‘Não era minha hora de morrer'

Flávia Retamar, de 43 anos, assistente administrativa, conta as complicações físicas e psicológicas que teve ao fazer um aborto clandestino

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

"Descobri a gravidez em um momento que não tinha condições psicológicas de cuidar de uma criança. Estava com 37 anos, já tinha uma filha – na época, ela tinha 17 – e meu relacionamento não estava bem. Tinha acabado de perder meus pais. Minha mãe morreu e, sete meses depois, perdi meu pai. Meu companheiro viajava muito. Ele já não tinha participado ativamente da criação da nossa filha e eram meus pais que sempre me ajudavam. Sem eles, fiquei sem saber o que fazer e decidi abortar.

Moro em Santana do Livramento, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, onde o aborto ainda não era legalizado, mas já era descriminalizado. Quando estava com quase três meses de gestação, cruzei a fronteira para comprar Cytotec (medicamento com efeito abortivo).

Como não tinha receita, procurei uma farmácia clandestina. Comprei quatro comprimidos, mas não adiantou. Usei uma agulha de tricô e comprei mais comprimidos, mas também não aconteceu nada.

Foi quando ouvi falar que tinha um médico na minha cidade que fazia aborto por R$ 1,2 mil, em um hospital particular. Já estava com quatro meses de gravidez e decidi ir a essa clínica, por achar que era uma coisa mais segura. Fui sozinha. Meu companheiro só me deixou no local, mas não quis esperar. Tinha as coisas dele para fazer.

Após o procedimento, acordei em um quarto e apareceu uma enfermeira. Ela disse que o médico mandara avisar que tinha fuçado muito dentro de mim e que ia sentir dor. Fui para casa, deitei na cama e parecia que minha barriga tinha aumentado; era uma dor forte. Meu companheiro, então, voltou para casa e me levou para o pronto-socorro. 

Chegando lá, contei o que tinha acontecido e senti que a reação foi como se eles estivessem querendo me punir. Não fui atendida de imediato, ficavam me mandando de sala em sala. Cheguei umas 14h30, mas só fui receber atendimento às 19h15. Quando o médico viu a minha situação, ele mandou internar na hora.

Comecei a receber medicação e, no dia seguinte, fiz exames que mostraram que o médico que fez o aborto havia perfurado o meu útero e o meu intestino. Tive de passar por uma colostomia. Nem sabia o que era isso na época. Só me lembro de ter acordado depois da cirurgia e ver que estava com a bolsinha para as fezes na barriga. Isso me causou vários problemas psicológicos.

Por sorte, após um ano e meio, consegui reverter e deixei de usar a bolsa de colostomia, mas toda a história me deixou traumas.

Até hoje, faço acompanhamento psicológico. Meses depois do aborto, me separei, descobri que meu companheiro já estava em outro relacionamento. Ele sempre foi omisso com a nossa filha, no aspecto financeiro e no cuidado também. Isso ia acontecer de novo se eu tivesse outra criança.

Não morri porque não era a hora, mas eu não precisaria ter passado por tudo isso se o Estado garantisse o acesso a um procedimento seguro. Seria até mesmo muito mais barato para o governo oferecer o aborto do que ter de tratar as complicações causadas por procedimentos clandestinos. Isso que passei deve acontecer com outras mulheres, principalmente as pobres. É uma hipocrisia proibir o aborto. É uma decisão que tem de ser nossa."

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