pontos-chave nessa caminhada ocorreu no início de 2020, quando ela se preparava para uma viagem com amigos para a Bahia, e decidiu não levar a peruca, sua parceira fiel. Desde então, ela passou a assumir a careca que, bem diferente da infância, hoje vem acompanhada de um sorriso.

Mas claro que nem tudo são flores. “Acontecem muitas situações absurdas, que são difíceis de lidar. Às vezes chega gente gritando pra mim, falando que eu sou careca; no metrô, as pessoas levantam para dar o assento e brigam comigo falando que eu estou doente e preciso sentar”, desabafa.

Yasmin admite que sua autoestima ainda sofre altos e baixos, mas de uma maneira muito diferente do que era no passado. “Por muito tempo eu me enxerguei de uma maneira muito cruel, eu era muito ruim comigo mesma”, diz. “A partir do momento que eu comecei a me ver da maneira que eu realmente era, consegui enxergar que, por mais que tudo isso tenha me trazido muita dor, conseguiu me transformar na pessoa que eu sou hoje. Foi um processo, tem sido e vai ser sempre, mas eu acredito que cada vez mais eu caminho para um momento de tranquilidade. Mas foi bem difícil chegar até aqui”.

Tudo o que sabemos sobre:
dermatologiabullyingmulher

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.