'Não há base' para crer na inferioridade da África, diz Watson

Em declarações durante lançamento de livro e em artigo na imprensa inglesa, ganhador do Nobel desculpa-se

Reuters e BBC,

19 de outubro de 2007 | 13h54

O ganhador do Prêmio Nobel James Watson, que chocou a comunidade internacional ao fazer declarações tidas como racistas, defende-se em artigo publicado na edição desta sexta-feira, 19, do jornal britânico The Independent. Na noite de quinta-feira, Watson foi afastado do cargo de chanceler (espécie de reitor) do Laboratório de Cold Spring Harbor, em Nova York, onde trabalha desde 1948, por conta de suas declarações sobre raça, veiculadas no Sunday Times.    Laboratório suspende cientista Nobel por declaração racista    Nobel se desculpa por declarações sobre inteligência dos negros   No artigo para o Independent, Watson, co-descobridor da estrutura de hélice dupla do DNA, desculpa-se por qualquer tipo de ofensa que possa ter sido vista em suas declarações, nas quais sugere que africanos negros são menos inteligentes que ocidentais.   Mas o cientista reafirma sua posição de que o estudo dos genes pode ajudar a entender as variações na inteligência humana.   Ele sugere que os genes podem explicar muitas características de comportamento, incluindo a criminalidade. "O pensamento de que algumas pessoas são perversas por natureza me perturba... Mas a ciência não está aqui para nos fazer sentir bem".   Watson lança mão da idéia de seleção natural para especular que diferenças de comportamento e potencial podem ter surgido entre povos de diferentes contextos geográficos.   "Questionar isso não é ceder ao racismo", defende-se. "Não se trata de uma discussão de superioridade ou inferioridade, mas de buscar entender diferenças".   Em entrevista ao Sunday Times, o geneticista, de 79 anos, disse que estava "intrinsecamente pessimista sobre as possibilidades da África" porque "todas as nossas políticas são baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa, quando todos os testes dizem que, na verdade, não é".   Watson ainda disse que esperava que todas as pessoas fossem iguais, mas que "aqueles que têm de lidar com empregados negros não acham que isto seja verdade".   No artigo desta sexta-feira, o pesquisador diz que nunca se furtou a dizer o que acredita ser verdade, não importa o quanto possa ser desagradável. "Muitas vezes, isso me colocou em apuros", diz o texto. "Raramente mais do que agora".   "Posso entender boa parte dessa reação. Porque, se eu disse o que fui citado por dizer, então só posso reconhecer que estou estupefato. Aos que tiraram a inferência, de minhas palavras, de que a África, como um continente, é geneticamente inferior, só posso me desculpar sem reservas. Não é o que quis dizer. Mais importante, do meu ponto do vista, não há base científica para tal crença".   Esse pedido de desculpas é o mesmo feito pelo cientista na noite de quinta-feira, durante o lançamento de seu livro de memórias Avoiding Boring People (Evitando pessoas chatas, em tradução livre).   Há muito tempo Watson declara haver uma base genética para a inteligência, algo incontestado por outros cientistas. Mas especialistas negam que existam "raças" em termos genéticos, pois o termos se refere apenas a características físicas externas.                                     As declarações publicadas no domingo provocaram forte reação no meio científico. Elias Zerhouni, diretor do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, disse que o cientista errou "sob todos os pontos de vista...(as declarações) são completamente inconsistentes com o corpus da literatura de pesquisa nesta área".   "O prestígio científico nunca é um substituto para o conhecimento. Como cientistas, ficamos ultrajados e entristecidos quando a ciência é usada para perpetuar o preconceito", disse Zerhouni.

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