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‘Não há evidência de eficácia’, diz cientista sobre pílula da USP

Segundo professor do Instituto de Física de São Carlos, é preciso demonstrar que remédio usado contra o câncer não é tóxico

Entrevista com

Glaucius Oliva

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2015 | 03h00

As complexas, caras e demoradas exigências da legislação para a aprovação de um novo medicamento não existem para atrasar descobertas que poderiam salvar vidas. Ao contrário, existem para proteger a população e garantir que a indústria não venda remédios tóxicos e ineficazes, segundo Glaucius Oliva, professor do Instituto de Física de São Carlos. “Como a pílula de fosfoetanolamina não passou por nada disso, não há evidências de segurança, nem de eficácia”, disse Oliva, que é o coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Por que o caminho para os testes clínicos é tão complexo?

É preciso demonstrar cientificamente, do ponto de vista experimental, que o remédio não é tóxico e é eficaz. Para isso há padrões e normas internacionais extremamente rigorosos. Sem essa regulamentação, qualquer um poderia encontrar uma molécula promissora e testá-la em pessoas, com riscos quase incalculáveis.

A pílula de fosfoetanolamina não passou por essa rota?

Não passou por nada disso. Não há evidência de segurança nem de eficácia e não se sabe que doses devem ser usadas para produzir o efeito desejado. Dizer ‘Eu tomei e não aconteceu nada comigo’ não prova que o remédio não será tóxico ou inútil para as pessoas.

Alguns tendem a imaginar uma espécie de conspiração contra avanços promissores.

Isso é bobagem. A legislação existe para proteger o paciente. A indústria farmacêutica não é beneficiada por eles, ao contrário.

O que o senhor achou da distribuição da pílula?

É muito complicado fazer isso. Quando há estudos clínicos em humanos, há médicos que se responsabilizam. Quem é o responsável nesse caso? Essa pílula não tem médico envolvido. Do meu ponto de vista, a distribuição viola leis que existem para proteger as pessoas. Os juízes deveriam se escorar em opiniões técnicas e exigir testes clínicos. Estão abrindo um precedente arriscadíssimo. Nem sequer foi publicado artigo científico.

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